27 maio 2008



dentre os problemas necessários a serem considerados visando uma genealogia, uma contextualização sincrônica e política do nosso pensamento, interessa-me deixar de pensar nosso tempo na dinâmica da modernidade latourniana: como uma conquista do homem, da ciência da democracia e passar a assumir essa nossa democracia mais como uma herança que como uma ruptura com as ditaduras militares;
latour desconstrói a noção de modernidade evidenciando seu caráter de valor e sua dinâmica diacrônica, demonstrando a maneira como essa noção pauta nosso pensamento a partir de uma imagem evolutiva;
nesse processo há uma consensualidade gregária que ao autor interessa questionar;
temos herdado um instinto gregário de autoconservação similar quando consideramos a democracia como uma conquista sobre os regimes militares;
a menos que queiramos convictamente nos enganar, não se pode ignorar a intervenção norte-americana no estabelecimento de nossas ditaduras;
só mesmo ignorando essa articulação, já da ordem do senso comum, entre ditadura e programa neoliberal, entre militares e multinacionais, para nos iludirmos com os shows televisionados [diretas já, constituinte] pela mesma globo e os demais meios de comunicação aliados da ditadura;


consumir informação e produzir informação
a princípio, apenas intui os prejuízos do consumo do jornalismo;
percebia um prejuízo perceptivo ao distinguir o consumo de informação do consumo de literatura propriamente;
meus sentidos se tornavam mais apurados com a leitura de textos literários ou acadêmicos, enquanto com o consumo do jornalismo ocorria o inverso;
estava mais 'informado', mas isso me custava em percepção;
como disse, a princípio era apenas uma intuição;
a intuição foi ganhando consistência e embasamento tanto literário como filosófico;
apropriei-me de uma concepção literária elaborada a partir da intervenção e criação de linguagem (blanchot) e do conceito de palavra de ordem, a partir do qual um texto é considerado a partir dos pressupostos que impõe ao leitor aceitar para inserir-se no campo valorativo apresentado pelo texto;
com esse instrumental consideravelmente simples é possível elaborar então argumentos algo consistentes contra a prática do jornalismo;
atento aqui para que não há a mínima intenção disfarçada de elaborar qualquer teoria do jornalismo;
acredito num impasse irremediável para essa prática;


o espírito gregário
a genealogia consiste num pensamento que opera a transvaloração com o objetivo de desconstruir o espírito gregário no pensamento;
os valores consensuais nos conduzem a pensar das maneiras mais adequadas;
nosso espírito gregário, diria mesmo o instinto gregário tende a nos conduzir para o bem comum, a pensar a partir dos valores comuns e a ter as idéias comuns;
dessa forma é que somos talhados em um pensamento convencional, medíocre, consensual;

instinto gregário da convenção que supre a vontade de conservação, o instinto de preservação, a segurança na vida social, que não se ameace a ordem;

os pressupostos valorativos elaborados em pressupostos enunciativos sustentam nossos discursos, nossas idéias, nossas opiniões;
quanto mais se opera no plano das opiniões, da doxa, menos se percebe essa sintaxe que define de antemão nossos enunciados;

o episódio recente envolvendo um projeto de terra indígena do estado, o exército e um grupo de latifundiários pode ser referência para uma diversidade de enunciados que variam a monotonia do discurso autoritário de um e do indignado discurso humanista de outro;

tomo daí, da relação entre o acontecimento e sua elaboração discursiva, algumas noções que operam como consensuais e as quais sua problematização nos permite escapar a esses circuitos gregários de pensamentos e valores;

uma das palavras de ordem que mais me chama a atenção é a que está pressuposta na consideração do regime democrático e de uma série de elementos a ele articulados;
a primeira idéia que me chama a atenção consiste num consenso estabelecido pelos historiadores dos meios de comunicação, trata-se da concepção de que vivemos uma democracia conquistada;
essa idéia de uma democracia conquistada é o princípio valorativo para se considerar o estado, suas políticas públicas e, inclusive, determinar os projetos dos povos indígenas, no caso;



é interessante notar como nos deixamos levar por um pensamento oficial, de estado, torcendo muitas vezes para que seu campo de ação seja tão amplo quanto nosso campo perceptivo;
quando então nos parece mesmo absurdo que algo escape à ordem e ao poder do estado;
quando toda positividade recai sobre a capacidade de extensão ou de abrangência do estado e toda negatividade sobre aquilo que lhe escapa seja por sua incompetência, seja por resistir-lhe mesmo;

as ordens jurídica e legislativa orquestram os direitos: acreditamos que todos devem ter seus direitos 'garantidos';
o que há de estranho e de sinistro na vontade de estado que manifestamos inocentemente como solução para todos os problemas sociais;
no entanto, se circunscrevemos essa perspectiva, se a desconstruirmos e genealogizarmos pode se perceber o que há de sinistro no processo com que o estado coopta as demandas políticas das sociedades indígenas, transformando-as em demandas do estado;
como o estado, ao cooptar, identifica suas demandas às demandas dessas sociedades;
no caso que analisávamos tem-se uma disputa entre a terra indígena raposa/serra do sol e os latifundiários locais;
já não se trata mais no caso de uma disputa dos índios propriamente;
os índios solicitaram a demarcação ao estado, sem dúvida;
o que se propõe aqui é que não se identifique a demanda e os obstáculos dos índios com as demandas e os obstáculos do estado;
não se pode esquecer que quando os índios são alvejados pelas balas dos latifundiários, trata-se de uma ordem do estado que está sendo descumprida, já não se trata de um conflito entre as partes;



pode-se discordar disso alegando determinismo ou dizendo que isso seria uma visão histórica limitada que não levaria em conta a apropriação que os índios fazem do estado e de seus recursos;
penso que disse foi pensado quando se considerava a cooptação das demandas indígenas pelo estado usando para isso a retórica dos direitos garantidos e das políticas públicas;
pensávamos no caso katukina e no projeto de reparação do estado pelos estragos em sua terra com a estrada;

discordo dessa perspectiva pois o estado opera como aparelho de captura;
mas como funciona... o que impede dos nativos conseguirem se apropriar de aparelhos de estado e usá-los em seu benefício... o que será esse benefício... será constituir máquinas de guerra... será que, numa perspectiva contra-estado, o que é benefício para o índio deve ser necessariamente resistência contra o branco... ou existiria uma forma de melhorar a vida do índio numa integração dos mesmos à sociedade branca... estaremos divididos entre duas perspectivas incompatíveis: integração x contra-estado... será essa opção um ponto de partida ou de chegada...;


talvez seja isso que estamos fazendo, que haja pra ser feito, isto é, desenredar as palavras de ordem, desconstruir os discursos e os valores que os sustentam, processar as manipulações apoiadas em valores naturalizados;



a operação com a palavra de ordem nos torna mais sensíveis para o processo de consensualização, para o processo de homogeneização, de conservação dos valores;

o processo de conservação de valores expressa-se, em termos subjetivos, em correntes afetivas que estabelecem habitus subjetivos, esquemas de pré-disposição afetiva, de relação consigo e com o outro;

o instinto de conservação consiste numa postura de valores que se desdobra numa postura/relação subjetiva;
o instinto de preservação...


o conjunto de práticas subjetivadoras do estado como a educação e a formação profissional tem como horizonte os valores empresariais do discurso neoliberal;
travestido pela esquerda como possibilidade da histórica justiça social, o que se vê é um batalhão de gestores, administradores, empreendedores etc serem forjados e despejados para o mercado de trabalho;
a subjetividade se torna uma consequência do mercado, o ser humano busca sua fonte de valor no lucro a qualquer preço;
o estado reproduz esse discurso em todas as suas instituições;

será possível reduzir a vontade de potência a vontade de consumir e o poder que lhe é inerente...
será possível separá-las...

tratar-se-á de uma questão de crença no ser humano como se afirma no zaratustra;

o instinto de preservação é contraposto ao espírito trágico, que a partir da tragédia se torna um dispositivo crucial do pensamento nietzscheano;
uma das ...

trata-se de extrair das subjetividades generalizadas e de seus processos as formas de resistência;
o capitaismo é a forma com que se perpetua valores muito antigos;

nietzsche se volta contra o pessimismo, apesar de seu percurso cruzar os caminhos do romantismo e de um pessimismo schopenhaueriano;
su filosofia define personagens conceituais afirmativos como o são o nobre, que se contrapõem ao plebeu ou mesmo ao burguês, o espírito livre que afronta o conservador, dionísio e sua gaia ciência contra um sócrates pessimista ou o crucificado, o trágico contra o ressentido;


insisto em estranhar a generalização da idéia de que a democracia consiste numa conquista que tenha superado os regimes fascistas;
em lugar disso, o que se evidencia é o espírito de um fascismo neoliberal, sob a capa de uma democracia igualitária e livre;

para estender a experiência para a américa latina, toma-se o caso da bolívia, que evidencia a fragilidade de uma democracia que ousa colocar em questão os interesses de suas oligarquias locais e os interesses do grade capital, o capital estrangeiro;
a campanha que a imprensa brasileira lança contra a democracia boliviana só não é pior do que os termos em que ela busca definir o que seria uma postura adequada ao espírito da globalização;

um dos recursos democráticos da maior democracia liberal do ocidente foi a instalação de ditaduras nos países latinoamericanos visando manter intactas suas estruturas coloniais para melhor se definirem como mansas democracias liberais que hoje são;
como não se pode viver sem circo ainda que se viva sem pão, visto que o circo faz esquecer o pão, ;

o espírito da imprensa e suas palavras de ordem são execráveis;
braço direito da ditadura até hoje, a imprensa brasileira posa de perseguida pela ditadura militar e enfia em goela que graças aos grandes jornalistas brasileiros, verdadeiros mártires, conseguimos derrubar os militares;
ainda hoje essa canalha se reúne em seus congressos e celebrações para debater a ampliação da liberdade de expressão, sem qualquer mençâo à análise de consciência sobre suas práticas políticas;

no entanto, assim como para encontrar paralelo na história do acre, não houve expulsão dos seringalistas ou qualquer grande conquista dos seringueiros em termos territoriais [ainda que, em termos de legislação ambientalista, os ecólogos sim tenham feito grandes conquistas], também não houve tomada de poder dos militares, que entregaram o poder depois que as grandes forças internacionais, representadas pelo governo estadunidense e sua política externa, deram a ordem;
para a frustração dos quiseram cantar o refrão de chico buarque 'apesar de você...', as diretas já foram evento orquestrado e com autorização dos militares, o ensaio para a outra falcatrua que foram os carapintadas, outro fenômeno de manipulação de massas no país do futebol;

estamos proibidos de perceber que vivemos sob um regime autoritário que determina os valores que pautam os processos de subjetivação;
uma liberdade que é a liberdade de mercado configura nossa sensibilidade, nossos valores, nossa percepção;
nesse processo pseudo democrático a mídia foi promovida à dimensão inseparável da política autoritária herdada as ditaduras miitares;

será que mesmo com a saída dos militares de seus esconderijos, onde se escondem da história para continuar a exercer sua política fascista, mesmo com sua volta, sua exposição como agentes políticos da opinião pública não fica claro que se orquestra [pricipalmente na mídia] a imagem de uma pseudo-democracia em que só nos foram concedidas algumas garantias democráticas que não coloquem em risco nossa estrutura colonial: voto, liberdade de expressão, políticas públicas, direitos de trabalhador;



deleuzear as políticas públicas
não havia como impedir, nem seria interessante, as apropriações do pensamento deleuzeano para fins tão diversos quanto àqueles contra os quais esse pensamento se voltou;
é possível ler inúmeros textos que se apropria, que recorta conceitos deleuzeanos sem perceber que, tal como nietzsche [daí a polêmica em torno da percursão desses autores], o pensamento deleuzeano pressupõe toda uma contextualização epitêmica ou, melhor dizendo, implica numa transvaloração;
com isso, esse pensamento quando tomado consistentemente não se permite tornar tão facilmente em mercadoria ou aparelho de estado;
elaborar uma perspectiva crítica a partir desse pensamento não equivale a se adequar ao mercado dos discursos críticos;
consiste antes em situar-se ante a esse mercado, contextualiza-lo para estabelecer posição estratégica diante dele;
no entanto, a utilização acadêmica ou sua apropriação no mercado retórico das políticas públicas tomam positivamente os conceito desse pensamento, modificando sua função original;
estranha essa idéia de função original, visto que esse pensamento não tem partido que não seja justamente o da sua utilização indiscriminada;
no entanto, esse pensamento se define como prática anti-capitalista ou de crítica ao capitalismo e aos seus processos de subjetivação;
criar possibilidades de constituição de enunciados e discursos que escapasse ao circuito da disciplinas, dos mercados do pensamento acadêmico e político;
elaborar possibilidades criativas de discursos que abrissem novos campos de inserção do pensamento;
articular nessas formas distintas de pensamento possibilidades enunciativas diversas;

enfim operar com um pensamento que não opere com a reprodução dos modelos subjetivos estabelecidos;
por isso a crítica aos processos subjetivantes, por não se tratar tanto de um modo de pensar quanto de suas repercuções subjetivas;
o que significa pensar isso...

certo que o interesse e o jogo, a utilização desse pensamento é o que importa;
no entanto, esse pensamento opera com um campo de pressupostos e com uma dinâmica epistêmica que estranha suas apropriações ingênuas;


o problema da etnografia
o problema da etnografia consiste em sua objetividade, na função dessa objetividade;

essa etnografia de observação, de descrição deve ser redefinida por uma etnografia de experiência, de vivência, que não visa contar tudo o que vê, mas que proporciona um aprofundamento sobre questões determinadas;

não se trata para mim, no processo etnográfico de contextualizar a experiência subjetiva de campo;
o alcance dessa contextualização diante da contextualização epistêmica da máquina antropológica é evidente;

os exemplos dados por geertz se referem a uma experiência antropológica imaginada [quase sempre] como experiência acadêmica e colonialista de coleta de dados em campo;
minha experiência privilegiou uma vivência de longo prazo em que as questões de caráter pessoal tendem a se diluir;
para mim, a experiência de campo se encontrou sempre em dados dispersos e não na compilação de dados para elaboração de qualquer tese;
sempre preferi estar ao sabor dos acontecimentos, para isso a isenção profissional faciitou experiências com essa figura do pesquisador;
certo que os interesses são inerentes e toda relação antropólogo/nativo envolve esse jogo de interesses;

quanto ao papel do estado tomo por exemplo a questão da subjetividade;
da mesma forma que encaro a questão das subjetividades muito marcada [principalmente por nosso contexto capitalista] pelos devires, em que os índios não têm dificuldades para se tornarem ou pelo menos vverem experiências de brancos e vice-versa, penso algo similar com relação ao estado;
não penso que se trata de questão de intencionalidade subjetiva a relação com o estado, não penso como algo opcional a ser respeitado;
trabalhei diversas vezes esse problema abordando temas como os direitos indígenas ou os conhecimentos tradicionais;
penso nas sociedades indígenas como sociedades contra estado;
quando o estado disponibiliza políticas públicas a serem desenvolvidas parcialmente por essas comunidades não vejo que elas estejam se apropriando do estado ou que o estado esteja delegando poder a elas;
pelo contrário, o que vejo é o estado subjetivando burocratas e empresários travestidos de gestores indígenas;
em suma, o que vejo é o estado penetrando nessas comunidades, estendendo-se a elas na forma de instâncias simples como funcionários, associações, escolas e seus conselhos etc;
posso inclusive usar o argumento histórico e sobretudo o genealógico a meu favor, pois não se trata de coincidência que vivamos o momento de políticas públicas na democracia neoliberal preparada pelas ditaduras latinas dos militares torturadores;
não consigo ver as democracias latinoamericanas senão como frágeis heranças das ditaduras militares;
os exemplo da bolívia e da forma com que nos relacionamos com isso ou a reação dos militares aos protetos de latifundiários em relação a limites de terras indígenas evidencia isso;

não consigo pensar numa democracia que não seja a de uma estado neoiberal que busca promover subjetividades capitalísticas;


quanto a uma saída para a etnografia, algo que possa substituí-la, nunca foi minha intenção encontrar respostas mais perspicazes a serem apropriadas pelo estado e seus agentes;
minha intenção é mais a de criticar essa apropriação da 'ciência antropológica' e a execração de outras possíveis imagens do conhecimento humanístico e mesmo da etnografia, tais como as que se aproximem da litertura ou da arte;

não vejo que a solução para o objetivismo exacerbado seja o subjetivismo;
o que deve ser contraposto, confrontado é a função que opera esse objetivismo e não o objetivismo em si;

por isso se torna fundamental para uma pesquisa da linguagem e sua função na produção de conhecimento toda a crítica epistemológica que será elaborada visando contextualizar ou estabelecer os pressupostos do conhecimento, da racionalidade e principalmente do conhecimento positivista;
meu interesse pela linguagem me leva a abandnar a abordagem descritivista a antropologia por uma pesquisa de linguagem, pela leitura e apropriação de autores que trabalharão essa questão e que buscarão formas para a elaoração do problema tais como nietzsche e bachelard num primero momento e depois foucault e deleuze;
o que será escrever, de que se trata, como se constitui a fronteira entre a ciência e os demais discursos;

a noção de enunciado terá uma importância fundamental quando se busca experimentar com os limites a linguagem das ciências humanas;
para além da relação entre mundos diversos proporcionada pela antropologia, coloca-se a relação entre universos de conhecimento diversos, entre cosmologias distintas;
as noções de enunciado e discurso propocionarão abolir a distinção fundamental entre a objetividade da ciência e a subjetividade da literatura [para tomar o clássico contraponto];
essa abolição se dá pela abordagem da função desses discursos, da função de sua objetividade e do valor dessa objetividade;

nietzsche elabora a noção de conhecimento trágico a partir de sua investigação e pesquisa de linguagem em que enfoca a zona mista entre teatro e mística na tragédia ática e nos cultos dionisíacos;

24 maio 2008



perspectivismo
não se trata de relativismo;
mas como escapar ao relativismo, essa sutura do conteúdo à expressão, do plano da palavra ao plano da coisa;
concebendo que sustentar o plano de expressão numa relação de representação com o plano do conteúdo consiste em projetar um fantasma do plano de conteúdo que deverá territorializar esse plano de expressão;
o devir consiste na autonomia relativa desses planos [já que pressuposição recíproca] para a produção de movimentos de desterritorialização: delírios que se reterritorializem por sua dimensão política, que não percam irremediavemente o contato com a realidade [dessa pressuposição];

o relativismo não só não pressupõe ou não pode pressupor essa relação desterritorialização/territorialização, como se mantém atrelada a uma relação de representativiade entre expressão e conteúdo;

os determinismos da infra-estrutura na produção da superestrutura, na produção de conhecimento, baseia-se nessa relação de representação entre conteúdo e expressão;
essa é a relação de palavra de ordem: em que o conteúdo determina a expressão;
para além da palavra de ordem: a dinâmica desterritorializante com que se visa atingir e modificar os corpos a partir dos enunciado e vice-versa;
afinal, lembrando bachelard, o processo de definição de um enunciado pode ser comparado à evolução de uma flor;
as desterritorializações seriam enxertos;
desterritoriaizações como as intervenções que visem o estranhamento das instâncias, dado que o seu equilíbrio serviu à constituição da imagem representacionista dessa relação;

o que vem a ser escrever antropologia com isso;
certamente não consiste em descrições de sociedades, nem tanto relativizar o plano de expressão, submetendo-o [e nossa percepção] ao plano de conteúdo [predefinido ou territorializado];

trata-se, portanto [ou talvez], de estabelecer os critérios de uma intervenção que não recaia na palavra de ordem;
intervenção: relação problemática entre mundo e palavra, entre conteúdo e expressão, que leve em conta menos o 'dizer' que o 'fazer' da expressão, do enunciado;

o relativismo reitera uma imagem ou um fantasma do conteúdo, uma sua unidade pressuposta às variações da expressão;
o relativismo se prende continuamente a uma imagem da linguagem, da relação interior/exterior;

21 maio 2008



o que é conhecer?
- 'non ridere, non lugere, neque detestari, sed intelligere', eis o que diz spinoza com toda simplicidade e a elevação do seu estilo;
mas o que vem a ser este intelligere senão a forma sob a qual as três outras operações nos aparecem ao mesmo tempo?
senão a resultante dessas tendências contraditórias do riso, da piedade, da maldição?
para que um um conhecimento fosse possível, foi primeiro necessário que cada uma dessas tendências desse a sua opinião parcial sobre o acontecimento ou a coisa a conhecer;
que em seguida houvesse combate entre essas parcialidades, e que desse combate, enfim, pudesse sair um apaziguamento, um equilíbrio das três tendências, cada uma delas recebendo o que lhe era devido por uma espécie de justiça e de contrato;
porque essa justiça e esse contrato lhes permitem subsistir todas e ter razão ao mesmo tempo;
nós, cuja consciência só regista as últimas cenas deste longo processo, a reconciliação e o regulamento de contas, pensamos que intelligere é alguma coisa de conciliante, de justo, de bom, de essencialmente oposto aos instintos;
ao passo que é muito simplesmente uma certa relação dos instintos entre eles;
durante muito tempo o nome de pensamento nunca designou mais do que o pensamento consciente;
e é hoje somente que começamos a entrever a verdade;
a saber: que a maior parte da nossa atividade intelectual se desenrola sem darmos por isso, sem sentirmos nada;
mas acredito que o instintos que entram em jogo no combate de que falamos se entendem muito bem em fazer sentir esta luta e em mortificar o seu possuidor: e daí que provém, talvez, este esgotamento repentino que conhecem todos os pensadores (o horroroso esgotamento repentino do soldado no campo de batalha);
há talvez mesmo, no fundo da nossa alma em luta, inúmeros heroismos que se não vêem, mas não se encontra certamente nada de divino, nada que repoue eternamente sobre si, como acreditava spinoza;
o pensamento consciente, e sobretudo o do filósofo, é o menos violento do todos, por conseqüência a mais suave, a mais calma das categorias de pensamento: também o filósofo é precisamente o mais exposto a enganar-se quanto à natureza do conhecimento;

nietzsche, a gaia ciência


nietzsche distingue a dobra, o ponto a partir do qual se projeta o fantasma, a dimensão transcendental do conhecimento;
a possibilidade de sua positividade;
o intelligere seria essa dimensão ideal do pensamento enquanto as demais expressões do conhecimento serão seu plano de imanência;

longe do conhecimento se dar apesar de seu corpo [instintos], é em seu corpo que ele se especifica;
em vez de estabelecer uma relação de distinção ou contraponto, nietzsche propõe que a luta, a injustiça, a disputa, a força entre outros modelem a dinâmica do conhecimento;
propõe uma imagem do conhecimento bem diversa da metafísica grega que modela e pressupõe a racionalidade até então;

esse é um antigo combate de nietzsche, que agora passa a se desdobrar em inesperadas consequências, atingindo o cerne do tradicional pensamento ocidental de maneira criativa;
desde os primeiros escritos tem contraposto uma inspiração estética para o pensamento em lugar de sua tradição metafísica que redundará no positivismo fanático da ciência régia das estatísticas de estado;

uma outra imagem da verdade, não-positiva nem idealista, redunda numa imagem outra do conhecimento;
uma imagem da verdade marcada pela justeza, o encaixe, a combinação entre um enunciado e uma idéia de realidade [a qual ainda persiste numa noção como ideologia] é desconstruída e, nesse processo, dá-se a perceber a luta inerente ao conhecimento e seu caráter tanto mais efêmero, quanto mais ...;

o sertão é...
esse contrato a que estamos submetidos, o qual nos configura uma imagem conformada da intelligeri, lembra o sertão de riobaldo, que consiste justamente em todo o outro lado, o lado do avesso da civilização, no qual os valores tem uma ordem diversa daquela da cidade, do mundo civilizado das leis, das regras;
daí a dimensão política do sertão, que passa como que fornecendo uma atenção distraída a este tema, dada a relação entre duas imagens da experiência narrada: uma do presente do enunciado (em que proliferam imperceptíveis) e a enunciação (que o concebe como um roteiro escrito, determinado destino);
a imagem da civilização aqui é a de uma conformação dos sentidos, da matéria vertente, enquanto a experiência se associa ao doido do sertão, desregrado com que riobaldo vai jogando em sua maneira enigmática ou caótica de governá-lo;
essa maneira de conceber a experiência, o presente, o destino que se define no sertão [e em o recado do morro];

no sertão, no entanto, e é isso que nos interessa sobremaneira, não se restringe à experiência pessoal;
o sertão e seu desconcerto consistem numa experiência que se contrapõe à civilidade;
a civilidade/civilização como campo do definido, do estabelecido;
o sertão como esse espaço e que o desconcerto está solto no mundo, em que o desregrado faz suas outras regras;
essa dinâmica de instabilidade, esse mundo movente, desdobra-se em diversos nomadismos: percepção, sentimentos, valores, cognição, subjetividade;

essa constante redefinição do sertão, que acaba sendo sua contínua indefinição, consiste numa estratégia perspicaz para captar em termos de linguagem, de figura estilística esse devir que define o sertão como os avessos da civilização;
é aí que se dá a projeção da experiência subjetiva do personagem, seu processo de subjetivação, numa experiência social e política;
se o sertão seria os avessos da civilização, que caracteriza os afetos do presente a enunciação, em que o autor pode organizar seu material desdobrado num plano de transcendência, do qual escapa, vaza, as impressões, as formas fugazes do devir, constituindo na enunciação também um plano de imanência, visto que [seguindo a tradição da literatura machadiana, que já propõe o deslocamento ou distribuição da matéria narrada no entre da relação enunciado/enunciação] essa estabelece relação sempre problemática entre os planos da enunciação e do enunciado, conforme admitido reiteradamente pelo narrador;

19 maio 2008



uma concepção do conhecimento pressupõe uma concepção da linguagem;
por exemplo, a generalização do conhecimento positivista como forma do conhecimento por excelência [conhecimento universal] só é possível por pressupor, por sustentar-se numa concepção de linguagem que pressupõe essa relação de positividade entre palavra e coisa, um imagem da linguagem que pressupõe um mundo a ser enunciado, em que o mundo como referente sustenta o sentido da linguagem e estabelece fronteiras criativas para ela;
o realismo é cria do positivismo no sentido de que este faz dele um estatuto para limitar a linguagem ao mundo pré-concebido, a um mundo [de sentido] que deve ser confirmado, ou seja, reafirmado como o faz o discurso científico;
nesse sentido que o discurso científico, assumindo sua função de ordenar o mundo, configura-se como agente da ordem social nas disciplinas que consistem na apropriação da positividade desse discurso em função de uma imagem do estado, da nação e dos cidadãos de direito;
enfim todo o trabalho de estabelecer as fronteiras da cultura, do indivíduo etc;
todo o trabalho de projetar a ontologia antiga no laico pensamento moderno, adaptada pela escolástica que configura nossos valores morais;

amaldiçoado, o devir não encontra lugar para ser representado nesse quadro;

esa maneira de dispor o discurso em função da redundância: redundância dos valores, do sentido do mundo ou do mundo enquanto sentido, redundância da forma de subjetividade pressuposta no conhecimento, na linguagem e vice-versa;

os pressupostos da lingüística, que só são questionados em seu caráter informativo, de positividade, de relação simples e direta entre palavra e coisa, para ser pensado nos termos comunicativos de uma intersubjetividade que sustenta o sentido serão questionados aqui não a partir de relações que ainda sustentam um mundo transcendente à linguagem que demarque seus limites;
os regimes de signos definem mundos possíveis, mas como funcionam, com que categorias funcionam esses regimes...;

a linguagem se configura em funções conservadoras que definem sua manutenção enquanto língua;
mas o que a define são as funções associadas à parole, à fala, à diferença;


finalmente entendo agenciamento coletivo a partir das noções de discurso indireto [e livre] e de sua extensão ao conceito de polifonia bakhtiniano;


o que interessa é menos 'o que quer dizer exatamente a palavra de ordem', e mais, o que é compor uma contra palavra de ordem, uma utilização da linguagem que não seja a da palavra de ordem, ou seja não o que eles estão dizendo e sim o que estão fazendo;
em que consiste esse fazer...;


eduardo viveiros de castro trata essa questão nos seguintes termos: 'o que significa dizer que os animais são gente';

o problema da ritualidade tratado na dissertação também opera com essa ruptura entre um falar que pode ser repetido e um fazer que constitui um acontecimento;


os jornais, as notícias, procedem por redundância, pelo fato de nos dizerem o que é 'necessário' pensar, reter, esperar, etc; a linguagem não é informativa nem comunicativa, não é comunicação de informação, mas - o que é bastante diferente - transmissão de palavras de ordem, seja de um enunciado a outro, seja no interior de cada enunciado, uma vez que um enunciado realiza um ato e que o ato se realiza no enunciado;

mil platôs, postulados da lingüística


o discurso jornalístico consiste num contínuo exercício de 'palavras de ordem';
por isso, acredito, que não passa pela minha goela essa forma discursiva;
não consigo escrever projetando-me sobre o plano de transcendência, ordenando como e a partir de quais valores as pessoas devem pensar;
sempre que faço uso da linguagem, não posso deixar de fazê-lo numa perspectiva reflexiva que se volte aos seus próprios critérios valorativos;
de outra forma tenho a impressão de estar ludibriando o leitor;

esse exercício de manipulação consiste numa prática generalizada, mas mais que os cientistas, quem faz desse recurso uma prática profissional, social e política são os jornalistas;
como a definição de consumidor, subjetividade capitalística sempre em alta, pode ser aquele que goza com a relação de ser enganado e enganar, os produtores da fofoca impressa e oficializada especializam mais ainda o mercado do tráfico de informações;

o discurso sociológico historicista [mesmo a etnografia, esse procedimento problemático que deita suas raízes no positivismo e na tradição inglesa da antropologia] me dá essa mesma impressão;

por isso meu deslocamento, quando não assumo os agenciamentos de enunciação, quando não falo a voz da empresa ou a voz do estado, e insisto em procurar uma voz que escape a esses esquemas;
por isso a dificuldade quando abro a boca, quando não falo o que todos esperam ouvir do acadêmico, do professor, do agente de estado;
pois o que todos esperam é a palavra de ordem, é a obediência e não discurso da responsabilidade sobre a inteligência ou liberdade;
todos esperam para obedecer, não querem algo que lhes dê trabalho;
ninguém quer ter trabalho pensando, formulando seu próprio mundo, problematizando as homogeneizações;
pelo contrário, estamos esperando nossa cota diária de opinião pronta, o reforço aos nossos valores;
esperamos alguém que nos ensine, que nos mostre o que e como pensar;

a arte é o limite disso, por isso não a suportamos;
ela só serve para desconstruir valores, perceptos etc, ainda que quase sempre [principalmente quando domamos sua selvageria com recursos como a explicação, a interpretação ou o comentário de motivações biográficas, geralmente guiados por aqueles funcionários de museu] a utilizemos para a afirmação de valores e percepções gangrenados;


sempre tendo por referência a questão das fronteiras étnicas, os critérios de definição positiva ou relacional dos grupos humanos, tema que consagrou sua antropologia, barth, ao abordar o conhecimento, ao tomar o conhecimento por matéria antropológica propõe uma questão interessante por diversos ângulos;
afirmando a necessidade de uma quadro téorico único:
o quadro teórico que defendo parte das noções de uma sociologia do conhecimento que ajudam a esclarecer o modo pelo qual as idéias são moldadas pelo meio social em que se desenvolvem (barth, o guru e o iniciador);
primeiro passo, portanto, a sociologia do conhecimento;
segundo passo:
precisamos, todavia, transformar isso em uma 'antropologia do conhecimento' que seja capaz de lidar com materiais culturais heteróclitos e com uma ampla gama de organizações sociais, para poder retratar as condições da criatividade dos que cultivam o conhecimento, bem como as formas que daí decorrem (op.cit.);

nessa enfiada programática, em que nos submete uma seqüência de 'palavras de ordem', barth propõe estender para o plano do conhecimento algumas de suas teses sobre as fronteiras étnicas;
dada a especificidade do tema: o conhecimento e sua transmissão, espalham-se rizomas;

diante da refutação do difusionismo ou, melhor dizendo, do impasse da definição positivista da etnicidade, barth propõe uma [não menos positiva] definição relacional;
não se salvara a história com a dialética, salva-se então aqui a identidade étnica, que passa a ser estabelecida assim a partir de critérios relacionais;

a sociologia do conhecimento coloca um problema crucial para o pensamento sociológico positivo: a relação do conhecimento com a economia política, seu papel no estabelecimento de valores, verdades, critérios;
o conhecimento é colocado em xeque devido a toda a ideologia que o perpassa e o constitui;
como distinguir o conhecimento ideológico, utilizado como aparelho de estado, como manuntenção da alienação e o conhecimento crítico, dialético;

nesse quadro se desdobra a crítica sociológica ao conhecimento, que inaugura [de certa forma] o espírito epistêmico que consiste na mais substancial herança do século dezenove para o vinte e um;

o determinismo como forma da relação entre o conhecimento e meio;

formula-se uma perspectiva ainda marcada pela transcendência que caracteriza a positividade do historicismo;
essa é uma característica que persiste na concepção sociológica seja do século dezenove, seja do século vinte e um, dado que a saída, a circunscrição ou a dobra consiste no que chamamos aqui de antropologia;

portanto, não seria possível essa relação de extensão do discurso sociológico e o antropológico, dado que a sua relação é de antagonismo ou contraponto;
daí a redundância de uma 'antropologia do conhecimento', dado que uma antropologia {no sentido que aqui se entende antropologia] não pode ser pensada no quadro teórico do positivismo, visto que a antropologia se define justamente por um movimento de circunscrição dessa tradição, do historicismo e de demais pressupostos que permitiriam se tomar o conhecimento como um tema entre outros {como o faz de certa forma a sociologia do conhecimento];
quando se fala de conhecimento do conhecimento [epistemologia], à antropologia interessa menos a temática que a abordagem, interessa mais o conhecimento como prática [plano de imanência] que o conhecimento como objeto [plano de transcendência];
é assim que vemos dissolução de fronteiras nos textos de mauss ou lévi-strauss, a qual se evidencia em temas [por isso mesmo os mais recorrentes] como o pensamento selvagem, a magia, o mito, a ritualidade, em que o tema contagia [contamina] a abordagem e sua metodologia, seus critérios de verdade e seus pressupostos;

14 maio 2008



chamamos palavra de ordem não uma categoria particular de enunciados explícitos (por exemplo, no imperativo), mas a relação de qualquer palavra ou de qualquer enunciado com pressupostos implícitos, ou seja, com atos de fala que se realizam no enunciado, e que podem se realizar apenas nele;
a palavras de ordem não remetem, então, somente aos comandos, mas a todos os atos que estão ligados aos enunciados por uma 'obrigação social';

mil platôs

a proposta de nietzsche em genealogia da moral é clara;
trata-se de propor uma relação de linguagem, uma criação discursiva que desobedeça às palavras de ordem da positividade, da relação de objetividade positiva;
trata-se de trazer à tona, em suma, as palavras de ordem, trata-se de uma questão de linguagem, de relação com ou de concepção da linguagem;
trata-se da primeira abordagem antropológica de um material, dado que a antropologia não se reduz a uma positivada sociologia indígena, ou seja, não se deixa definir [como se evidencia a partir de uma definição positiva] por seus temas tais como os selvagens e sua cultura, tal como sempre imaginaram então os ingleses;
não se trata tanto do material utilizado na genealogia como da abordagem original, da originalidade da concepção de linguagem de que dispõe;
pois a concepção de linguagem [o positivismo] se desdobra numa forma de imaginar o mundo e serve de pressuposto à concepção de uma matriz e à produção de conhecimento;

transvalorar terá a ver com problematizar essa relação com os valores e com os valores tornado pressupostos do conhecimento, e trata-se especialmente de voltar-se à maneira como estão arraigados na linguagem, em seu uso e na concepção que dela se faz;
é por isso que alguns pouco princípios de lingüística [em fins do dezenove] serviram para uma revolução epistemológica que encaminhou ou pôs à prova muitos dos preceitos da transvaloração;
num mundo modelado por um ciência régia positivista essa aboradgem propõe uma relação diferenciada com o conhecimento;
a subjetividade não define mais o processos estéticos ou semióticos, mas vice-versa, os processos semióticos ou agenciamentos de enunciação constituem subjetividades, ou seja, desloca-se do indivíduo positivado da psicologia de controle social de estado para uma concepção da subjetividade contra-estado, pois pautada pela diferencialidade;

os temas abordados para a genealogia são a constituição da subjetividade, num corte epistemológico, demarcando a 'origem' mística do pensamento científico positivista;
a abordagem histórica, matriz humanista do positivismo, laico, racionalista e evolucionista, é analisada e tem sua concepção de linguagem desmontada e evidenciada;
utiliza-se para a sutura entre a mística judaico-cristã e o laico racionalismo iluminista o pensamento jurídico e as práticas penais;
a dinâmica de operação dos valores se mostra contínua, para além das cisões superficiais dos enunciados;
isso se mostra na concepção e na utilização da linguagem ou das 'palavras de ordem';

daí a abordagem antropológica: produzir um discurso capaz de circunscrever os valores apropriados e postos em ação pelo positivismo da ciência régia na reprodução de 'palavras de ordem' arraigadas na matriz mística do pensamento ocidental;
só assim para exorcizar o etnocentrismo arraigado na antropologia como disciplina colonalista por excelência;
fazer o bem, fortalecer a cultura, preservar a língua etc;
é esse discurso que a genealogia começa por desconstruir, demonstrando como operam as palavras de ordem que dizem uma coisa e fazem outra;
por isso bem e mal como duas expressões auto-referentes [baluartes do pensamento histórico-transcendental do dezenove], pois marcadores de uma universalidade evidenciada [cultuada] nos próprios valores;
a mesma universalidade que sustenta/sustentada nesses fundamentos da metafísica [bem, belo, justo] é a universalidade que será o princípio da universalização do estado, da ciência e do mercado;

pois a única psicologia é a psicologia do padre, no dizer de nietzsche;
a constituição da subjetividade está arraigada na metafísica auto-referente do discurso místico;
do judaísmo, é isso que será perpetuado pelo estado e pela ciência régia: uma forma que se reafirma, uma lógica da auto-conservação que se contrapõe ao espírito de sacrifício que pode ser reconhecido nas práticas de subjetivação [ainda que ou pois que místicas] de outros povos;

morte, desrazão/irracional, toda a parte maldita é desterrada da lógica que guia a consciência;
o sacrifício, no entanto, consiste na chave do trágico como pensamento que se constitui como prática de subjetivação, como agenciamento de enunciação que não se produz simplesmente como mercadoria pelo vínculo com a vida, ou seja, o processo de subjetivação;
pensar aqui não é falar, ou seja, reproduzir[-se em] 'palavras de ordem', é fazer no sentido de acionar enunciados que circunscrevam, que evidenciem, desconstruam, problematizem tais 'palavras de ordem' que povoam nosso cotidiano, nossas ações;

o medo [como paixão triste], o temor servirá como motor dessa máquina de reproduzir 'palavras de ordem';
o círculo de pensamento que nos retém, a facilidade da evidência que o positivo possibilita, a satisfação de ser compreendido, reconhecido;
tudo isso consiste no processo de reprodução das 'palavras de ordem' e num processo de subjetivação em que se reitera o compromisso com uma imagem de sociedade;

palavras de ordem consiste numa forma de utilização dos enunciados evidenciada por foucault em sua teoria do enunciado de arqueologia do saber;
ele elabora então a noção de discurso como enunciado tomado e sua dinâmica prática, pragmática ou político;
desmontando ou genealogizando a noção de ideologia e a concepção de verdade pressuposta nela, o autor elabora a noção de discursividade, inerente a qualquer enunciado;
a noção de discurso elaborada por foucault desdobra-se ou deriva da concepção de linguagem inerente à genealogia de nietzsche;
o discurso não possui valor auto-referente, só se deduz seu sentido de sua prática;
essa abordagem terá projeção evidente e crucial na[/da] antropologia;
consiste na abordagem da antropologia como disciplina da ciência régia, a antropologia agora como refinado aparelho de estado distinto dos matadores de índio dos antigos serviços de proteção ao índio, ainda que herdeiro de suas funções;
daí a possibilidade de uma antropologia das sociedades contra o estado, das sociedades contra-estado, uma antropologia contra-estado;
daí a possibilidade de se circunscrever as máquinas de guerra, de se inscrever máquinas de guerra;
só uma imaginação livre da vontade de viver, do instinto de preservação da sociedade, um pensamento livre do aparelhamento pelo estado estará liberado para integrar a parte maldita, constituir-se como parte maldita;

muitas podem ser as antropologias inscritas em máquinas de guerra;
essa multiplicidade contrasta com o programa unificante de uma antropologia científica;
entre elas: desde assumir uma abordagem mais conservadora, que se caracteriza pela prática de continuar adotando a seu favor os valores convencionais, até uma concepção mais radical de ruptura e ataque ao estado liberal;
entre as carcaterísticas que se evidenciam estão as seguintes;
primeira: uma dobra sobre as práticas subjetivas do próprio ocidente;
também: uma abordagem marcada pela interface epistêmica, caracterizando um discurso de alto teor metatéorico;
e: um discurso que evidencia seu estilo e sua filiação epistêmica, longe de perder-se ou esconder-se numa objetividade estéril e anônima;
ainda: evidenciando seu estilo evidencia sua natureza estética, seu caráter de agenciamento de enunciação;
e: uma problematização da etnografia, centrando fogo em seu aspecto estilístico e, com isso, tomando distância da vontade de verdade da tendência descritivista associada a essa prática;
não se trata, é óbvio e evidente, de renunciar à etnografia, mas de renunciar a uma etnografia óbvia e por demais evidente;
ou seja, trata-se de tratar da linguagem que descreve enquanto descreve, evidenciando o que persiste de 'palavra de ordem' na positividade típica da etnografia;

abri mão da etnografia para estudar esse processo;
percebi que fazer etnografia cru seria reproduzir 'palavras de ordem', entrar na ordem do discurso e assumir o discurso competente do antropólogo profissional, investido de poder pelo estado e o mercado;
queria extrair poder de outras fontes, por isso voltar-se contra a reprodução de 'palavras de ordem' do discurso acadêmico;
caindo no circuito das 'palavras de ordem', parece que me voltei para uma abordagem teoricista e me desvinculei do comprometimento com a causa;
não fosse a evidente usura discursiva e a afetação histriônica dos que estavam à minha volta na academia, a qual tanto contrasta com a simplicidade e economia dos gestos rituais que vislumbrei na opy...

desde o início problematizei a função da etnografia: por que e para quem fazer uma etnografia: eis a dúvida;
ainda mais no campo que buscava, o dos fundamento do conhecimento, que é 'como o outro aprende', processo que tanto encafifa os colonizadores há séculos e que se encontra em alta com as descobertas recentes da educação intercultural-bilíngüe, em que os índios pedem para ter suas mentes colonizadas em troca de alguns empregos e verbas públicas;

certo que já se tratava de outra coisa, pois os desdobramentos da cultura indígena em nossos processos diferenciais de produção de conhecimento, tais como as escolas ayahuascakeiras, que muito inspiraram esse trabalho, visava trabalhar com a aprendizagem indígena como precursora de formas que se desdobraram e invadiram os processos ocidentais de percepção;
mas como lidar com a mercantilização do conhecimento [redefinição do processo que caracterizou as disciplinas como aparelhos de estado] da qual a minha geração acadêmica faz parte, enfrentando os lobbys das fundações que estabelecem critério definidos para a produção de conhecimento, cortando pela raiz o que não for comercializável;


positivo 2
a antropologia opera segundo um pensamento da diferença;
ela resulta de uma ruptura com o positivismo;
portanto, não se trata de sociologicamente voltar a afirmar a sociedade indígena como modelo para a nossa, por mais que isso inverta ou contradiga (ainda que não transvalore) nossos valores;
em vez disso, consiste em utilizar-se de um contramodelo para desestabilizar e desconstruir nosso modelo, modelo que baseia nossos padrões de sensibilidade, de percepção, de cognição;

daí a abordagem estética poder fornecer uma dinâmica ou uma imagem do pensamento mais condizente com esse antipositivismo;
trata-se da abertura a outros mundos, a outras possibilidades de pensar, de agir, de sentir e não de positivar etnograficamente, conforme uma prova, a partir de nossas referências etnocêntricas, a diferença das sociedades indígenas;
antes essa diferença serve para produzir diferença e não para reiterar a identidade do mesmo;

portanto, utilizar-se das sociedades indígenas como modelo de socialidade ou de subjetividade alternativas consiste ainda numa insistência em perpetuar a velha tradição positivista;
o que pode nos inspirar nas tradições indígenas serão antes seus processos de proliferação de realidades, suas estratégias de desdobramento, sua socialidade voltada para a multiplicidade, seus processos de subjetivação descentralizadoras;
mas o que fazemos, devido ao automatismo de nossos processos de atribuição de sentido configurados nessa milenar tradição positivista consiste em reduzir o outro ao mesmo, a diferença à identidade;

por isso, a única possibilidade para a antropologia [exorcizar de vez seu positivismo] será uma antropologia [das sociedades] contra-estado, uma antropologia de resistência à qualquer ordem, qualquer modelo;

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por uma ilusão natural, a indecisão do nosso pensamento nos fazia acreditar, em certos casos, na indeterminação real do seu objeto;
daí os futuros contingentes;
mas a medida que a razão progride e a ciência se fortalece, a idéia de possibilidade, derivando cada vez mais dessa fonte psicológica, encontra na noção de lei e na noção de força ou de propriedade, à qual toda lei se reduz, uma confirmação nova, e a partir de então deve se mostrar fundada na natureza das coisas;
(...)

observe-se que é no princípio mesmo do determinismo, na idéia mesma de necessidade - que se oferece a nós superficialmente como exclusiva da possibilidade do que não é, não foi ou não será -, é nela justamente que a idéia de possibilidade obtém o direito de se afirmar;


tarde: os possíveis


positivo
a sociologia tem suas bases no positivismo, imagem da linguagem e do conhecimento típica das disciplinas do século dezenove, ciências humanas instrumentalizadas à ordem social, cuja metodologia se inspira nos métodos descritivistas das ciências naturais e na história;

a possibilidade de uma revolução na sociologia se dá com a apropriação do marxismo;
adota-se, a partir daí, uma concepção dialética da história, que constrasta com o historicismo positivista;
em lugar de uma história positivista unidimensional, o que se tem agora é uma história dinâmica, resultante de um jogo do forças da luta de classes;
sustenta-se o historicismo, mas agora filtrado pela noção de ideologia, ou seja, a história serve de intensificador de poder ao estado e à burguesia, mas também pode servir de intensificador de poder ao proletariado;
agora o proletariado e os explorados e colonizados em geral poderão 'contar a história de seu ponto de vista';
a sociologia ao instrumentalizar essa abordagem é instrumentalizada por ela;
no entanto, a pseudo-democracia capitalista se apropria dessa perspectiva e a reinsere no circuito do poder;
o mercado das leis tem grande importância nesse processo;

falar a voz dos marginalizados: eis um programa que fará sentido para a sociologia após a superação do positivismo e das afirmações nacionalistas do século dezenove e para adentrar a configuração da democracia liberal que será encaminhada pelo pós-industrialismo;
constituir e guiar as subjetividades proletárias ao longo de suas experiências de tomada do poder ou de disputa de poder democráticas;
no entanto, a imagem do conhecimento e principalmente da relação entre linguagem e conhecimento continua tributária ao positivismo com sua relação direta entre palavra e realidade;

marx e o próprio marxismo identificara o caráter inerentemente político da linguagem, mas seu historicismo positivista o mantivera preso com a noção de ideologia que sustenta uma concepção de verdade que será estranha à teoria do enunciado e do discurso de foucault;

a filosofia vinha há muito colocando em questão, nos mais diversos termos, a abordagem simplista do positivismo;
o que o faz projetar-se como abordagem central no século dezenove portanto é menos seu prestígio enquanto pensamento e mais a função social que assume enquanto aparelho de estado: a ciência régia;
parece até que o estado faz a melhor apropriação do marxismo;

a antropologia se constitui definitivamente em contraposição a esse processo;
ela emerge no contexto de um pensamento que marca a passagem do século dezenove ao vinte;
esse pensamento tem como ponto de inflexão uma outra imagem da linguagem e, por conseguinte, do pensamento que possibilita colocar em questão o positivismo;
não se trata de uma relação simples entre palavra e coisa;
na filosofia nietzche elabora o problema;
a lingüística ao lado dos formalismos possibilita uma abordagem da linguagem e do pensamento que encaminhará a revolução estruturalista, de forte cunho anti-historicista;
daí se desdobra-se todo um espírito epistemológico que atravessa o século vinte buscando por a limpo os pressupostos do pensamento ocidental, voltando-se nas mais diversas formas e estilos sobre o problema da produção do conhecimento;
os esforços pós-disciplinares [mais que interdisciplinares] em que se reconhecem referências e enunciados da antropologia, da filosofia, da psicologia, marcam a perspectiva dos autores que se dedicam a problematizar a relação entre produção de conhecimentos, de realidades e subjetividades;

a concepção de discurso de michel foucault coloca em questão o critério positivista para a definição dos conjuntos de enunciados;
a relação do enunciado com seu objeto dá lugar á relação dos enunciado entre si;
a determinação dos enunciados a partir de seu objeto configura a imagem da linguagem no contexto positivista, de uma relação simplificada da relação entre palavra e coisa;
essa relação complexa entre palavra e coisa, texto e contexto, signo e referente, denominar-se-á discurso;
o discurso reinsere no circuito o poder criador da palavra;
se a abordagem positiva consiste numa relação de simples descrição do real, o discurso visa evidenciar o negativo, a linguagem em sua produção de sentido, de realidades e subjetividades;
em lugar de se reiterar a unidimensionalidade de um suposto mundo ocidental, destinado a universalizar-se, o que o discurso propõe consiste num projeto de multiplicidade, que visa superar inclusive a dicotomia dialética que ainda sustenta uma unidade transcendental da realidade;


entre esses dois pólos de indeterminação, a natureza ocupa o lugar da ordem e da necessidade: zona de certeza entre o acaso da matéria e as vicissitudes da atividade humana;
rosset, a antinatureza



antes do discursivo, era o positivo;
uma imagem da linguagem que se referia diretamente às coisas aos acontecimentos;
a imagem primeira - que ainda persiste - da ciência;
por outro lado, o lado do humanismo, a imagem de um conhecimento todo-história, um humanismo que não pode escapar à história, seja pela via oficial ou pela via crítica;

o positivo começa a cindir-se com a imagem de uma outra história, com a imagem de uma dialética ainda inerente à dinâmica social, ou seja, vindo de fora, sem referências epsitêmicas ou à imagem da linguagem;
daí avança-se sobre a noção de ideologia que ainda resguarda não só o enunciador {vacina de ideologias porque percebente de ideologias] como a própria imagem da linguagem [imagem do conhecimento];
pois talvez esse seja o maior mérito da ideologia, desgrudar grande parte dos enunciados de suas supostas realidades, evidenciar seu caráter positivo;
seu pecado consiste em manter-se aquém das ideologias, como que fora dos valores, formulando um outro tipo de autoritarismo [de ...] que, no entanto, está muito próximo do positivismo;

o eixo para uma revolução epistêmica foi a imagem da linguagem;
o positivo é colocado em questão lingüística, o estruturalismo afronta os determinismo históricos;
não se trata mais da certeza objetiva que promove o conhecimento a aparelho de estado;

manter-se na postura positivista consiste em insistir em afirmar, em produzir enunciados que sustentam fantasmas, imagens da transcendência;
penetrar um plano de imanência consiste em usar a linguagem para desmistificar uma forma do mundo e da subjetividade acabada, aguardando para ser descrita objetivamente;
intervenção é o outro nome do discurso;
discurso pode ser qualquer enunciado desde que tomado em seu caráter de discurso indireto, desde que exorcizado dos fantasmas dos transcendentais, das falsas imagens do objeto na linguagem, como se qualquer coisa pudesse ter existência fora do nome;

por aqui começa a se perceber uma distinção entre falar e fazer, em que o falar mantém sua filiação com a imagem da linguagem que resulta no/do positivismo, e fazer consiste na ruptura com tal relação direta entre palavra e coisa, colocando todo enunciado em função de um discurso indireto;


exilados em terras distantes
cá estamos distantes de nosso povo
entregues em sacrifício
numa seleção natural do espírito

muitos de nós sucumbirão buscando a saída
muito nos confundimos com as formas do falso
poucos emergerão da noite obscura do mundo branco
poucos conseguirão enxergar no escuro

distancio-me cada vez mais de meus velhos
a cidade me desterra de minha vida
minha percepção se embota
meus sentidos são engolidos na noite da civilização

preciso fazer essa viagem ao interior da barriga do monstrengo
que nos devorou e tem devorado

essa travessia é tão fatal quanto a vida
o perigo é confundir-me com isso
tornar-me nisso
mas sei que não posso me tornar isso
- ou não serei eu -
misturar-me como estou misturado à terra ou ao sangue de meus antepassados

conto dinheiro na rua
confundo-me entre tantas pessoas
não é difícil disfarçar-se de branco




trata-se de um lado de uma perspectiva que visa reiterar um mundo pré-concebido, uma natureza transcendente;
essa disposição, essa postura diante do mundo e da subjetividade que se volta para o passado como critério de valor;
daí o problema da subjetividade, de seus padrões, da normalidade projetar-se como um problema de percepção;

por isso a perspectiva estética para se pensar, ou melhor, se trabalhar, se propor um programa de práticas subjetivas;
por isso os agenciamentos de enunciação como chave das práticas e processos de subjetivação;
as linguagens perdem seu caráter objetivista;
toda apropriação dos agenciamentos são práticas subjetivas;
tal como a subjetividade, a própria arte, a própria literatura perde seu caráter de objeto para se tornar enunciado base para outros enunciados que se desdobram a partir dele;

guattari projeta as práticas de subjetivação em um plano que distingue essencialmente um discurso objetivista da ciência de um enunciado poético;
sua concepção de linguagem está desenvolvida em mil platôs;
considera-se uma linguagem que não pode se referir ao mundo, a insustentabilidade do discurso direto;
o discurso direto se refere sempre a uma reiteração de uma idéia, de uma transcendência, de uma subjetividade;
em lugar disso pensam o discurso indireto como a forma da linguagem por excelência, visto que a linguagem sempre se refere à linguagem;
o objetivismo consistiria num efeito de linguagem, numa ilusão de objetividade que a verbalidade não possibilitaria;
essa seria a interessante solução dos mil platôs para o problema do enunciado e da discursividade;

a dimensão política do enunciado e sua intervenção/interferência na realidade e na produção de subjetividades, que justamente o caráter discursivo do enunciado, que vai colocá-los no mesmo plano;

o enunciado perde seu valor enquanto aquilo que diz para se projetar como aquilo que faz;
o enunciado torna-se impermeável a qualquer objetivação interpretativa;
não pode se colocar como fim, pois é sempre meio;

esse é um tratamento do enunciado que pretende, entre outras coisas, refutar a ideologia como critério fundamental da definição e da análise do discurso;
o problema da inerência do político no enunciado, que possibilita a função social do conhecimento na sociedade capitalista, não se resolve pela ideologia;
não se trata de referir-se a um enunciado livre, um enunciado neutro, o enunciado do partido;
trata-se de perceber que qualquer enunciado pode ser capturado como mercadoria no circuito capitalista;

a partir dessa imagem da linguagem que guattari propõe essa zona contínua que se estende às três ecologias;


não se trata de afirmar um modo de ser que se contrapõe ao ocidental;
trata-se de analisar o processo de transformação das subjetividades de resistência em mercadoria, da apropriação que o mercado faz da diversidade, do discurso da diferença de gêneros, etária, étnica etc;
identificado esse processo, trata-se de se pensar formas de produção subjetiva que escapem a esse processo de mercantilização;
é aí que entra a resistência, a apropriação da subjetividade enquanto resistência;

afirmar um modo de ser contraposto ao ocidental sem perceber essa mercantilização da diferença consiste em trabalhar a partir de um pensamento de integração da diferença;
nossa dificuldade, a dificuldade de nosso pensamento nos empurra em direção aos pólos;
o mundo misturado ainda não foi feito para o nosso pensamento, para as nossas categorias, para as nossas políticas;
pensamos os conhecimentos tradicionais sem poder vê-los diluídos em nosso saber cotidiano, em nossa socialidade;
a imaginação insiste em buscar a imagem do puro, do purismo;
insistimos em ver o índio estilizado como imagem padrão do índio;
não se pode imaginar o índio em nós, o índio como travessia, como passagem da imagem nítida do que somos, de como nos imaginamos para a ofuscada visão daquilo que podemos ser, daquilo que podemos nos imaginar trazendo a tona a imagem desse índio preservado puro em nosso imaginário justamente para não oferecer o perigo de nos dragar, de nos tingir a subjetividade;
como capturar o que o índio é;
como entender a zona intermediária em que se situa a ayahuasca quando já não se trata mais da pureza indígena da planta e seus rituais, quando ela ganha outros territórios existenciais quem nem por isso se diluem em nossas velhas categorias de religião, misticismo etc;
como se dá o novo no entre quando se renuncia à perspectiva apocalíptica do civilizacional;
civilizacional que receitou a morte anunciada do tango argentino, e agora tem de encarar a força da vida que resiste;
como inverter a história que parecia irreversível de tão poderosa, que de tão certa nos modelava a imagem do futuro;

a verdade não se encontra no passado como quisemos crer;
ela pode também ser vislumbrada no futuro;
pode ser construída;

os conhecimento tradicionais encontram na ayahuasca um outro modo de se imaginar;
não se trata do saber do passado indígena;
nem de encaixá-lo em velhas categorias de nossa história mística;
o novo se dá aqui a partir de uma articulação, de um lugar ou uma posição, melhor, de um espaço híbrido em que esses elementos se encontram e misturam;

equivalente é o que se dá com o processo dos povos indígenas de relação com a cultura branca;
esta só reconhece o que se mostra puro e intocado, o índio mercadoria;
a lei e o estado corroboram ainda e principalmente essa imagem do índio que eles incutiram no senso comum;
não se considera a experiência política os povos indígenas, mas o índio mercadoria que é o único que tem seus direitos garantidos;
aqui também o passado é a referência;
aqui também não se consegue perceber essa dinâmica entre o que foi e o que será;

03 maio 2008

português
minha segunda língua
meu sapato trinta e seis




de lá pra cá, o yorenka ãtame: o problema da consciência, fazer por uma crença no absurdo da civilização ou fazer por vontade;
qual o combustível que conduz mais longe e seguro, mais verdadeiro esclarece as pessoas do que estão fazendo para ser, futuramente;
sustentar-se na esperança de um mercado de trabalho, de um futuro técnico promissor;
não sei;
esse horizonte do mercado de trabalho trabalha com o mesmo horizonte de valores capitalista;
preferi trabalhar com a vontade mais que com a consciência: uma aprendizagem da vontade;
qual o horizonte de ação, objetivo;
será mirar o mercado de trabalho, valores da vila de taumaturgo;
ou criar valores outros;
como...;

ceflora: formação técnica e mercado de trabalho;
informática e a construção de um futuro contra-capitalismo;
gestores de relações outras entre mundo, pessoas e capital;

como a subjetividade pode ser constituída;
como uma ecologia subjetiva se contrapõe a subjetividades capitalísticas;
como a subjetivação se dá enquanto constituição artesanal, autopoiesis, de subjetividades;
detectar o que há de capitalístico na produção de subjetividades, na forma de se conceber o passado que consiste em um dos intensificadores de poder do estado: a história;
o [mercado de] trabalho como inevitável destino que configura todo o critério de valores da floresta: reserva extrativista como o menor índice de desenvolvimento humano;

o que há inicialmente para se reconhecer nesse processo são os aparelhos de captura do estado;
esses aparelhos colocam medo e impõem os valores do capitalismo;
educação, saúde, trabalho não são considerados artigos constitucionalizados da cultura;

o modo de ação do indigenismo opera no horizonte de valores super-capitalistas;
seja na formação de professores ou nos demais mercados de trabalho definidos no campo do estado-capital, os considerados benefícios e o futuro que norteiam as ações e os valores visam as subjetividades capitalísticas;
isso a ponto de se constituírem mercados para educação tradicional (mercado de trabalho, mercado editorial, mercado discursivo, mercado político, mercado jurídico) ou para o desenvolvimento sustentável dos povos tradicionais (mercado das políticas públicas, mercado do ecologismo, mercado de técnicos, mercado de espécies em extinção, mercado social, mercado do ambientalismo, mercado jurídico) entre outros;
todo esse mercado da diversidade cultural com seu discurso positivo faz evidenciar o que é cotidiano para os grupos indígenas e outros tradicionais: a sofisticação dos aparelhos de captura que não se restringem mais em simplesmente integrar, mas passam a constituir, com o chamado terceiro setor, um mercado social que passa a fazer da diversidade uma mercadoria e um mercado;
as subjetividades, que criaram tanta de dificuldade em serem pensadas, dado que o pensamento ocidental resistiu tanto e tanto em se desvencilhar das categorias que o colocariam em xeque, emerge como uma mercadoria cada dia mais evidente;
as subjetividades emergem ameaçando a forma do sujeito, o modelo que deu origem ao cidadão de direitos, ao indivíduo liberal com sua pessoa jurídica;
os movimentos de minorias, a figura dos excluídos, passam a exercer outras funções, determinadas por novos mercados, sempre visando intensificar a capacidade de controle;
pode-se então passar a diferenciar o processo de captura, sofrido assim pelos movimentos sociais, daquilo que ainda pode se constituir como capacidade de resistência;
processos de subjetivação próprios aos movimentos podem escapar à sua captura e massificação em políticas públicas, o que se chama molarização;
subjetivação opera na chave sutil da autonomização subjetiva, em que os valores não se mantém circunscritos aos valores do capitalismo (dinheiro, emprego, aposentadoria etc) ou aos benefícios assistencialistas de curto prazo fornecidos pelo estado;
aqui a diversidade deixa de ser apropriada como mercadoria para tornar-se estopim de um processo de resistência subjetiva anticapitalista que passa pelo trabalho, pelo consumo, pelo misticismo, pelas relações entre pessoas, relações com outros seres, relações com o meio, relações simbólicas etc;


português
minha segunda língua
meu sapato trinta e seis


as coisas me chamaram muito à atenção naquela primeira viagem pro juruá;
todo aquele discurso mal disfarçado que justificava a troca do seringal pela vila, pelo município e depois pela cidade;
a transformação do cotidiano e o valor contraditório: se queria valorizar a vida tradicional mas num querer que não era forte a ponto de se sustentar;
a economia desse discurso me chamou a atenção especialmente;
o discurso de estado, dos benefícios propunha uma convivência entre estado [ou seja, capitalismo] e o modo de vida tradicional, sem colocar em questão em momento algum a compatibilidade desses termos;
coloquei em discurso a pulga da dúvida onde estava, há tempos, a certeza do óbvio silenciada;
mas falar de um é falar contra o outro;
mas quem vai querer falar mal da educação, quem não vai querer o benefício do estado, quem ainda tem disposição para ser bravo;
a braveza do extrativista é uma braveza de estado, não contra-estado ou anti-capitalista;
a luta dos seringueiros foi pelo direito, uma luta para impor o estado de direito e ordem;
a fama de ecologismo anti-capitalista é utopia fora de lugar;
mas admitir isso é uma guerra;
equivale a reconhecer o significado dessa luta, reconhecer-se como massa de manobra, na reles condição de cidadão, sujeitado;
agora, entender o projeto do estado para seu futuro, entender o que quer o capitalismo, que interesse podemos ter para o mercado;
entender como a política de diversidade aqui inaugurada trabalha, no fim das contas, com um horizonte de homogeneização;
nossas categorias de cidadãos são grande perigo em meio a biodiversidade de idéias de tantos povos, cada qual na sua tão bela direção;


a mercantilização de subjetividades, tomada em contraponto aos processos de subjetivação, constata-se igualmente nas subjetividades construídas a partir dos valores sobre a formação técnica e o mercado de trabalho;
são conhecidos os valores convencionais da sociedade capitalista e o discurso da formação técnica para o mercado de trabalho;
toma-se como pressuposto invariável e acriticamente os valores do mercado como valores que devem nortear os processos de subjetivação;
o mercado com suas diversas características, entre as quais o etnocentrismo, e o forte discurso globalista, tende a homogeneizar a cultura pelo valor universal do capital;
o mercado de trabalho aqui ou em qualquer lugar do mundo deverá ter um mesmo perfil, dever seguir e obedecer as tendências genéricas de um mercado pressuposto que define os valores e as subjetivações;


o mundo pré-científico da antiguidade foi consumido como heresia pagã;
a imersão na mística noite medieval cristã pode ser justificada com a relação [que pode ser julgada descompromisso] desse pensamento, cultivado como saber de homens seletos, com sua época, com a sociedade e a política de seu tempo;
a justificativa para esse inexplicável retrocesso da sociedade ocidental, que põe a perder um sem número de conquistas não seria, portanto, o mero atraso da sociedade para utilizá-lo, nem a imemorial disputa pelo poder e a sucessão de governos e impérios;
ela estaria na própria expressão da ciência que colocava em questão inúmeros preconceitos dos sentidos, sem colocar em questão [ou relacioná-los com] a ordem social;

essa intuição ou suposição vem bater aqui no século vinte e um, atravessando muita polêmica ao longo da era moderna;
saber e poder: como essa mesma relação que levou ao suposto 'retrocesso' da sociedade ocidental pode ser pensada hoje...
como a ciência como religião pagã da era moderna modificou totalmente o quadro no contexto do capitalismo...
de que forma ainda nos enganamos com mecanismos positivistas e iluministas de pensamento que nos mantém a fé na ciência e em sua forma de apresentar o mundo...
como configurar uma imagem do pensamento que desmistifique de saída os positivismos que dão sentido ao mundo que vivemos e a nós mesmos em nossas imagens de nós mesmos, nossas consciências e nossas subjetividades...


essa idéia da subjetividade como mercadoria não é propriamente uma novidade;
ela já tem sido trabalhada em relação ao ecologismo: como o ecologismo ganha projeção a medida que e torna mercadoria [simbólica ou não];
quando estive trabalhando assessorando o yorenka ãtame, coloquei essa questão para o benki e os demais como ponto chave a se refletir: qual o mercado em que estamos nos inserindo, pois disso dependia nosso planejamento;

talvez fosse mais uma provocação minha;
o benki sempre afirmou: eu sou ecologista, eu sou ambientalista, o que muitas vezes parecia a forma com que ele orientava aqueles rapazes e moças em relação aos seus futuros e aos seus valores;

de minha parte, minha perspectiva era trazer o que há de máquina de captura no discurso do ecologismo, como ele se tornou uma mercadoria correndo num circuito capitalista;
digo provocação porque todos sabem disso: desde a projeção do chico mendes, da aliança, do disco txai, de todos os mitos que fazem a história desse lugar e de suas gentes;

minha perspectiva é a de que qualquer postura política, qualquer prática, seja artística, educacional, agroecológica, precisa levar em conta a dinâmica do capitalismo que a envolve e que envolve as pessoas envolvidas nas atividades;
como sempre deixei claro, minha concepção de consciência e conscientização é bem diferente do modo com que geralmente esses termos são pensados e utilizados;
meu horizonte é a autonomia e não a velha prática da massa de manobra;
a consciência e os valores que a referencializam é algo delicado e sutil dos seres humanos e não pode ser confundido com coerção, que é utilizar a idéia de consciência num sentido bem diverso;

não se trata portanto de transferir valores, por mais louváveis que sejam;
tratei, para ser compreensível, da questão da vontade, que a vontade de fazer poderia ser mais importante que a consciência de fazer;

as práticas de subjetivação, portanto, não podem ser confundidas com as subjetividades veiculadas no mercado para serem consumidas;
às práticas de subjetivação é inerente (imanente) a crítica à mercantilização das subjetividades, a busca por autonomia via prática política;

o que mais se vê, no entanto, é o discurso das minorias por espaço no mercadoria, as novas formas da servidão voluntária;
de outro lado, a aliança entre os indígenas e o estado faz desses um produto do mercado político sem precedentes;
a velha integração, a que os povos da terra resistiram por tanto tempo, está conseguindo agora avançar com o discurso das diferenças;
a estratégia é a da desintegração do corpo social através da criação e cooptação de alguns personagens chave na comunidade, tornados funcionários do estado, aliás, a funcionalização dos índios é algo que foi descoberto antes mesmo da eficácia simbólica do igualitarismo e da diversidade, que veio depois para reforçar a estratégia;
agora, em lugar de contratarmos brancos incompetentes para tratar os assuntos indígenas, contratamos os próprios índios como agentes do estado, o qual podemos nos ao luxo inclusive de contratarmos com formação universitária, agregando valor ao produto;

afinal de contas, o valor último da sociedade hipercapitalista do neoliberalismo é o consumo, não conhecemos valor que o suplante;
se nosso fim é consumir, é certo que a referência para todos que estão envolvidos nesse regime de valores é o dinheiro, o funcionalismo ou o mercado de trabalho, o acesso às mercadorias etc;

vender ecologia ou subjetividade consiste igualmente em impulsionar o grande mercado;
se estamos fazendo isso, por que não refletir sobre isso, por que não pensar e pesar nossos valores;


não vejo tanta vantagem em pensar fernando pessoa a partir de uma matriz ou de um paradigma da identidade [ser, essência, verdade], como vejo em desdobrar sua poética a partir de um pensamento centrado na diferença;

pensá-lo na chave da identidade como o faz octavio paz, parece conduzir a falsos problemas;
buscar essências e verdades sobre o ser em sua poesia parece tomá-la equivocadamente teoria psicológica;

vejo que sua poética problematiza antes de mais nada o fazer poético, a prática da poesia;
por isso me atrai a tendência a relacioná-lo com a política;
talvez menos uma política strito sensu, visto que penso numa prática poética que propõe uma transfiguração do eu, produto social;

por isso pensar e desdobrar as dimensões políticas da subjetividade;
mas não se trata de ir muito longe em termos teóricos, em grandes abstrações, pois sua poesia [e seu caráter político] nos atrela sim a uma experiência problemática do mundo e da subjetividade, mas sua ação enunciativa se desdobra em torno da prática da criação verbal;

pode-se dizer que sua poesia se projeta numa política subjetiva por configurar-se como processo experimental de subjetivação;
vemos em sua obra diversos estudos, esboços mesmo de subjetividades experimentais;
mais que buscar a si mesmo, o que se vê em pessoa é a experiência de diferenciar-se de si;

ocorre que para criticar o modelo epistêmico e subjetivo ocidental não se pode faze-lo de dentro dele mesmo;
é preciso desarmar suas armadilhas, seus pressupostos, seus valores;
consiste num processo genealógico;
desconstruir a subjetividade, modo de produzir subjetividades que resulta no tão criticado [de dentro e com os mesmos métodos] sujeito ocidental, consiste num processo que envolve a circunscrição do saber ocidental [abordagem epistemológica], esta por sua vez articulada inerentemente ao sistema de poder que dá forma e valor ao conhecimento como fenômeno social;

o sujeito ocidental consiste num artifício não apenas político-econômico, mas também político-religioso e, daí, político-epistêmico, transição que se dá na disputa pela consciência [fonte ou centro da subjetividade ocidental], que antes era posse da religião, e passa a ser posse do estado com sua religião laica, a ciência;


em lugar de nos conduzir para um plano de transcendência histórico, onde a abordagem de bakhtin conduz mesmo a prática social da poesia ao seu limite histórico, com pessoa nos voltamos para o plano de imanência, qual seja, a prática da poesia como processo de subjetivação;

essa poesia não é a expressão de uma subjetividade pré-existente, ela concebe uma subjetividade que se constitui a partir da poesia, em seu contato com a poesia;


o interessante é que bakhtin vê o romance como forma, mas mais que isso o vê como processo, como o que ele chama de romancização, o que se articula com um processo social de transformação da linguagem, da relação com a linguagem e, assim, de apropriação da linguagem;

essa popularização da linguagem na literatura constituiu-se num programa de descoberta do popular na cultura brasileira;
essa descoberta esteve articulada com as abordagens sociológicas de gilberto freire e sérgo buarque que passam a reconhecer o caráter plural da etnicidade brasileira;
nessa articulação podemos circunscrever certos desdobramentos infelizes desse programa modernista pelo fato do saber sociológico sido revisto por uma rígida/profunda crítica epistemológica;

abriram-se perspectivas sobre essa concepção de identidade nacional atrelada ao projeto de estado brasileira que o articularam em suas diversas dimensões;
inicialmente, constata-se que a construção de uma identidade nacional foi um projeto que se sobrepôs a qualquer reconhecimento ou valorização da cultura popular brasileira;

em lugar de se investir ou lançar um olhar que valoriza-se as diferenças, a matriz desse modelo de pensamento que pode ser traçada com clareza a partir do aprofundamento que o século vinte proporcionou nos estudos da epistemologia que possibilitaram uma guinada não só na filosofia como nas tradições positivistas da antropologia e outras disciplinas com a definição de uma matriz de pensamento com características marcadas por uma tradição baseada na identidade, na representação, na metafísica;
essa caracterização da matriz do pensamento ocidental só foi possível pelo esforço de olhá-lo de fora, numa perspectiva genealógica que relativisasse seus valores, para o que a articulação entre filosofia [com as imagens do conhecimento, da política e da consciência], da psicologia [com as imagens da consciência e da subjetividade] e da antropologia [com as interdefinições indivíduo/sociedade, sociedade ocidental/primitiva];


bakhtin coloca em xeque o estilo poético;
a forma poética, em sua tradição, definiu-se como expressão da alta literatura, de uma linguagem superior para conteúdos superiores;
o poeta como cantador dos grandes feitos, assumindo a função de historiador dos feitos do povo;
isso explicaria uma dimensão social daquilo que é definido como a gênese musical do verso;
não é só a música que definiria a distância do verso e da rima;

tomando por referência o uso social da linguagem, a fala cotidiana, o romance serve como contraponto que caracterizará a literatura moderna, em que a linguagem do indivíduo racional e liberal é alçada à matéria literarizável;

suprimida a distância entre a linguagem literária e a linguagem cotidiana, cumpre redefinir-se, agora com muito mais sutileza, em que consiste a natureza do literário;

o poema, antes definido por sua forma definida e seu conteúdo elevado, pode disfarçar-se em fragmento de conversa, diálogo cotidiano, recorte de situação;
numa poesia que pode tratar dos chinelos;

dissolve-se uma fronteira visível que redefine os critérios, os instrumentos e a sensibilidade;
a confecção e a leitura se confundem na realidade cotidiana;

bakhtin define esse processo de pareamento da literatura com seu contexto, com o mundo inacabado do qual faz parte, com o mundo que não se restringe a definir a escrita, seu material, sua forma, mas num mundo igualmente influenciável, escrevível por essa literatura;
invertendo o processo histórico, o tráfego não se á mais apenas no sentido de a realidade, o contexto, as tensões históricas definirem a texto literário;
o que se tem agora é um texto que se escreve com o mundo, com a matéria do real, uma literatura que define não só a história, como escreve o presente;
extingue-se a fronteira que distinguia ficção de realidade, que definia a ficção como imitação do real, que substantivava essa distinção, tomando o real como o duro curso dos acontecimentos e a ficção como o maleável imaginário;
o ficcional assume seu status de matéria simbólica que compõe o que é concebido como real, ao mesmo tempo que [entre outras disciplinas] a história revelará seu caráter contingente, arbitrário;

a medida que nos afastamos do século dezenove, e o século vinte intoduz suas tecnologias comunicativas que marcarão a nova face do capitalismo, é que vamos sentindo na pele o ruir dessa dura empiricidade que se constituía mesmo na identidade do real;

a princípio confunde-se o rompimento do dique parnasiano e a invasão da fluidez do linguajar cotidiano como uma mera simplificação da literatura, estigma herdado provavelmente do romance romântico, fenômeno que inaugura o conceito de mercado editorial que também competirá para a redefinição da literatura, agora em sua face de mercadoria;

com as exploração dos recursos, vamos atravessando obras como as de machado de assis, graciliano ramos, guimarães rosa, e esses recursos literários vão demonstrando a complexidade que podem atingir, sua capacidade para reescrever o idioma;

a língua falada é o múltiplo e não a unidade da língua escrita e gramaticalizada;
isso foi apreendido na prática literária muito antes e ser teorizado;