31 julho 2007

prosa com marcos em sua casa, cruzeiro do sul
Juracy Xangai
marcos athaydes, prof. da universidade da floresta

depois do almoço

depois de meu primeiro ano de pesquisa tomei consciência de que não podia falar do conhecimento guarani, meu falar estava infectado e infectaria tudo com o que tomasse contato;
o que deveria fazer seria processar o meu discurso, ao invés de vender por tão pouco o conhecimento raro dos guarani;
pois é, a velha história do macaco que vai ajudar a piaba que sobe o rio e acaba matando o peixe;
meu discurso tinha que passar por uma renovação por um processo de limpeza, de regeneração;
descobri como parte desse caminho, tomando a hermenêutica, a filosofia e a antropologia que a epistemologia seria o caminho para esse processo;
sem reconstituirmeu próprio conhecimento, suas características e seus pressupostos não poderia falar de outro saber, pois ao tocar esse saber, meu discurso absolutizante e objetivista já o transformava em seu objeto, em outra coisa;

ponto de inflexão antropológico
o ponto de partida para uma crítica do nosso pensamento foi compreender o percurso, ou melhor a gegealogia do discurso epistêmico;
começando pelo positivismo, resultado da obsessão iluminista, o entendimento do cruzamento de sistemas sígnicos de que ele resultava, a confusão entre o verbal e outros regimes, que conduz à afirmação objetiva e à concepção de um conhecimento universal, concepção contestada então pelo construtivismo;
a crítica a essa concepção positivista é encaminhada pela antropologia francesa até chegar ao estruturalismo que toma o problema dos regimes sígnicos como questão fundamental da antropologia e da comparação entre sistemas de conhecimento, entre pensamentos;
pode-se traçar uma gênese nos trabalhos de durkheim e mauss, que começam a trabalhar a questão dos regimes simbólicos e numa definição de cultura que supere a do positivismo descritivista;
a religião é o campo fecundo onde os pensadores se debruçarão para buscar especificidades dos regimes sígnicos, as quais rebaterão em nossa correlação/confusão positivista entre palavras e coisas;

Madeireiras do Peru ampliam roubo de madeira da Amazônia brasileira
domingo, dia 29, os ashaninka da apiwtxa compuseram mais um manifesto denunciando o que fica de fora da delicada situação junto ao governo peruano;
o negócio é que o que fica de fora do discurso oficial e da imprensa (e nossa cultura do deixar de fora é a herança da democracia ditatorial que remete às raizes coloniais) é o mais importante para nós, imperceptiveis, que exploramos o fundo (plano de imanência) dessa forma discursiva;
a falta de uma política efetiva e o amadorismo do governo brasileiro que segue cozinhando a questão enquanto os peruanos se aproveitam da situação para implementar sua máfia e torná-la cada vez mais poderosa na frágil democracia capitalista dos peruanos;

27 julho 2007

trabalho de monitoramento prticipativo na reserva extrativista do alto juruá, a mesma saqueada pelos peruanos nos últimos anos

monitoramento local

na reserva do alto juruá há um trabalho de monitoramento que vem sendo feito pelos extrativistas desde a criação da reserva;

esse projeto sobrevive apesar da política local, não tendo sido ainda reconhecido ou valorizado pelos órgãos estaduais, nem pelo ibama ou qualquer outra instância federal;

no entanto, quem sabe não é um momento propício para o estado abrir espaço para a articulação das próprias pessoas, pois quem reconhece nos moradores da reserva a possibilidade de um projeto político autônomo para os extrativistas, assim como para os povos indígenas da região, são os ashaninka do amônia que tem comprovado isso com a efetivação do centro yorenka ãtame que já realiza suas primeiras atividades após a inauguração no último dia sete;


monitoramento desenvolvido pelos moradores da reserva sem qualquer apoio do estado

só assim, com um modelo de monitoramento que envolva os moradores da reserva acredito ser possível conter as invasões, pois que se lembre que um dos produtos mais importantes a ser exportado pela estrada do pacífico será a madeira, o que fortalecerá o mercado madeireiro nos dois países, assim como seu campo de influência na região;


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Extraño. Integrantes de un cuerpo armado de Brasil han sido denunciados por hostigar a ciudadanos de poblados peruanos. (Foto: AP)

imagens da gafe do jornal peruno la republica

monitoramentos

nossa reação diante de fatos tão delicados pode ser igualmente cômica;

a jornalista brasileira escreve que o ibama quer que o peru não conceda mais permissões abusivas em terras acreanas e com isso contribua para o monitoramento;

como se o governo do peru pudesse conceder permissões não-abusivas em terras acreanas..

com o ibama mais uma vez jogando a toalha, já era hora de começar a se pensar com seriedade em políticas de monitoramento das reservas que constassem nos planos de manejo dessas reservas;

de fato, não se pode esperar muito ou quase nada do modelo de monitoramento oficial, como um monitoramento militaresco do exército, que, aliás, não está presente na fronteira mas constrói atualmente uma base na área da reserva, em marechal taumaturgo, ao lado da cidade...

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desorientados, peruanos e sua imprensa não sabiam o que faziam em reservas brasileiras...

ignorando as denúncias que vêm sendo feitas há anos pelos indígenas brasileiros, a imprensa dos peruanos rapidamente se posicionou a denunciar o exército brasileiro, pasmem, por estar fiscalizando e detendo os invasores em território brasileiro;

o alarde da imprensa se justificou quando foi revelado que os técnicos da forestal venao tinham cartas falsas, com marcos que avançavam território de reservas adentro, e mais de vinte concessões do governo peruano para explorar os territórios ashaninka do amônia e reserva extrativista do alto juruá;

dado isto, pode-se compreender a veemência com que e afirmava a invasão do território em mais provas que a foto do engenheiro da venao apontando para um mapa da fronteira;

a imprensa que equivocadamente teria criado esses inúmeros factóides, assemelha-se, no caso, ao governo que, igualmente equivocado, teria liberado as mais de vinte concessões no território brasileiro;

essa prática não nos estarrece, pois condiz com a política desenvolvimentista do governo peruano, principalmente o de pucallpa que está bastante articulado com a empresa forestal venao e condizente com seus feitos de expansão territorial;

pingo em bate papo com lama (2)

arquitetos... continu...

para aqueles que não conhecem o pingo, posso apresenta-lo como um monstro dos saberes da floresta, que há décadas vem pesquisando as zonas de fronteira, pacíficas ou conflituosas, do conhecimento ocidental e do conhecimento local;

foi um dos fundadores do projeto seringueiro e de lá pra cá tem desenvolvido uma pesquisa teórica e prática para o reconhecimento das especificidades desse conhecimento, de sua organização, de sua didática, procurando fornecer elementos para a reflexão dos professores da floresta;

a idéia de modelo é um elemento em que pingo centra fogo;

atualmente procura desenvolver uma proposta de ensino de ciências para escolas indígenas baseada na articulação entre as disciplinas, um entendimento das ciências que opere a partir dos problemas, interligando os recursos da física, da química e até de outras;

a idéia é amenizar a importância exagerada dada à teoria, síndrome do modelo ocidental, e trazer as questões para a experiência;

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arquitetos em trabalho alquímico

o amigo pingo esteve em casa ontem, ficamos conversando e trabalhando a manhã toda, procurando resolver uma série de problemas;

debatemos o modelo de conhecimento ocidental e a forma com que configura um universo homogêneo, no qual as demais culturas são ressignificadas e minadas;

comentamos o caráter positivista de conhecimento, cuja tradição iluminista remete às concepções de conhecimento idealista/racionalista e empirista, buscando levantar características do nosso modelo que forneçam pistas para o reconhecimento de modelos possíveis pensados a partir e para pedagogias da floresta que considerem os valores próprios ao conhecimento de seringueiro, ribeirinhos, extrativistas, povos indígenas em geral;

e também para que esses modelos outros, com sua simples existência, desloquem as referências do monoteísmo típico ao modelo ocidental, visto que a deformação desse modelo se deve, em grande parte, à sua autoreferência;

tangenciamos, assim, as referências místicas, filosóficas, políticas, que se interpenetram no modelo de colonização que submetemos e fomos submetidos;

de foucault, tomamos o caráter anti-positivista de sua teoria política do conhecimento;

de morin, tomamos a crítica, igualmente anti-positivista, ao modelo objetivista, que pressupõe a separação e a neutralidade do sujeito de conhecimento diante do objeto, chamando às diversas possibilidades de integração da epistemologia de complexidade, em contraste com a simplicidade do modelo sujeito x objeto;

com nietzsche chegamos ao contraponto entre positivismo/marxismo e construtivismo, encarando inclusive o conceito de vontade de potência;

a noção de poder redefinida como jogo de forças, como relações de força inerentes ao próprio conhecimento, como relações tecidas no cotidiano, que ganham sentido na micropolítica, podendo deixar o estigma de um poder substantivado, tornado em coisa que se detém;

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26 julho 2007

erratas da imprensa peruana ou matéria paga

só rindo... todo o alarde da atrapalhada imprensa peruana, com direito à denúncia de seqüestros, torturas, marinha, ministro da defesa e presidente mostrou bem seu comprometimento com os invasores que roubam madeira de lei das reservas extrativista e indígenas do território brasileiro para exportar;

o ibama esclareceu hoje que o marcos dos mapas peruanos eram falsos e suas concessões ato de corrupção;


novamente as manchetes peruanas, que agora em outro contexto se tornaram ilárias

21/07

Brasileños secuestran a tres peruanos en región Ucayali

Foráneos quemaron centro maderero de Nueva Shahuaya y amenazaron a nativos, que piden protección

22/07

Denuncian hostigamiento del ejército brasileño en frontera

El canciller peruano, José García Belaunde, informó que se están investigando los hechos en coordinación con el gobierno de Brasil

23/07

Liberaron a peruanos detenidos en frontera con Brasil

Gerente general de Forestal Venao informó que compatriotas fueron sometidos a maltratos físicos por el grupo militar brasileño.
globalização peruana em terras brasileiras

diante dos fatos de hoje, note a ingenuidade de meu comentário de ontem...

globalização peruana

há anos a venao, exportadora de madeira de pucallpa, tem tradicionalmente invadido e retirado madeira de lei ilegalmente em terras ashaninka do amônia e, mais recentemente, da reserva extrativista do alto juruá;

os ashaninka tem uma luta reconhecida internacionalmente de anos, uma luta diplomática, educativa, política;

diante do reconhecimento a essa luta, já se pode dizer hoje, com razão, que o governo peruano e o governo de pucallpa tem levado na má fé, dizendo uma coisa e fazendo outra ao apoiar explicitamente a madeireira, comprometida decerto, com seus financiadores internacionais;

afirmo isso apoiado na política desenvolvimentista e nas afirmações que tem sido feitas pelo próprio governo com relação ao caso;

estamos vivendo novos tempos de política e mercados internacionais, nos quais as velhas referências nacionais parecem estar descaracterizadas;

a força do mercado internacional nesses tempos de “globalização” tem determinado, e muito, a política interna e externa de importantes estados nacionais da ordem global, especialmente na américa latina, com sua tradição de submissão política e econômica, como no caso do próprio brasil;

pode-se dizer, isso é uma coisa antiga, com o que concordo, o que digo não é novidade;

no entanto, considero importante observar como os peruanos seguem essa lógica com uma naturalidade que nos estarrece;

já era claro que a posição que se podia atribuir à venao, deve ser atribuída ao próprio governo de pucallpa e ao governo peruano, que se utilizariam da venao para criar esse conflito junto á opinião pública internacional, ao mesmo tempo que essas mesmas instância representativas do estado peruano são utilizadas pela articulação madeireira internacional que está por trás da forestal venao;

dessa forma, podemos ainda continuar fingindo crer na boa fé do estado peruano e, apoiados no direito internacional, chamar a sua atenção para as formas com que o complexo venao manipula políticas locais e imprensa nacional, ou tratarmos definitivamente, como é de conhecimento local, que os próprios representantes do país vizinhos declaram abertamente seu livre tráfego (e o tráfico da venao) pela fronteira como estratégia econômica regional, o que ficou comprovado pelos marcos falsificados;

pode-se crer, então, que podemos ainda insistir na via diplomática e exigirmos, via imprensa, os direitos internacionais de que estamos sendo lesados, mas também devemos estar atentos, como o marcelo está, para a mobilização internacional que a articulação entre indústria local e comparsas, governo e madeireiras internacionais investem na imprensa e na opinião pública, pois o conflito pode estar sendo criado não pela venao, e sim por essa articulação;

aí talvez a estratégia seja outra, talvez mais agressiva, talvez mais articulada;

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prezado corisco,
ao invés de fazer referência à minha matéria publicada no blog do altino, linka com essa outra, que é a mesma, mas mais completa e melhor escrita; http://www.amazonia.org.br/opiniao/artigo_detail.cfm?id=250090
te agradeço;
informações mais locais são bem-vindas, para a gente conseguir dar um acompanhamento mais fidedigno à questão;
encaminho anexo as matérias de hoje;
http://www2.uol.com.br/pagina20/26072007/c_0126072007.htm
abraço,
marcelo

25 julho 2007

foto da invasão peruana da forestal venao em reservas brasileiras, cuja denuncia deu origem à reação peruana
invasões da madeireira venao estão definindo a política internacional do peru;
é o que dá a pensar a campanha que a imprensa peruana colocou na rede essa semana;
a tempertura esquentou e o jornal la repubica mandou essa sequência de manchetes, veja aqui a matéria de marcelo piedrafita em 24_07;



21/07

Brasileños secuestran a tres peruanos en región Ucayali

Foráneos quemaron centro maderero de Nueva Shahuaya y amenazaron a nativos, que piden protección

22/07

Denuncian hostigamiento del ejército brasileño en frontera

El canciller peruano, José García Belaunde, informó que se están investigando los hechos en coordinación con el gobierno de Brasil


23/07

Liberaron a peruanos detenidos en frontera con Brasil

Gerente general de Forestal Venao informó que compatriotas fueron sometidos a maltratos físicos por el grupo militar brasileño.

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23 julho 2007

como ignorar 190 acessos na primeira semana de contador...
valeu amigos...
mais silêncio...

foto: mauro

para não se perderem as referências: os temas que trato no escrito o enigma e seus devires se referem não só ao texto de rubem alves anexado, refere-se principalmente ao texto anteior que postei e ao comentário de vanderlise;

acredito nessa escola dos antropólogos amadores, a que me alinho;

é uma boa linhagem e não vejo nela essa oposição, o que vejo é a diferença;

minha afinidade é com pensadores que tiveram formação em outras áreas e, só mais tarde foram fazer antropologia, autores como clastres, seu mestre, leon cadogan, levi-strauss, mauss, e até deleuze e, talvez, foucault que se constituíram como referência ao trabalho antropológico;

não vejo que é bobo, pois não estou querendo tirar das minhas costas o peso da civilização ou despistar as estratégias de dominação da antropologia seja ela amadora ou não;

o que estou fazendo é trazer um elemento com que tomei contato em alguma hermenêutica, não sei bem se na de ricoeur ou na de eliade, ou mesmo na antropologia de seeger, ou mesmo na literatura, mas, de qualquer forma, definitivamente, está presente na proposta de educação fática de meu mestre josé carlos de paula carvalho;

esse elemento, que pode compor o quadro do construtivismo que persigo, traz, diga-se assim, o caráter do estilo para a ciência;

como o artista tem seu estilo, assim também o terá o cientista, pois não se opera no horizonte da objetividade descritiva do positivismo, onde a forma consiste na isenção, para se obter a neutralidade no conteúdo;

a formação determina a abordagem, a perspectiva, não é um elemento estritamente pessoal, da vida do autor;

além do mais, quando falo de estudar antropologia com os indígenas, não estou falando da questão pessoal, e sim de uma postura epistêmica e política, ou seja, no plano discursivo e não estritamente no plano pessoal;

portanto, acredito que essa carranca que coloco a frente de minha embarcação para assustar espíritos de antropólogos não é alguma vantagem pessoal que estou contando, ela é feita de um material epistêmico, ela conceitualiza a vida;

penso que essa forma de lidar com o conhecimento é uma alternativa para o tema que tratei em meu último email para a lista, qual seja, o da forma de se ler a antropologia (e mesmo a filosofia);

como ler o pensamento de uma perspectiva não-positiva, pois podem ser feitas, no limite, até leituras positivistas do próprio construtivismo, de nietzsche, de deleuze e foucault, enfim, do caras que deram nó no pensamento e em sua matriz ocidental;

vejo no devir esse cruzamento de vida e conhecimento, de desreferencialização epistemológica;

o devir é o que está mais próximo desse conhecimento silencioso, pois na verdade, não se trata de silenciar literalmente, até nisso é preciso mudar a freqüência do seu “ouvir”, para se entender que esse princípio tem por referência um falar do pensamento positivo, um falar que não para de falar, que intermedia tudo por um falar compulsivo, que só entende o que é explicado;

lido com essa compulsão como matéria prima: sou professor de literatura, estudei todas as disciplinas de literatura oferecidas em meu curso, na graduação já freqüentava os cursos de pós-graduação em teoria literária;

sofri com todas as formas de se explicar a literatura, a poesia, a arte;

em compensação encontrei alguns mestres do conhecimento silencioso, que faziam a ponte, sem ter que explicar e danificar o sentido daquilo que só pode ser passado por essa forma de conhecimento;

trabalhar com esse conhecimento num meio em que as formas que determinam o conhecimento o determinam como mercadoria, cujo valor é estritamente o de troca, é um desafio que só se justifica por seu próprio aperfeiçoamento;

comentários...


compreender a palavra e compreender o silêncio


quando comecei a estudar a cultura indígena junto aos indígenas (não me
iniciei na antropologia via academia e livros, sou um antropólogo amador – antropólogo amador??? não acho não, amilton; vc até pode ter sido, dá até um charme na sua iniciação, mas não é mais não, e já tem um tempo; inclusive a pós-graduação vc já tem; iniciar-se pela “academia e livros” parece ser menos nobre do que “estudar a cultura indígena junto aos indígenas”; acho isso meio bobo, e não necessariamente opostos, vide clastres e outros que vc tanto admira)
topei com uma série de tabus, de interditos, que logo percebi e tomei como
a forma de um conhecimento e não, etnocentricamente, como empecilhos ao
conhecimento;
uma das coisas que percebi era uma inadequação entre minha estrutura
sensível, moldada por minha cultura, comportamento e valores e o regime de
sentido com que tomava contato junto aos guarani;
algo que, de início, já se me exigiu colocar em dúvida foi a obsessão com
que tomava contato com o conhecimento através da palavra, da fala, das
referências verbais;
mais claro: como o regime lógico, racional, verbal-explicativo,
intermediava e determinava a minha concepção de conhecimento e meu contato
com ele;
nesse universo aprendi o poder da palavra e o poder do silêncio;
coloquei-me a estudar essa obsessão pela palavra, pela referência
objetiva, pela explicação positiva que configuram, para nós, a face da
verdade; muito bacana este mote inicial que te moveu, e te move; desloca um monte de coisas, e abre tantas outras, tantas outras antropologias, talvez uma até mais silenciosa, com outros recursos discursivos (é assim que se fala?) – o que é interessante também (não sei se paradoxal) é o quanto, entre nós, não paramos de falar e usar as palavras para nos fazer entender...
não era simples afirmar que a aprendizagem indígena se dá por meio do
canto, da dança, do silêncio... isso parecia simplesmente tomar por
verdade o misticismo indígena;
no entanto, esse relativismo raso era só meu ponto de partida, minha
intenção era desmonta-lo, não afirma-lo;
a revolução que me impunha, que impunha à minha configuração do mundo,
acompanharia a revolução que esse outro conhecimento, o indígena, propunha
ao meu saber, ao saber acadêmico, com sua forma da verdade, com suas
universalidades, com sua história e sua política, com seu discurso;
o problema é que os critérios para possíveis definições de conhecimento
que possuía e podia imaginar tinham como referência esse meu saber, com
suas generalidades, seus universalismos, seus padrões, suas lógicas,
razões, verdades, histórias; uau, isso é que é impasse! tem um suspense na narrativa que faz prender o ar até o próximo parágrafo (ou email)...
assim, o primeiro problema era buscar, recortar ou inventar os critérios
do conhecimento guarani: há um saber, há uma escola, há uma pedagogia...?
como pensar a dança, a música, a mística, a política... ?
era um trabalho de construção de referências, no qual não acreditava ser
possível de um conhecimento guarani desembaraçado do meu saber acadêmico (não era possível anular-se por inteiro, é isso? então tem a busca da, digamos, ciência guarani, do modo guarani de dar sentido ao mundo e de transmitir este sentido, mas tem o amilton que veio da academia, que tem esta auto-consciência... como estar dentro e fora (da ciência guarani e acadêmica)?
no qual buscava absorver a influência do pensamento guarani através das
diversas experiências que ia vivendo, das viagens às conversas e pessoas
que conhecia... “absorver a influência do pensamento guarani...” sobre vc.

de fato, levi-strauss já provara que os índios pensavam, isso não
precisava ser feito, já ousara traçar aspectos do pensamento selvagem,
analisando e propondo inicialmente o pensamento a partir do mito, dos
contos;
essa proposta lhe chegou da tradição antropológica francesa, que tem em
mauss o seu marco;
essa tradição encontra na antropologia o limite do positivismo e do
universo histórico-transcendental do século dezenove;
esse limite se constitui com a abertura da antropologia a outros regimes
de valor, não resistindo também o positivismo ao problema epistemológico
sistematizado por mauss em sua concepção de categorias nativas;
a partir daí, o panorama ocidental passa a ruir para si mesmo, a medida
que se impõe cada vez mais ostensivo para os povos e nações colonizados;
a antropologia coloca para a teoria do conhecimento um problema diverso de
qualquer outro: do seio da matriz da homogeneidade, constitui-se uma
disciplina da diferença;
essa diferença não se mantém no movimento de redução do pensamento
selvagem, ela cria referências de conhecimento e verdade bastante diversas
das referências da matriz;
esses pensamentos outros que passam a proliferar na antropologia,
modificando suas referências positivas constituem-se num processo de
virtualização do pensamento;o que vc quer dizer com virtualização? potencialização do pensamento noutras direções?
se a referência positiva de verdade consiste na objetividade a partir de
uma lógica da identidade, o virtual opera com as referências do
construtivismo; vc fala muito desse construtivismo, mas para mim não é muito claro; bom, remete imediatamente a uma idéia de algo que não está pronto, ou dado; fui ao popular aurélio (no dicionário de ciências sociais não há nada) e encontrei coisas como “estilo não figurativo que se desenvolveu no princípio do século XX entre os artistas soviéticos e se caracteriza pela disposição rigidamente formal do espaço, das massas e dos volumes, e pela utilização de materiais e técnicas industriais modernas (plásticos, vidros, etc.) – aqui para artes plásticas”, ou “teoria que propõe que o conhecimento resulta da interação de uma inteligência sensório-motora com o ambiente.” (aqui para psicologia); e “estilo moderno de cenografia e encenação caracterizado pela utilização de estruturas tridimensionais (praticáveis, escadas, andaimes, etc.) expressivamente simplificadas, por meio das quais se objetiva a abstração e a estilização, opondo-se, assim, ao ilusionismo realista;” (aqui para o teatro); bom, gostei desta última, que afirma uma oposição a uma realidade na verdade ilusória, e tem uma coisa de estética, de arte (“tudo é arte”...); como é isso, amilton?
o virtual redefine a metafísica que sustenta a ciência positiva ocidental
(e mesmo a história, dado que descobrir é o verbo que define nossa
história); tô sentindo um cheiro de foucault e nietzsche no ar...
lidar com outro pensamento ou com a possibilidade de pensamentos outros
resulta, por si só, na circunscrição do universalismo ocidental e de seus
pressupostos metafísicos;

levi-strauss constrói uma antropologia inspirada nos mitos, ou melhor,
tomando os mitos como seu princípio organizador;
é dessa forma que o mestre estruturalista passa de sua teorização do
pensamento selvagem para o problema epistemológico, a influência desse
pensamento selvagem na antropologia, disciplina fronteiriça e, por isso, a
mais afetada por essa diferença, problema com que a antropologia se
debatia há tempos;

olá, essa é a parte final, vai com um presente para os professores... no
anexo...é o ponto de partida desse texto...a professora agradece, e vai usar o texto... na última aula, diante do impasse “estamos sendo engolidos pelo capitalismo”, vimos o “v de vingança”...


a forma como se dá essa outra relação com a palavra, com o discurso
(categoria pouco compreendida – palavra e discurso não são a mesma coisa, certo? por que vc coloca uma atrás da outra aqui?) seria o ponto de partida pois deveria
iniciar problematizando o olhar/discurso com que eu via (ou melhor, a
minha cultura via através de mim) esse outro e seu modo de “ver” (fazer,
criar, viver etc) o mundo;
estava na academia e o caminho que tomei foi explicar para esses meus
amigos guarani o que era a academia e o que era esse conhecimento herdado
e modificado há tantas gerações, há tantas civilizações;
minha intenção era exorcizar o universalismo típico do colonialismo
próprio a dessa ciência e da cultura em que ela é gerada;
para isso, portanto, eu inverti o jogo e, perigosamente, fiz uma aliança
com os guarani: ao invés de explicar à academia o que era o conhecimento
guarani analisado segundo uma ou outra escola, uma ou outra teoria de
prestígio, optei por colocar esses saberes em conflito, por colocar seus
princípios em relação;
para tato, iniciei “tentando” explicar para os guarani, ainda que os meus
interlocutores guarani, ainda que os virtuais leitores guarani de minha
literatura;
como procurava dialogar com os indígenas sobre o conhecimento ocidental,
aquele do discurso da educação escolar indígena, de que eles propunham
instrumentalizar-se na medida certa, medida que não ameaçasse suas
culturas, mas lhes permitisse dominar recursos da sociedade ocidental;

essa alternativa que busquei foi a saída política que tinha à mão, saída
que converge tanto num problema epistemológico, quanto num problema de
linguagem, o que nos interessa aqui;
estava produzindo, como parte de minha vivência, que sempre foi o produto
principal em que mantinha minha atenção, concomitantemente um produto de
linguagem, uma reflexão teórica que resultava de/em meu processo de
formação;

foi só quando comecei a fazer parte do problema que passei a me dar conta
dele;
percebi inicialmente, ou melhor, de cara, que o que se escrevia entrava no
mesmo circuito daquilo contra o que se escrevia;
descobria o óbvio: a antropologia é um instrumento civilizador;
quis entender isso, como afirmar uma coisa poderia ter-lhe um efeito
contrário/negativo: como as empresas que trabalham a favor da preservação
da natureza podem ser parte do próprio sistema que condena cronicamente
esse mesmo ecossistema;

no way out... a que isso leva? essas afirmações meio mega correm o risco, parece-me, de não considerar as inúmeras mediações que há entre o local e o global; o que está na esfera do global não necessariamente se reproduz como tal localmente; não nego o processão que tem em volta, mas ficar preso nele, impressionado por ele, submetido a ele... a que isso leva? sei não, para mim também são dúvidas, pois não nego que toda esta nossa big civilização me assusta e impressiona;

não conseguindo escapar ao nosso positivismo narcísico, ao nosso ímpeto de
explicar definitivamente a realidade (disso se pode fugir, ou seja, da construção de verdades; e não se trata só de dizer que o conhecimento está sempre se superando, como diz weber, por ex; talvez a fuga tenha que ser mais radical ainda, e se deva afirmar que não se está explicando nada... mas se está o que, afinal?... este meu positivismo me pega mesmo! socorro...) acredito ter encontrado no silêncio, na dimensão silenciosa da aprendizagem indígena, uma linha de fuga para
esse pensamento e essa linguagem que se tornaram presa do mercado de
signos, onde os signos perderam suas referências e só tem valor de troca;
mas como vc transmite pra nós isso? como compartilha esta linha de fuga? ficando em silêncio? não entendi; bom, isto é uma provocação: quero saber mais! ah, sim, sempre resta o tango argentino... alguém sabe dançar tango?


21 julho 2007

o enigma e seus devires 4

essa alternativa que busquei foi a saída política que tinha à mão, saída que converge tanto num problema epistemológico, quanto num problema de linguagem, o que nos interessa aqui;

estava produzindo, como parte de minha vivência, que sempre foi o produto principal em que mantinha minha atenção, concomitantemente um produto de linguagem, uma reflexão teórica que resultava de/em meu processo de formação;

foi só quando comecei a fazer parte do problema que passei a me dar conta dele;

percebi inicialmente, ou melhor, de cara, que o que se escrevia entrava no mesmo circuito daquilo contra o que se escrevia;

descobria o óbvio: a antropologia é um instrumento civilizador;

quis entender isso, como afirmar uma coisa poderia ter-lhe um efeito negativo: como as empresas que trabalham a favor da preservação da natureza podem ser parte do próprio sistema que condena cronicamente esse mesmo ecossistema;

não conseguindo escapar ao nosso positivismo narcísico, ao nosso ímpeto de explicar definitivamente a realidade, acredito ter encontrado no silêncio, na dimensão silenciosa da aprendizagem indígena, uma linha de fuga para esse pensamento e essa linguagem que se tornaram presa do mercado de signos, onde os signos perderam suas referências e só tem valor de troca;


o enigma e seus devires 3

a forma como se dá essa outra relação com a palavra, com o discurso (categoria pouco compreendida) seria o ponto de partida pois deveria iniciar problematizando o olhar/discurso com que eu via (ou melhor, a minha cultura via através de mim) esse outro e seu modo de “ver” (fazer, criar, viver etc) o mundo;

estava na academia e o caminho que tomei foi explicar para esses meus amigos guarani o que era a academia e o que era esse conhecimento herdado e modificado há tantas gerações, há tantas civilizações;

minha intenção era exorcizar o universalismo típico do colonialismo próprio a dessa ciência e da cultura em que ela é gerada;

para isso, portanto, eu inverti o jogo e, perigosamente, fiz uma aliança com os guarani: ao invés de explicar à academia o que era o conhecimento guarani analisado segundo uma ou outra escola, uma ou outra teoria de prestígio, optei por colocar esses saberes em conflito, por colocar seus princípios em relação;

para tato, iniciei “tentando” explicar para os guarani, ainda que os meus interlocutores guarani, ainda que os virtuais leitores guarani de minha literatura;

como procurava dialogar com os indígenas sobre o conhecimento ocidental, aquele do discurso da educação escolar indígena, de que eles propunham instrumentalizar-se na medida certa, medida que não ameaçasse suas culturas, mas lhes permitisse dominar recursos da sociedade ocidental;

o enigma e seu devires 2

de fato, levi-strauss já provara que os índios pensavam, isso não precisava ser feito, já ousara traçar aspectos do pensamento selvagem, analisando e propondo inicialmente o pensamento a partir do mito, dos contos;

essa proposta lhe chegou da tradição antropológica francesa, que tem em mauss o seu marco;

essa tradição encontra na antropologia o limite do positivismo e do universo histórico-transcendental do século dezenove;

esse limite se constitui com a abertura da antropologia a outros regimes de valor, não resistindo também o positivismo ao problema epistemológico sistematizado por mauss em sua concepção de categorias nativas;

a partir daí, o panorama ocidental passa a ruir para si mesmo, a medida que se impõe cada vez mais ostensivo para os povos e nações colonizados;

a antropologia coloca para a teoria do conhecimento um problema diverso de qualquer outro: do seio da matriz da homogeneidade, constitui-se uma disciplina da diferença;

essa diferença não se mantém no movimento de redução do pensamento selvagem, ela cria referências de conhecimento e verdade bastante diversas das referências da matriz;

esses pensamentos outros que passam a proliferar na antropologia, modificando suas referências positivas constituem-se num processo de virtualização do pensamento;

se a referência positiva de verdade consiste na objetividade a partir de uma lógica da identidade o virtual opera com as referências do construtivismo;

o virtual redefine a metafísica que sustenta a ciência positiva ocidental (e mesmo a história, dado que descobrir é o verbo que define nossa história);

lidar com outro pensamento ou com a possibilidade de pensamentos outros resulta, por si só, na circunscrição do universalismo ocidental e de seus pressupostos metafísicos;

levi-strauss constrói uma antropologia inspirada nos mitos, ou melhor, tomando os mitos como seu princípio organizador;

é dessa forma que o mestre estruturalista passa de sua teorização do pensamento selvagem para o problema epistemológico, a influência desse pensamento selvagem na antropologia, disciplina fronteiriça e, por isso, a mais afetada por essa diferença, problema com que a antropologia se debatia há tempos;

o enigma e seus devires I

compreender a palavra e compreender o silêncio

quando comecei a estudar a cultura indígena junto aos indígenas (não me iniciei na antropologia via academia e livros, sou um antropólogo amador) topei com uma série de tabus, de interditos, que logo percebi e tomei como a forma de um conhecimento e não, etnocentricamente, como empecilhos ao conhecimento;

uma das coisas que percebi era uma inadequação entre minha estrutura sensível, moldada por minha cultura, comportamento e valores e o regime de sentido com que tomava contato junto aos guarani;

algo que, de início, já se me exigiu colocar em dúvida foi a obsessão com que tomava contato com o conhecimento através da palavra, da fala, das referências verbais;

mais claro: como o regime lógico, racional, verbal-explicativo, intermediava e determinava meu contato e minha concepção de conhecimento;

nesse universo aprendi o poder da palavra e o poder do silêncio;

coloquei-me a estudar essa obsessão pela palavra, pela referência objetiva, pela explicação positiva que configuram, para nós, a face da verdade;

não era simples afirmar que a aprendizagem indígena se dá por meio do canto, da dança, do silêncio... isso parecia simplesmente tomar por verdade o misticismo indígena;

no entanto, esse relativismo raso era só meu ponto de partida, minha intenção era desmonta-lo, não afirma-lo;

a revolução que me impunha, que impunha à minha configuração do mundo, acompanharia a revolução que esse outro conhecimento, o indígena, propunha ao meu saber, ao saber acadêmico, com sua forma da verdade, com suas universalidades, com sua história e sua política, com seu discurso;

o problema é que os critérios para possíveis definições de conhecimento que possuía e podia imaginar tinham como referência esse meu saber, com suas generalidades, seus universalismos, seus padrões, suas lógicas, razões, verdades, histórias;

assim, o primeiro problema era buscar, recortar ou inventar os critérios do conhecimento guarani: há um saber, há uma escola, há uma pedagogia...? como pensar a dança, a música, a mística, a política... ?

era um trabalho de construção de referências, no qual não acreditava ser possível de um conhecimento guarani desembaraçado do meu saber acadêmico, no qual buscava absorver a influência do pensamento guarani através das diversas experiências que ia vivendo, das viagens às conversas e pessoas que conhecia;

19 julho 2007

sementes dormem na terra sonhando nosso amanhã
vanderlise machado


olá novamente;
cá estou a fazer minhas intervenções - sou metida mesmo - pois quando li esta postagem (os ashaninka e a grande saúde) , me lembrei de um fato ocorrido da aldeia da estiva, em viamão, com os guarani, quando fazia minha pesquisa de mestrado;
a escola de lá é a mais completa do quadro geral, pois a única guarani que tem ensino fundamental completo e direção própria;
no entanto
, se parece mais com a escola comum do que uma escola indígena, tem muitos professores não-índios lá, e a princípio a merenda escolar vinha da sec/rs, como para qualquer escola - eles ainda recebem essa merenda, pois as dificuldades financeiras e de estrutura daquela aldeia é muito grande, eles são 107 pessoas - algumas em trânsito - dentro de 7 hectares!!!
mas a merenda que no in
ício era feita como para nós ocidentais, por uma merendeira "branca" juruá, foi terminantemente recusada pelos alunos, eles não comiam, simplesmente;
então a merendeira entristecida, porque não entendia como aquelas crianças que passavam fome se recusavam a comer a comida dela, achando que faziam isso por preconceito com ela, um dia, conversando conosco, conseguiu entender que ela tinha que procurar saber o que eles comiam, como gostavam do alimento, e passou então a fazer parceria com uma mãe guarani, que a ensinou a fazer comida guarani, então as crianças passaram a comer a merenda e ela a se integrar melhor a esse outro mundo, a essa outra filosofia;

mas fica a dúvida, que tive desde sempre: não seria bem melhor se a merendeira fosse uma mulher guarani? que autonomia é essa que proporcionamos - se é que se pode falar assim sobre um grupo que já é autônomo - se nos mantemos no poder de dar as cartas?
a educação indígena ainda é uma incógnita para ser decifrada....

antropologia ashaninka aplicada

das idéias debatidas sobre o projeto yorenka ãtame nas rodas de conversa dos dias que precederam a inauguração do centro, há um ponto que considero crucial na concepção do projeto;

de um lado, foi colocada uma necessidade de um suporte técnico que deverá apoiar os condutores das atividades do centro;

vejo nesse apoio técnico um perigo: o risco à autonomia técnica desses agentes florestais professores e à autonomia de seu saber técnico;

sendo otimista, seria a oportunidade de constituição de um saber que combinasse técnicas tradicionais ou saberes indígenas com conhecimento acadêmico;

sendo pessimista, olha-se para o mercado dos técnicos e não se vislumbra especialistas com tal sensibilidade etnológica e visão epistemológica compatíveis às propostas do projeto, especialistas que possam trafegar e criar a partir dessa diversidade de pensamentos;

por outro lado, foi colocado e debatido uma outra concepção de parceria técnica;

essa parceria será alternativa ao conhecimento técnico acadêmico e sua matriz;

a alternativa consiste na interação com técnicos indígenas de outras partes do mundo que desenvolvam projetos similares aos da escola;

a própria pesquisa desses outros centros, de iniciativas similares à yorenka ãtame pode consistir num processo de formação inicial seja para o grupo gestor local, seja junto aos próprios pesquisadores do centro;

para tanto, a apiwtxa dispõe de ampla gama de parceiros com que se pode articular tais contatos que podem ir de reservas à terras indígenas, entre outras unidades de conservação e comunidades voltadas à sustentabilidade;

essa segunda hipótese, de parceria com técnicos indígenas, que podem inclusive ter formação acadêmica, apóia-se em diversas justificativas;

inicialmente posso justificar com essas diversas incompatibilidades entre os pressupostos (econômicos, políticos, místicos etc) que sustentam esses modelos de conhecimento diversos (técnica tradicional e técnica acadêmica) sobre as quais temos escrito;

outra justificativa encontra-se em sua concepção política, já que esse tipo de associação e parceria deve servir para articular, fortalecer e legitimar os saberes tradicionais;

portanto, os laços entre as comunidades deverão ser reforçados com reconhecimento e o intercâmbio desses saberes;

creio na importância dessa justificativa devido ao fato do enfoque político estratégico do centro não se restringir à ação local, e sim visar essa articulação com parceiros de projetos similares visando a construção e fortalecimento de redes que desenvolvem esse trabalho;

meus pressupostos a uma antropologia ashaninka

nesses dias que passamos debatendo o projeto do centro yorenka ãtame, fui percebendo afinidades entre o pensamento que venho elaborando ao longo dos últimos anos no campo da antropologia educacional e da etnologia;

há uma postura política de independência e autonomia que admiro, mas a afinidade em termos de pensamento se dá a partir de quando essa postura se desdobra em sua antropologia e sua concepção de conhecimento;

assumi há anos o referencial filosófico para a abordagem da antropologia, referencial que tem em nietzsche um marco central seja por sua abordagem da tradição do pensamento ocidental, seja por sua concepção estética do pensamento;

articula a antropologia à epistemologia (teoria do conhecimento) problematizando um tabu do pensamento ocidental, herdado da tradição milenar do pensamento teológico: os valores;

em genealogia da moral não só problematiza os valores, o valor dos valores em nossa cultura, como analisa a gênese desse processo, marcado pela tradição cristã;

demonstra com essa análise como o pensamento ocidental universaliza seus valores, como faz de seu saber um conhecimento absoluto sobre a realidade (positivismo);

acredita-se o único sistema de conhecimento detentor da verdade, concepção criada no interior desse sistema a partir dessa absolutização dos valores;

esse sistema de valores consiste no principal instrumento de colonização, pois aquilo que tem valor para os ocidentais deve passar a ter valor nas colônias, entre os povos colonizados;

nesse processo, o judaico-cristianismo fornece um pensamento que conduz à unificação em um único sistema de valores, uma unidade política;

é nessa medida, à medida que encontra nos valores o problema da filosofia e da teoria do conhecimento em geral, que se vincula com a antropologia;

abre-se uma outra perspectiva para o conhecimento quando outros valores entram em órbita e relativizam as certezas absolutas que marcam o projeto político do positivismo ocidental;

portanto, a noção de valores dá o tom de minha concepção de antropologia, da antropologia que conheci na experiência;

no fluxo de uma possível articulação filosofia/antropologia ashaninka, tomo o problema do valores como uma chave conceitual para decifrar esse pensamento;

suas concepções de riqueza e pobreza têm sido uma chave para pensar a cultura dominante com a qual estão em contato;

ao objetivarem os valores, ao fazer da contraposição entre os nossos valores e os seus um procedimento, constroem um instrumento que media sua interação com a política ocidental, com o saber ocidental etc;

constituem assim uma impermeabilidade em relação ao espírito ocidental, impregnado de universalismos, e aos seus valores absolutos;

os ashaninka e a grande saúde

meu contato com a antropologia ashaninka já vem de tempos atrás, quando há uns dois anos assisti um vídeo sobre a aldeia e sua organização, seu cotidiano etc;

chamou-me a atenção um projeto da aldeia referente à merenda escolar: os ashaninka declaravam que não lhes interessava a comida vinda de fora e tinham um projeto para o fornecimento de merenda escolar local;

nesse projeto eles se propunham a utilizar os recursos destinados à merenda para viabilizar junto à comunidade o fornecimento dos alimentos para a escola;

eles diziam que a comida que chegava de fora, além de não parecer saudável, não condizia com os hábitos alimentares de sua cultura e assim não compreendiam como que no espaço escolar, onde eles procuravam fortalecer sua cultura, as crianças deveriam comer estranhos alimentos industrializados vindos de fora;

farejei então que havia aí um interessante problema antropológico, idéia que volta à tona no contexto dessa antropologia ashaninka;

as preciosidades que guardava de palestras do benki ou isaac chegaram a fazer-me escrever sobre suas palavras anteriormente;

quando isaac contou a história do macaco que vê o peixe subindo o rio, contra a correnteza, e vai tentar ajuda-lo, tirando-o da água, o peixe acaba morrendo;

essa história é fantástica, é um conto que ilustra perfeitamente o princípio da grande saúde do ecce homo, princípio central no pensamento de nietzsche;

para se pensar a educação é igualmente uma história interessante;

contribuições para uma filosofia nativa

caros amigos

não me agrada nada colocar-me numa posição que pareça uma defesa de l-s e seu pensamento;

no entanto, como meu ofício de antropólogo é fazer os textos falarem, vou brincar um pouco de ventríloquo com o mestre francês;

quando conheci seu trabalho fiquei aturdido, revoltado: tornei-me decididamente um anti-levi-straussiano, e militante, ainda mais que não compreendia e já não gostava desse tal de estruturalismo com esse nome feio...

portanto, considero digamos necessário esse distanciamento, essa crítica do pensamento do antropólogo que nos prepara até podermos ter nas mão sua caixa de ferramentas;

não quero parecer dogmático (ainda que acredite que quem não torce para o meu time de autores esteja se enganando (rs)), os antropólogos tratam as escolas e referenciais teóricos como times de futebol, partidos políticos e, os mais fundamentalistas, como religião;

portanto, devir estruturalista ou não...

escrevi algumas anotações em meu caderninho esses dias para mandar para a lista de debate, mas não tive tempo de acaba-las;

vou retomar alguns trechos pois eles vem em tempo;

acredito que nessas anotações estava me referindo ao modo de ler antropologia, de ler os textos, de ler a realidade, o qual define meu modo de construí-la em meu trabalho;

falava então de um problema, digamos assim, antropológico: o relativo e o absoluto;

há um problema na antropologia: o relativismo;

defino grosseiramente o relativismo como o relativo tomado na perspectiva do absoluto;

no entanto, o que vale do relativo é justamente esse tomar na perspectiva;

escapar do relativismo consiste em fazer da perspectiva o problema;

não vou reproduzir todas as minhas anotações, não que ser mais chato, pregando o nietzschinismo em vossas orelhas wittgensteinianas, até por que já escrevi sobre isso no blog, na postagem...,

vamos ao que interessa: “insisto que devemos investir nossa atenção sobre o campo de sentido em que consideramos os textos, o perigo do positivismo está em sustentar esse suposto fundo de absoluto, a natureza, sobre o qual as idéias e os signos correm;

pode-se inclusive, como tanto se faz, afirmar o anti-positivismo de forma positiva já que o problema aqui não é o que se diz, e sim os pressupostos;

a própria genealogia, procedimento anti-positivista por excelência, pode ser positivista, se entendida absolutamente;

a genealogia não quer (e quer) substituir o positivismo, ela quer rir dele, gargalhar diante de sua seriedade reacionária, morrer de rir de sua prepotência;

ela não quer ser seu lado negro, negar o positivismo para erigir outra realidade igualmente positivada, e sim revelar o tom farsesco dessa prepotência, seu histrionismo;

gosto da fórmula afirmação não-positiva (blanchot) para esse pensamento;

temo não estar sendo claro por trabalhar com uma série de pressupostos de meu referencia teórico;

parece que toda tua leitura se compromete quando o que afirmas e o que fazes, a poiesis, são de naturezas distintas;

por um lado afirmas a bricolage em seu texto, mas é da boca pra fora, pois tua rigorosa análise do texto de levi-strauss condena-o a não obedecer às regras do engenheiro;

acontece que gosto de lê-lo como bricolage, fazendo, para tanto e inicialmente, uma relativização ou uma contextualização, digamos discursiva (ou seja, não histórica), desse pensamento;

para lê-lo como bricoleur (o que nos conduz na leitura de toda antropologia como bricoleur, o que nos conduz...) exige-se uma modificação na forma de ler, que se leia para além daquilo que está sendo dito, que se leia o que está sendo feito pelo autor enquanto escreve;

o problema de fato é esse que você coloca, suas palavras se assemelham mesmo a um caso de esquizo-análise, psico-terapêutica do conhecimento (pra não dizer da filosofia) elaborada por deleuze-guattari;

o problema da natureza dessa linha demarcatória entre espírito positivo e construcionismo, criatividade, literatura ou como queira;

dado isto, como faze-lo?