30 outubro 2007


semente, árvore, folha, flor... nosso povo conhece isso e também o espírito das árvores; é dessa forma que sabemos respeitar a floresta; para nosso povo todo mundo é doutor e todo mundo é mestre; porque você sozinho não sabe de nada; mas, juntos sabemos tudo;
moisés

saberes da floresta
essa conexão intensiva com o corpo-sem-órgãos da natureza, pelo/o qual nos conecta com as demais dimensões da natureza, se dá por meio do saber que consiste na perspectiva, na forma de ver de cada espécie, que cada espécie divide e que pode ser emprestado de uma espécie para outro pela xamanilidade presente em certos indivíduos de cada espécie;
o saber aqui, portanto, possui um outro estatuto que o da nossa ciência das extensividades;

pode-se escavar resquícios do nomadismo ashaninka em seu pensamento, sua forma de conceber e atualizar o conhecimento;
o nomadismo consiste numa das características centrais de resistência aos aparelhos de estado, reprodutores de sedentariedade por definição;
portanto, o nomadismo será enfocado na busca da dimensão de máquina de guerra das instituições ashaninka em geral e, especificamente, do conhecimento;
essa indistinção, típica do conhecimento (intrinsecamente coordenado à socialidade) entre os ashaninka, caracteriza sua metodologia de trabalhar o conhecimento e o manejo num horizonte que não se circunscreve à aldeia;
a família e o grupo, o coletivo, não são pensados na forma de nossas unidades extensivas e sim a partir do caráter movente dessa zona limiar de indiscernibilidade;



os povos indígenas se organizam com um projeto de vida bem complexo; para nós, o defeito quando acontece não está na pessoa, mas no nosso jeito de orientar; a responsabilidade é de todos; na aldeia você é membro de uma grande família; eu não posso ter o respeito só com meu pai, meu avô; tenho que chamar a todos de pai, mãe, avô, irmão; falo que tenho 50 pais, 50 mães, 200 irmãos; essa é uma segurança que a gente tem; não se chama ninguém pelo nome; chama de pai, irmão, avô...
nós entendemos o canto dos pássaros e outros sons da floresta, e ficamos tão íntimos dela que passamos a entender tudo; quando um não índio chega a nossa aldeia, a partir do jeito como ele olha a gente, já entendemos como nos vê; nem precisa falar; às vezes as pessoas falam coisas bonitas mas não passam segurança; elas precisam começar a "ver" de verdade;
shãsha – francisco piyanko

o sujeito e a subjetivação
enquanto em nossa cultura centramos nossa atenção sobre o indivíduo como centro de responsabilidade, culpa e derivados, para os ashaninka esse problema se dissipa com o processo de subjetivação;
não se trata de certo e errado, critérios que configuram a condução de nosso saber, o indivíduo não é considerado errado diante de supostas verdades e regras, marcadamente transcendentes, a serem obedecidas para se estar certo;
o indivíduo está sempre certo, deve se saber utilizá-lo dentro do plano geral;
em lugar de operar no domínio e controle social dos indivíduos, essa socialidade lida com a diferença de outra forma;
não se trata de um modelo de sujeito pautado em regras estabelecidas, é a multiplicidade de singularidades que conduz o grupo;
a identidade aqui não define, conforme o ocidentalismo, um modelo de subjetividades pautado em regras de conduta morais, considerando o valor do modelo em detrimento das singularidades;
enfim, o próprio objetivo dos procedimentos é outro;
o conhecimento não está centrado no indivíduo e na competição, e sim na coordenação dos saberes para a constituição de um saber coletivo;
essa natureza intensiva do conhecimento e sua distribuição contrapõe-se ao caráter extensivo assumido pela tradição ocidental;
a concepção de subjetividades coletivas, compatível com sua sociocosmologia, entra em choque com o modelo individualizante da consciência racional;
essas subjetividades se constituem na forma de zonas de indiscernibilidade seja no contato entre indivíduos, seja no contato entre espécies;
essa subjetivação encontra agenciamentos de enunciação próprios em sua ritualidade, cuja característica que vimos marcando é a de uma dinâmica dos devires em contraste com o regime de signos da representação;

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a máquina de guerra como aparelho de captura
parece próprio às máquinas de guerra o procedimento de experimentar perspectivas liberado pela antropologia maldita;
ao operar com os devires, as máquinas de guerra combatem o modelo da consciência e da representação que definem a ciência de estado;
definir as máquinas de guerra como segmentos malditos sem configurar-se numa apropriação de seus agenciamentos de enunciação (articulados aos agenciamentos maquínicos), consiste justamente propor a captura desse procedimento;
para esse procedimento se ativar enquanto máquina de guerra, ele deve fazer parte de agenciamentos de enunciação próprios aos grupos que se propõe devir ou agenciar;
enquanto me mantenho no universo e na lógica representacional não se constituem máquinas de guerra, pois esse procedimento, pautado na consciência e na representação, constituem a própria atualização dos aparelhos de captura, e eles que atualizam o mapa;


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alguém que nunca teve um vício, que nunca conheceu os abismos por onde pode nos conduzir o desejo, o desejo desmedido, a hybris, não se conhece;
aquele que só se refletiu a si nos espelhos da consciência e viu a imagem conformada de si, não se conhece, não vislumbrou de si sequer a sombra;

no entanto, o vício não se explica pela justa medida;
o vício é a forma de contatar a intensidade do desejo, de se ver nos limites de se apagar em desejo, de ser o puro desejo, não o desejo realizado, mas o desejo realizante;
o vício consiste numa incursão também positiva, pois que possibilita dar a compreender o desejo, as operações do desejo;
a forma da consciência configurar o desejo, por vezes amaldiçoando-o, não é a mesma forma do desejo conceber a consciência;

a consciência constitui uma dimensão da subjetividade;
essa configuração que a consciência faz do desejo para constituir a subjetividade está baseada nos valores da consciência;
a imagem que a consciência faz do desejo consiste na instintividade desenfreada, na animalidade, que deverá refreada pela razão, pela justa medida da temperança;

são valores a consciência (toda uma moralidade da consciência) a pautar a consideração sobre o desejo;
o pressuposto aí consiste na consideração - ou na valorização - de que a consciência identifica-se à natureza humana, de que a consciência é o que faz o homem, o distingue da natureza;
o desejo não tem valor aqui por operar justamente a ligação por perpetuar a sutura homem/natureza, por consistir naquilo que mantém o homem na condição de animal (máquina desejante);
o valor pressuposto aqui consiste - além da separação/distinção - na valorização positiva da humanidade em relação ao estigma colocado sobre a natureza;
a consciência racional consistiria no lugar mítico em que se deu a ruptura entre a natureza e a sociedade/ humanidade;
o mito da razão opera essa cisão do caótico natural da instintividade à ordem social contratada conscientemente;
a consciência é responsável pela ordem, o desejo pelo caos: eis o que prevê o contrato em sua moralidade;
esse imperativo social também ordenará a polis (e a política) do conhecimento;

ao decifrar o livro da natureza a razão 'descobre' uma ordem pré-existente ao pensamento, uma ordem que pode ser definida como a própria origem natural do pensamento, da razão, da lógica;

o que se vê é um longo percurso de valorações até se chegar à nossa concepção de verdade;
em nossa verdade a consciência representa um mundo pré-existente num plano exterior à consciência, a consciência se define pela passiva percepção de um mundo pré-definido pelas valorações adequadas;
trazer a valoração e o desejo para a desconstrução desse mundo pré-definido pelos valores da consciência, eis a tarefa;


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a lei é a consciência do estado, assim como a ciência decifrou-se no livro da natureza;
a lei é aquilo que unifica os cidadãos, enquanto o desejo singulariza;
ao império romano cabia sistematizar o direito, articulado à consciência grega e às leis judaicas;
estava montado o tripé do estado: uma psicologia articulada a um direito e a uma religião;

a consciência é o domínio das leis, das responsabiidades e das penas, das penitências;
é o domínio do controle dos desejos;

atribui-se, muitas vezes, exclusivamente, ao monoteísmo a psicologia homogeneizante do estado, quando, por vezes, este a recria em seus próprios aparelhos;

o vício coloca o cidadão na situação de não poder cumprir os compromissos, a responsabilidade;
ele se desloca do status de responsável;


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27 outubro 2007

série lembrança
distintividades
saudações a todos
estimulado pelo tema, contribuo.
gosto de pensar em termos de diferenças e semelhanças;
comecei estudando as poéticas alquímicas de bachelard;
interessei-me especialmente por um livro, o do ar, em que tem um capítulo central sobre a “filosofia nietzscheana”; gostava de uma expressão que ele usa: uno factu;
essa expressão pareceu referir-se (não conceituar) a um gesto que persigo, na antropologia especialmente, e que bachelard cumpre que é, enquanto teoriza, poetizar, concomitantemente, ou seja, uno factu;
meu rizoma nietzschiano em bachelard, de quem acabei me afastando, consistia no interesse por esse problema;
nietzsche como aquele que problematiza os limites entre a arte e a filosofia, não só como teórico da filosofia (posição por ele rechaçada) e sim como experimentador, criador de filosofias;
a filosofia trágica, em rizoma com uma anti-epistemologia da psicologia, vai nesse rumo;
por isso, agrada-me a antropologia como pesquisa das subjetivações, como experiência com as subjetivações, como laboratório da variedade de agenciamentos (por aqui pegava mal continuar com o vocabulário alquímico bachelardiano);
no entanto, tive um problema para tratar a arte em minha pesquisa sobre o canto-dança ritual guarani;
a noção de arte era dissonante no universo guarani;
por isso foi interessante trabalhar tanto tempo com o livro mais cru de nietzsche, a concepção do trágico, que evidenciou isso;
a própria noção de música precisou ganhar outro nome, a forma como eles referiam (e que melhor traduzia os termos guarani) no falar cotidiano;
a arte ainda está impregnada do fetiche próprio ao seu universo representacional e disso posso falar senão com propriedade, com experiência, por minha formação em letras;
pois como se constituíram as fórmulas subjetivas da ocidentalidade, o mesmo fetiche dominou as artes, inclusive o teatro, que se tornou comércio de personagens, inclusive a música, da qual prefiro não falar;
por isso, romper com a arte, por ela estar muito impregnada do universo da representação;
ao mesmo tempo, por isso usar a arte, por ela levar ao limite a “linguagem da representação” que domina os nichos cognitivos e enveredar-nos pelos campos do devir;
(teatro e música, tanto para nietzsche, como para mim, são centrais nesse processo;)
devido a essa segunda dimensão da arte, insisti em aproximar a filosofia trágica aos guarani;
e também por que me interessava imaginar uma (contra-)filosofia guarani como filosofia trágica, em contraponto às reduções metafísicas e logocentradas que seu pensamento sofrera ao longo dos séculos de interpretação judaico-ocidental;
afinal, uno factu era esse devir-guarani que eu experimentava, seja por minhas intensas relações com a música, a amizade e o xamanismo, seja pelo caráter de máquina de guerra de meus escritos que combatiam os aparelhos de captura do estado ao qual a antropologia está atrelada, ou seja, não me interessava descrever neutra e objetivamente os guarani;
a partir daí fazia a distinção entre arte e ritualidade, pois a ritualidade parecia não pagar o tributo que a arte paga ao pedágio representacional;
assim se dá meu rizoma com o universo indígena, a partir do qual se desdobram minhas experiências com a subjetivação;
pois a subjetivação vem para colocar esse mesmo debate para a psicologia, desmontar a psicologia em seus pressupostos, a imagem do homem pautada na consciência da filosofia religiosa e moral que a tradição nos legou;
essa contra-psicologia tem desdobramentos certeiros numa antropologia maldita: da noção de identidade à noção de sociedade vai haver uma redefinição geral;
os processos de subjetivação consistem em se estender a arte, ou melhor, a dimensão devires da arte (visto que não me interessa sua identidade representacional), para a subjetividade;
certo que passamos por processos de subjetivação humanos, como é o caso dos nossos amigos kontanáwa que nos disponibilizam toda uma ciência das subjetivações, para passar ao largo e nos indiscernibilizar nas subjetivações não-humanas;
aqui toda imagem do pensamento auto-referenciado da identidade judaico-parmenideana, centrado na representação de uma natureza pré-concebida da mente de deus, reconfigurar-se-á a partir dos imperceptíveis, imagem do conhecimento centrada na troca de perspectivas, criação de naturezas pós-experienciadas nas mentes das criaturas;
enfim, uno factu ...
abs

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26 outubro 2007


minha ascendência é a literatura universal;
minha graduação em letras treinou-me minimamente a reparar melhor no canto dos passos, seu compasso, sua lírica;
como ainda distinguia mundo real e ficcional, com uma intuição de que algo cheirava mal nisso que é chamado de realidade, procurei a menos (e mais) positiva das formações;

agora, numa forma particular de sabitude, sei que a única realidade é a ficcional ou, pelo menos, que a realidade existe, enquanto ficção, enfim, que na fusão das duas, a dimensão que se dissipou foi aquela suposta realidade que sustenta os consensos, que jazeria suspensa e transcendente aquém do mundo dos sentidos, que sustentaria o mundo dos sentidos que deslizariam sem afeta-la ou buscando encaixar-se nela;

um mundo selvagem não se deixa amansar e procria falsificações, virtuais que seguem corrompendo as identidades ideais em que nos apoiamos;

a literatura que já me atraia era aquela que revela o mundo em construção, o mundo suspenso, em cisão, aquela que rompe a unidade do mundo na quebra de subjetividades experimentais que o autor vive como se vivesse personagens, como um ator incorpora devires;


descobri na literatura antropológica alguns varadouros que rumavam a outros lugares;
que escapavam ao largo à descrição de um suposto mundo pré-concebido na mente divina;
que abria possibilidades de experimentação sobre realidades imaginárias;
trabalhar com mundos possíveis em lugar da (ou enquanto) descrição de nossas subjetividades sociais, para essa tarefa, mesmo para suas etnografias, que primam pelo realismo, a literatura possuía recursos inesgotáveis, um instrumental infindável;

muito se distinguiu de si mesma a antropologia, desde o momento em que a filosofia, sua irmã maior, tomou para si a tarefa de desmontar o substrato transcendental denominado natureza, e a colocou no universo dos sentidos em que o mundo se configura a partir dela, em que o mundo é projetado como produção de sentido, em que os valores da consciência são relativizados (genealogia), em que o sujeito é desnaturalizado e dessubstancializado, passando a se constituir em subjetivações;

tem sido assim que tenho descoberto a minha literatura, uma literatura entranhada na epistemologia e na filosofia, pois tem seu cerne na produção se realidades sociais;
no entanto, a qualidade dessa literatura consiste em seu embasamento etnográfico, na apropriação de produções de socialidades coletivas e daí, à desconstrução de nossos pressupostos e consensos;

a consideração da dimensão representacional, consideração que coloca paralelos dimensão significante e dimensão significada, distinguindo estratos na significação, que emparelha duas séries em que não se correspondem mais perfeitamente abre outros rizomas;

uma psicologia, pois a produção de conhecimento possui pressupostos na concepção de homem (consciência e vontade);
do papai-mamãe ao coletivo, de kant a hegel, muito muda;
no entanto, kant já traz o problema da consciência na produção de realidade, e hegel retorna a (com) uma noção de consciência objetiva;

a história se configura então a partir dos valores da consciência;
o que se tem então é um reforço da dimensão histórico-transcendental na consideração epistemológica;
a história é talhada à imagem de uma grande consciência coletiva, que se projeta sobre/reflete sem problemas a (suposta) realidade;
no entanto, kant já problematiza em algumas fissuras de sua barragem, no auge de seu moralismo e ainda que indiretamente, os valores da consciência;

problematizar o conhecimento, o sujeito do conhecimento, sujeito ideal de um conhecimento ideal;
o sujeito do conhecimento é pura consciência, isento de vontades que o singularizam, o homem universal que visa o conhecimento eterno, desp(rov)ido de sua efemeridade, conhecimento ideal pois projetado idealmente numa idealidade, numa physis transcendental;

em “compensação” essa idealidade procria sua parte maldita, tudo que afirma positivamente (ou seja, apoiado na realidade transcendental segundo esse esquema de idealidade) se desdobra no campo de valores “negativo”;
o desprezo do efêmero e do imanente projetam toda uma forma própria do conhecimento, todo um devir determinando as subjetivações;

quando chega a aurora, anuncia-se o pensamento do futuro, que rompe com o que o passado insiste em perdurar, com o que quer conservar, com o que se move na dinâmica da vontade de vida;
instala-se o espírito de uma vontade de potência, pautada antes no desejo que usa, que na consciência que conserva;
o eterno retorno rompe essa vontade de passado que produziu a consciência e um mundo a partir dos valores da consciência;

o desejo me impele ao futuro, a consciência me volta para o passado;
os valores de cada qual produzirão subjetivações diversas, a partir das quais se produzirão saberes diversos;

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25 outubro 2007

série lembrança
comments

não
não desejo
não desejo razão
não dê razão desejo
não desejo que
não desejo que me dê
não desejo que me dê razão


desejo apenas ser feliz
desejo apenas ser
desejo ser
desejo apenas
desejo apenas feliz
desejo feliz
desejo

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23 outubro 2007


erotismo
a questão da vontade e do desejo servirá a um rizoma com o erotismo;
a partir daí poder-se-á acessar e apropriar a literatura votada ao erotismo, assim como o erotismo na literatura;
literaturas como a de nelson rodrigues, henry miller, d.h. lawrence e outros erotistas em(con)trarão aqui em conexão;
com isso, o erotismo perderá sua obsessão genital para desdobrar-se em outros movimentos e metamorfoses do querer, do desejo sexual a outros desejos passaremos como gradientes intensivos, como um corpo-sem-órgãos, de forma a não circunscrever o desejo extensivamente, seja genitalizando-o ou assimilando-o à questão da fome entre outros;
dessa forma, pode-se fazer rizoma do erotismo para outras atividades que não estão (diretamente) envolvidas com a genitalidade, libera-se o desejo da obsessão da genitalidade, tratando-o a partir das zonas intensas do corpo-sem-órgãos;

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obrigado por me lembrar
sabe que de um tempo pra cá, desde minhas protoexperiências na reserva e bastante estimulado por seus escritos, decidi levar a frente uma crítica que me parece pertinente para detonar com a mentalidade conservadora e estatizante com a qual me choquei (eu e meu pretenso anarquismo de literatura);
trata-se de traçar os aspectos e o funcionamento dos dispositivos dos aparelhos de captura;
se as reservas eram potencialmente máquinas de guerra, devido a seus focos de poder, sua política de resistência à aliança estado-mercado(patrões), sua economia sustentável, sua política cultural de diferença, como isso foi paulatinamente sendo desmontado e apropriado pelos aparelhos de captura, de que forma se deu a ação de cada um dos agentes que compunham o quadro de interações e os desdobramentos e redefinições constantes das identidades desses grupos e desses agentes;
o que se quer dizer com intencionalidade, ou melhor, que formas de intencionalidade se configuram nas ações de cooptação dos aparelhos de estado sobre esses dispositivos de resistência da máquina;
inclusive refletir se tudo não passou de ilusão e de um complexo de épico, insuflado por figuras quixotescas (complexo de superioridade);
se o que houvera fora sempre mesmo aparelhos de estado manipulando essa massa de ex-seringueiros no âmbito de um projeto de tomada do poder, ou de substituição da hegemonia política;
manipulação que teria vindo por exemplo para a projeção de uma política ambiental, de toda uma legislação a ser disputada e por aí vai, valendo para outros parceiros;
assim estou estimulado a definir os traços desses aparelhos de captura a as faces dessas máquinas de guerra;


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caro amigo

meus textos não operam na chave da conscientização, por isso não são recomendáveis para os nossos catecismos didáticos (incluo os meus), são textos literários, de uma literatura da crueldade;
pra não te deixar na mão encaminho um texto que pode ser bom para sua atividade;
o texto trata exatamente desse dilema entre consciência e desejo que consiste no problema com o qual venho combatendo nos últimos dias;
como sabes sou um descrente do furor pedagogicus que propõe o moralismo universal da conscientização definido-a como ética generalizada;
não creio em éticas generalizadas ou universais, por isso não concebo uma ontologia universalista, por que os valores não são universais;
meu interesse está na liberdade, em processos de subjetivação pautados na liberdade, justamente o que tememos (esse nós é o nós que nos formata na consciência);
gostei da pesquisa, só não creio que o problema precise de análise, mas de experimentação;
abraços cordiais

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desejo de consciência
chamava a atenção dos amigos que iam à aldeia, de daniela e adriana, uma psicóloga e outra pedagoga, a liberdade e o status que tinham as crianças na comunidade;
logo associamos e explicamos esse status pela cultura e principalmente pela política, pois o che ramõi tinha uma relação muito próxima com as crianças e essas tinham uma posição nas noites de canto-dança;
no entanto, conhecendo outras sociedades indígenas vamos notando que a diferença não está neles, mas em nós;
essa liberdade que é dada às crianças, que não são pequenos adultos, que não são tomadas como instintos a serem adestrados, pode agora ser pensada nos termos de uma educação do desejo em lugar de uma educação da consciência;
nesse sentido o caráter histórico de nossa sociedade centrada na consciência teria a marca da diferença e não do consenso;

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20 outubro 2007

neste período, os waiãpi construíram uma nova imagem dos brancos, não mais distantes e perigosos, mas ambíguos provedores de bens desejados; essa imagem do outro refletia uma auto-imagem também ambígua, de um povo que precisava de proteção; uma representação de si mesmos que está transformando, muito lentamente;
dominique gallois

o problema do assistencialismo é um problema central do indigenismo brasileiro;
a imagem do indigenismo no brasil se constituiu a partir de valores positivistas de civilização, redução e integração;
para livrar-se dessa gênese somente voltando-se contra ela, redefinindo radicalmente suas bases a partir de uma genealogia igualmente radical;

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o problema dos valores é a questão que mais me interessa no projeto do murilo;
desde quando tive a oportunidade de articular um grupo de monitores da reserva para olhar para a experiência da reserva, os processos e os agentes que atuam a sua volta, que busquei colocar o problema dos valores;
evidenciou-se para mim que os valores não só dos thaumaturguenses (o que me parece óbvio e podia ser comprovado sem precisar ir à cidade, que dirá pesquisar), mas dos próprios monitores, que se acredita serem os que mais valorizariam a reserva, pautava-se por valores urbanos;
esse era o horizonte de minha atuação junto aos monitores e não a tentativa de provar ou comprovar verdades como parece ter parecido;
notara que a forma dos aparelhos de estado empreenderem sua captura é a estratégia de alinhar os valores dessas sociedades aos valores homogêneos do mercado global, que desterritorializa os indivíduos, fazendo-os desejarem no universo consensual (normal) montado por essa realidade inserida e reproduzida pela televisão, pelas instituições do estado, pela pesquisa e os pesquisadores universitários e outros aparelhos de captura;
no caso da resex, as que mais me interessam são a política ambientalista (confundida propositalmente com o ecologismo seringueiro), assim como a saúde e a educação: tríade abominável para constituição do universalismo estatal;
no momento me interessava debater a escola, pois o consenso moral estabelecido em torno de seu valor, de sua necessidade etc me parecia evidentemente responsáveis pelos fluxos e êxodos e pela disfunção entre valores locais e os valores da política de estado;
enfim, a humanidade violenta dos humanos não me estarrece;meu combate se concentra na tarefa clara de potencializar as máquinas de guerra, bem distinta de qualquer busca por qualidade de vida ou benefícios do estado, ou menos ainda por conseguir o que as pessoas almejam pois não confundo desejo com consciência e conheço os domínios da servidão voluntária;


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comprovando o protocolo de aparelhos de captura do esquema reservas extrativistas vamos abordar as instituições com que o governo penetra nas reservas para determinar sua desarticulação;
dizíamos (e deveremos sustentar) que o discurso de culturas tradicionais servira estritamente como etapa para mapear uma grande diversidade de populações não detectadas no mapa;
a segunda etapa será a operação dos aparelhos de captura numa população já alinhada, já identificada;
esse discurso serve bem ao trabalho do socioambientalismo que consiste numa política de controle ao mesmo tempo ambiental e social;
a política ambientalista do estado se utilizou do discurso do social e do tradicional para potencializar seu poder;
no contexto da políticas sociais (de controle), chamadas políticas públicas, o ambientalismo soube se apropriar do socioambientalismo;

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a propriedade da pequena saúde
em relação à saúde como aparelho de captura penso que ela se articula à educação quando se pensa no universo da ciência com que ambas buscam unificar a multiplicidade de mundos expressos na diversidade de sistemas de saber;
acontece que o monismo do estado não tolera sistemas de poder paralelos e sistemas de saber são sistemas de poder, reproduzem ou desdobram-se em sistemas de poder;
sua retórica da cultura não passa de outro aparelho de captura que serve para amansar a multiplicidade de culturas a fornecer status e protocolo a uma tanta multiplicidade de ontologias;
a idéia é que por trás dos saberes existiria um único que é de posse, ou melhor, propriedade da ciência;
esse único universo, que vem sendo formatado pelos valores urbanos da metrópole, é a realidade do orgânico que obedece à magia da química;
a química, essa magia dos remédios que transforma nossa saúde e seu tratamento em problema estritamente químico desdobra-se em outras tantas doenças;
o fascismo que impera na área da saúde tem diversas máfias;
depois de se apropriar do domínio da necessidade, os médicos nos convenceram a nos tornarmos cobaias de suas incursões cotidianas pelos corpos vivos;
eles precisam treinar e nós fornecemos o laboratório;
enfim, de todos os fascismos o mais sinistro se refere àquilo em que a medicina transformou nosso nascimento;
não só o nascimento como momento do parto como toda a fantasmática que ela instaurou em torno do momento de dar à luz;
presente futuro

deixei de lado minhas opiniões para maquinar resistências...
que tal...
se me alinhar como parte desse aparelho que tenta "resolver" o problema não vejo solução;
sua rapidez me coopta e passo a falar em nome dele, como se seu horizonte de pseudo-soluções fosse o mesmo meu;
dissemino a multiplicidade em minhas operações de resistência, sem porquês, saboto esses enunciados unificantes;
penso que me voltar contra ele seja o limite do que entendo por (des)fazer ciência, onde passo a fazer arte, arte libertária de resistência;
viva a liberdade !
viva a liberdade !

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17 outubro 2007

a manifestação mais poderosa do moralismo na realidade configurada em meu entorno consiste no moralismo pedagógico;
a velha consciência racional inaugurada por sócrates superou o moralismo mítico e tornou-se a mais poderosa arma do judaico-cristianismo na instauração de seu império neo-judaico do capitalismo mundial integrado e seu projeto de monocultura humana;
o furor pedagogicus do discurso da educação constituiu-se então numa poderosa arma de instauração de consensos que redefiniu em poucas gerações o ímpeto religioso da cultura ocidental judaico-cristã à impessoalidade do mercado simbólico das novas formas do escravismo das almas;
essa arma opera, como toda arma moral (estado, direito etc), com estabelecimento de consensos, com a naturalização de arbitrariedades;
não se vê dissensos em relação à educação, é ponto pacífico que a educação é uma necessidade em si, em qualquer lugar, qualquer contexto;
esse consenso é apropriado das mais diversas e perversas formas;
há uma neutralidade quanto à sua necessidade, como há em relação ao estado, à estrutura jurídica etc;
é um discurso autoritário ou fascista, que naturaliza as instituições em suas condições de poder ou políticas determinadas e determinantes;
sem dúvida que é nesse contexto que se dá o sentido do projeto do fmi de generalização do ensino fundamental, para melhor cumprimento de sua obrigatoriedade e fazendo com que o mapa do estado se estenda a todo território, não permitindo a constituição de ilhas de diferença ou cultivo de saberes tradicionais;
é extirpar com o moralismo pedagógico e o tecnicismo todo e qualquer germe ou criadouro de conhecimento nômade e máquina de guerra;o fmi impõe um projeto de por um lado popularizar e tornar efetiva a obrigatoriedade do ensino e por outro a obrigatoriedade da formação técnica dos professores, num quadro que antes tivesse aberturas a possibilidades de criação;

talvez a grande função da aliança dos povos do alto juruá seja reativar máquinas de guerra, fortalecer a luta contra a estatização das unidades de conservação, da manipulação que elas promovem sob a fachada de gestão popular ou participativa;
já se viu como os órgãos governamentais agem em harmonia com os modelos de desenvolvimento de alto impacto, como ele penetra, corrompe e desbarata as articulações das reservas atuando politicamente com a moral monista e civilizatória do estado;
o modelo de desenvolvimento que ganha espaço dentro das áreas de conservação do alto juruá é o de maior impacto das ações humanas sobre seu meio;
este modelo é o modelo dos aparelhos de estado, da sua ordem (e progresso);
o estado é fascista por homogeneizar essa ordem, suprimindo toda diferença como ameaça à tal ordem;

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aprendemos com clastres que não se fala de máquinas de guerra sem constituí-las;
referir-se às máquinas de guerra sem que num mesmo ato se as construa;
essa dimensão das máquinas de guerra consiste em sua natureza que articula experiência estética, pensamento, política;
essa dinâmica de tais máquinas define seus corpos-sem-órgãos que suspendem nossos automatismos racionalizantes, organicistas, formalistas, ordenadores;

a antropologia, enquanto aparelho de estado estratégico a operar nas zonas de indiscernibilidade da civilidade definiu uma forma específica de máquinas de guerra;
essa máquina de guerra se constitui como máquina abstrata: articula-se em discurso verbal e discurso ritual da corporalidade ou biopoder;
a antropologia como máquina de humanizar descobre seu poder e se volta para dentro da ordem ocidental;
a genealogia desconstrói esse moralismo civilizatório que remonta à psicologia do padre, desconstrói uma filosofia comprometida com a civilização e sua consciência;
essa aparelho engolidor de diversidade e cagador de homogeneidade;
a antropologia prestes a se esgotar com o fim da diversidade e o mercado global, com a onipresença do estado e da civilização se dobra nas máquinas de guerra e passa a constituir aberturas, resistências, barricadas;

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entraremos doravante num intenso trabalho de estudo das máquinas de guerra;
interessa definir como um dos núcleos nervosos o problema das sociedades indígenas como máquinas de guerra;
os modos que esses coletivos tendem a escapar continuamente das malhas do estado, de seus mapas psíquicos;essa perspectiva servirá para nortear nosso trabalho, para que não sejamos cooptados tão facilmente pelas ordens sociais ou socializantes do estado, com seus mapas e mapeamentos de controle social;

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16 outubro 2007

Querido amigo,
Se não tenho falado com quase ninguém, isto não é um "silêncio arrogante" mas, ao contrário, um silêncio bastante humilde, de um sofredor envergonhado em revelar o quanto sofre. Um animal rasteja para seu esconderijo quando está doente, e assim também faz la bête philosophe [o animal filósofo]. Quão raramente uma voz amiga chega até mim! Estou agora só, absurdamente só. E no curso de minha guerra subversiva contra todo o homem que até agora tem sido respeitado e amado (a qual eu chamo de "transvaloração dos valores"), eu mesmo me tornei sem perceber uma espécie de esconderijo, algo oculto, que você não poderá mais achar mesmo se for até lá procurá-lo, mas é claro que ninguém o faz. Confidencio que não é impossível que eu seja o principal filósofo desta era, e mesmo um pouco mais que isso, algo decisivo e fatal permanecendo entre dois milênios. Alguém nesta singular posição é constantemente obrigado a pagar com uma crescente, ainda mais glacial e aguda solidão.
saudações ao caro mestre
são cento e sessenta e quatro anos de nascimento e cento e vinte de ecce homo;
o eterno retorno propõe uma filosofia do futuro, pensamento que rompa com imagem linear do tempo histórico e com a imagem de um passado transcendente;
enfim, a referência para nossa antropologia do futuro e do desejo;

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15 outubro 2007

devires: por uma antropologia do futuro
a antropologia e os kontanawa
todos vivemos em constante processo de etnogênese;
o processo de etnogênese é uma prática generalizada, que não se restringe aos índios que passaram por contatos mais intensos com os dispositivos homogeneizantes do ocidentalismo;
o próprio ocidentalismo não consiste numa substância, ainda que sua auto-concepção seja marcada por um regime sígnico que assim o/se imagina (máquina abstrata);
esse alinhamento/enquadramento que o ocidentalismo faz das culturas, com, por exemplo, a invenção dos 'indígenas', multiplicidade de grupos do continente alinhados pela não-ocidentalidade, consiste na primeiro dispositivo de homogeneização;
esse primeiro dispositivo de homogeneização, os 'índios' ou a indigenização dos nativos, parece definir a própria antropologia, sua prática e sua perspectiva;
a antropologia, ao trabalhar sobre a diferença, ou com as minorias, toma como sua área de abrangência os não-ocidentais, ou melhor, o não-ocidentalismo;
assim, a antropologia consiste na criação/constituição e constante atualização do outro ocidental;
outro ocidental que se desdobra no outro ocidental em nós mesmos, a partir do padrão, da perspectiva padrão instaurada pela/a partir da relação de forças;
portanto, é por aí, pela desmontagem do padrão que também operarão as máquinas de guerra, justamente sobre os (desajustamento criativo dos) processos de atualização do hegemônico;

a antropologia opera essa produção de diferença e, concomitante, resulta dela como produto;
essa diferença contra-ocidental pressupõe a antropologia, está gravada em sua gênese, como denuncia seu discurso;
a busca por padrões que enquadrem essa multiplicidade consiste numa disposição que define o caráter do pensamento antropológico;
esse dilema da antropologia lembra uma crítica de viveiros de castro à deleuze-guattari do anti-édipo, segundo a qual, a própria disposição em direção ao grande divisor cultura/natureza (anti-édipo) pressuporia o édipo;

(em suspenso: aqui persiste o problema dos limites da antropologia ou os limites da diferença, que encaminharíamos à distinção entre o extensivo e o intensivo;)
no mais, os kontanawa parecem constituir uma dimensão que, por mais que seja a mesma, diferencia-se de outros processos de transformação indígenas;
por inverterem em certa medida esse processo de transformação abrem horizonte e disponibilizam dispositivos próprios a outra(s) antropologia(s);

os kontanawa e a antropologia
tais pensamentos me vêm da operação kontanawa sobre os processos de subjetivação étnicos;
parece-me que os kontanawa precisam ser mais índios que os outros índios;
diferente das outras etnias, eles não tem à mão a tentação de substantivar sua cultura, recurso próprio do mercado ocidentalista de políticas públicas de etnia (e etnização), fruto de outro mercado, o das políticas sociais sobre os direitos indígenas;

eles fazem a diferença no interior, ou melhor, no plano de outra diferença, diferença essa, no caso, com uma identidade formada: a dos não-ocidentais;

portanto, os kontanawa consistem (e representam (tanto para ocidentais, como o estado ou os demais regionais, como para os próprios indígenas, ou não-ocidentais se resolvermos encaixar desse lado também os outros extrativistas)) enquanto constituem essa zona etnicamente indefinida ou indiscernível, numa máquina de guerra;
se as máquinas de guerra não podem consistir, correndo o risco de serem incorporadas pelo estado, eles apresentam diversas marcas que podem definir máquinas de guerra, eles funcionam como uma;
certo que o estado sabe o duplo risco em que consistem, primeiro por tratar-se do ressurgimento de uma etnia e não de um segmento, e a partir de um grupo já considerado 'amansado', e ainda por colocar sob suspeita a primeira reserva extrativista criada, a primeira de uma série que marcam a política ambiental pós-abertura democrática;

se definimos (teoricamente) que a antropologia e os antropólogos definem, constituem ou mesmo criam os (grupos) indígenas em contextos diversos*, gostaria de levar essa idéia a um limite e pensar na seguinte virtualidade/possibilidade;
se os próprios kontanawa (entenda-se aqui a acepção num sentido lato) se constituíram enquanto grupo indígena superando inclusive um grande divisor, o 'amansamento', gostarei de pensá-los como antropólogos (também em sentido lato, ou melhor, no sentido strito supra definido) de si mesmos, por terem se constituído numa diferença em relação à ocidentalidade à qual jaziam integrados (e que se atente aqui para o simbólico de sua integração ao grupo de seringueiros da reserva);

*o caso do acre é paradigmático devido ao ressurgimento étnico de diversas aldeias e etnias que haviam sido devoradas pela máquina seringalista, que os havia transformado em caboclos, dimensão intermediária entre esse mundo, mundo dos brancos, e os outros, indígenas, da qual teriam sido resgatados, ou melhor tirados da barriga da máquina, segundo a história acreana, pelo antropólogo terri aquino, que nos conta que há 30 anos atrás não havia (oficialmente) índio no acre, que era um estado considerado então limpo pela máquina seringalista;

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11 outubro 2007

ive seen the future, brother
it is murder…
the future leonard cohen
the future
o intelectual de estado não é uma pessoa, mas um “estado de espírito”;
todos nós comungamos em certos momentos com o intelectual de estado;
como personagem conceitual ele consiste numa potência, numa intensidade, numa subjetividade que pode ser acionada em cada um de nós, especialmente pela adequação a um consenso;
o problema é irmos nos acomodando a ele, chegando ao ponto de nos cristalizarmos, nos identificarmos com ele;
as funções do pensamento científico positivista, especialmente em sua dimensão de saber pelo saber, quando o objetivismo e o moralismo pedagógico da tradição racionalista, que estabelece, na tradição greco-romana do judaico-cristianismo, a consciência (estreitamente ligada à responsabilidade para saldar suas dívidas, com juros) como supra sumo da humanimalidade, determinam por seus próprios pressupostos, a atividade científica como um aparelho de captura;
o próprio campo moral em que se situa e oculta a gênese dos valores e pressupostos já define essa função;
esse função se apóia na zona de indiscernibilidade entre ciência e religião, região em que a ciência se define por uma questão de fé;
pois a cruzada civilizatória ordenada em torno da razão universal conduziu à prisão insuspeitável porque moral e imperceptível, visto que o que é perceptível para mim é o que é perceptível para mim e só me aproprio do imperceptível por ele o sê-lo para outro;
quando suprimo o outro, para a experiência monótona da monocultura, função do teocentrismo científico, proponho o universo fascista da civilização;

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aparelhos de captura e amansamento
julga-se que os brabos passaram por um processo de amansamento;
essa consideração, com seu juízo moral de inquisição, denota a referência direta do aparelho de captura às máquinas de guerra;
colecionemos essas referências diretas à máquina dos brabos pois elas são peças preciosas no estudo do aparelho de captura;
o aparelho de captura opera buscando e convertendo as máquinas de guerra em aparelhos de estado;
já vimos há tempos estudando os diversos aparelhos de captura que configuram o universo dos brabos aqui no juruá;
vimos desmontando o jornalismo articulado à história acreana (fábrica de mitos/ complexo de épico com direito à minissérie), o ecologismo etc;

o conceito pensado como aparelho de estado
os pressupostos conceituais que baseiam a metodologia da cidade do conhecimento científico determinam-na como aparelho de captura com que opera o intelectual de estado;
por isso, o caráter moralista de rigor científico que unifica a forma de criação de recortes;
faz do processo criativo uma receita misteriosa envolta num terror;
o que está sendo sinalizado aqui é o sentinela da criatividade que deverá ser tolhida em favor da sistematização de informações;
o instrumental do intelectual de estado se define sim pela busca da verdade, se o que compreendemos como verdade faz parte desse processo civilizador de amansamento do pensamento selvagem;


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estômagos como máquinas de guerra
na aldeia apiwtxa, dos ashaninka do rio amônia, desde 2002, período em que benki e outros agentes agroflorestais começaram a por em prática suas primeiras experiências de sistemas agroflorestais, que a comunidade reverte os recursos da merenda do estado pelos alimentos da comunidade;
a iniciativa foi das crianças da comunidade que se negavam a comer o cardápio do governo, definido assim um projeto piloto da comunidade;

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o desafio metodológico do meu trabalho tem sido e será a constituição de inteligências coletivas, articular coletivos para trabalhar a constituição de subjetividades, devires coletivos, utilizando-se para isso dos mais variados recursos, entre eles as artes, a educação, a comunicação, enfim meios que encaminhem práticas de produção de subjetividades e canais de veiculação que pressuponham atividades criativas: agenciamentos de enunciação ou máquinas abstratas em geral;

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10 outubro 2007

o que salvou: a bandinha de música tocando o hino nacional, velhos tempos... pra fechar a crônica
pois é, aquele aura misteriosa que envolvia o iirsa, aquela tom conspiracionista que a circundava desapareceu depois do discurso do binho ontem, na frente do ministro do lula;
o que há de mais importante na universidade da floresta na opinião do ex-educador binho é que ela vai colaborar para que o acre não se reduza a um corredor de exportações, e sim almeje a pomposa e desejável condição de pólo de desenvolvimento;
outra coisa estarrecedora do discurso desenvolvimentista (é pouco) do ministro foi ele gabar-se de que houveram quatro (getulião, jk, médici e outro) presidentes que investiram em infra-estrutura, sendo um deles o nosso lula;
sem contar que ainda não me recuperei do arrebatamento do pastor henrique alphonsus;

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manifestação pelega dos pupilos que, por falta de propósito, foram manifestar a falta de livros e internet... é hilário
a universidade contra a floresta
foi o que vimos ontem na inauguração da universidade da floresta, ainda estou estarrecido;
inauguração triste, preenchida com a massa humana e uniformizada dos barulhentos estudantes do ensino médio que chegavam aos ônibus;
os únicos que já tinham ali extraído algum látex (afora os anônimos que sempre os há nesse seringal disfarçado de homogeneização urbana que é cruzeiro do sul) eram seu antonio de paula, representante das populações do alto juruá (!) e o dr. mauro almeida, cuja tese tematiza o rubber;
por falar em cruzeiro, os bandeirantes como eu foram congraçados com a alcunha de cruzeirenses de coração: bem vindos estrangeiros...
os intelectuais de estado estavam sorridentes, esperando a boquinha ou cocktail (rabo de galo);
de cara perguntei a programação para uma das monitoras, que pareciam ser em maior número que os presentes, e era o que eu temia: discursos e discursos;
gostei quando vi a banda de música, pelo menos isso;
a banda e os hinos me divertem, é o momento que todos assumem a religião do estado;
por falar em religião do estado, pela qual os acreanos são fanáticos, a galera das reservadas junto com os profissionais da educação vibrava a cada final de frase;
chegamos ao êxtase na fala do deputado henrique afonso que ao final invocou por seis vezes o nome do jesus evangélico ardorosamente, arrebatando os presentes;
mas o grande momento (tirando a apresentação da banda) foram os discursos do ministro, que fez uma promessa heterodoxa, mas que deixou claro seu projeto para o ministério de educação: prometo que vamos entregar a br 364 asfalta para tirar cruzeiro do sul do isolamento;
quando estava pensando: bom, o ministro falou, então o binho fez um bom uso do silêncio, esquecendo-me de sua carreira de professor;
foi quando ele começou, empolgado com a estrada, convidou o ministro para a inauguração em 2010;
não parando por aí, disse que a universidade da floresta será muito importante para o desenvolvimento regional, para a ligação com o pacífico, para fazer da região do juruá não um corredor, mas um pólo de desenvolvimento;
aos que, como eu, estão fugindo do desenvolvimento em busca de alternativas renováveis ou sustentáveis ao lixo civilizador, decepcionaram-se ao não ouvirem uma palavra sobre floresta, conhecimentos tradicionais (e olha que o mercado está quente), desenvolvimento sustentável ou afins;

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09 outubro 2007

no mercado com kumãiari
processos de amansamento
dois temas precisam ser elaborados no momento a partir das experiências no juruá;
esses temas se articulam ou configuram duas dimensões do mesmo tema;
o primeiro tema ou uma primeira dimensão do tema, refere-se a modelos de desenvolvimento: que modelos se constituíram historicamente nos embates das políticas locais, em que medida a expansão desmedida do modelo de alto impacto ambiental, também chamado de exploração predatória, deu origem a seu antípoda e contraponto: o desenvolvimento sustentável, em que medida esse desenvolvimento sustentável, ao invés de se contrapor ao do desenvolvimento insustentável, não é sua continuação por outros meios... enfim, de que formas o desenvolvimentismo desmedido da exploração predatória (que aqui se refere não só ao ambiente como à exploração humana também, visto que ela terá lugar central no discurso do ecologismo seringueiro) teria consistido na gênese do ecologismo, ou, olhando de revés, como o ecologismo se constitui em mais um produto no mercado dos bens simbólicos: políticas públicas, políticas ambientais, terceiro setor, academias e discursos acadêmicos?
enfim, de que formas o ecologismo foi apropriado e apropriou as populações tradicionais, antes empenhadas no mesmo processo de exploração contra o qual vão se voltar, ou melhor, que se voltará contra elas, ou melhor, que as descartará;
é quando o segundo tema já começa a se definir, pois trata-se das formas com que esses esboços de máquinas de guerra potencializados por esses movimentos populares foram sendo minados e cooptados a aparelhos de estado;
de que forma temos aqui um mostruário das diversas formas com que age a empresa capitalista e os órgãos do estado na cooptação e pilotagem bem como o jogo que realiza com toda a fantasmática grupal e os jogos de poder; isso segundo uma realidade específica, segundo condições também específicas;

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08 outubro 2007

vendo o tempo passar
os anos se passam, a governança das unidades de conservação vai amadurecendo com o tempo;
em muitas delas, a organização já não tem a mesma potência inicial;
os modelos de desenvolvimento de alto impacto ambiental vão ganhando espaço e os projetos de gestão socioambiental comunitária vão se apagando como poeira na estrada;
a falta de experiência de um povo massacrado pelo regime militar, só pra lembrar a partir daí, e depois pelo regime democrático, especialista em neutralizar iniciativas populares e integra-las ao metier governamental;
no entanto, a grande empresa capitalista que atende por globalismo tem a carta branca das organizações populares cooptadas pelo estado, ou pelos pequenos estados locais que pululam brasil adentro e não pedem licença para aparelhar no estado democrático de direito;
o iirsa deixa claro qual é o modelo desenvolvimento assumido pelas democracias latinas para as próximas décadas;
e a sociedade, cinicamente, não teve lugar no projeto que foi definido a portas fechadas com os bancos e as fundações interessadas no tal modelo de desenvolvimento de altíssimo impacto;
o certo é que enquanto os cães disputam os restos de comida que caem (ou melhor, são jogados) da mesa do estado, o abismo sob nossos pés vai afundando;
quem sabe não chamem nossos antropólogos para fazerem o eia-rima do iirsa...

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plaquetas utilizadas para mapear madeiras de lei para corte
a ‘máquina de guerra nômade’ conquista sem ser notada e se move antes do mapa ser retificado; (mil platôs)

o leitor conhece o sertanista josé carlos meirelles da frente do envira por suas crônicas em que narra episódios vividos por ele e seus companheiros em meio a índios isolados e índios madeireiros;
vamos ver, o sertanista começa descrevendo no primeiro parágrafo os usos do paco-paco, árvore ribeirinha conhecida como algodoeiro, com diversas utilidades;
sua objetividade impetuosa demonstra seu domínio da vida isolada nas matas do envira;
é o descontraído tom da crônica, tom impressionista de quem narra fatos cotidianos, sem impacto;
é uma fina estratégia para nos afastar do discurso moral que coloca o dedo na cara do leitor para evocar o tu deves dos decálogos do padre;
pois é depois de instaurar essa disposição no leitor, que o sertanista começa a desmontar a tranqüilidade aparente dessa floresta;
o cenário inicial começa a eivar-se de ironia, com a suposta função do paco-paco descoberta pelo mateiro bené;
a leve ironia já nos vai adiantando o tema da crônica do autor;
o cenário idílico do caçador voltando pra casa nos imerge novamente no impressionismo despretensioso;
pois é desse cenário que emerge o estarrecedor acontecimento que o narrador prossegue sem fazer alarde, com o tom impecável da crônica, que serve para fazer a ironia mais intensa;
é então que, quando esperamos flechadas, o que espoca do meio da mata é um tiro de índios nada isolados;
os ‘índios isolados’ do caso são indígenas que têm desenvolvidos planos de ‘manejo madeireiro’ em ‘seu território’ e atiram nos inimigos brasileiros;
ou seja, os indígenas peruanos estão se disfarçando de índios isolados e usando sua animosidade de máquinas de guerra em favor do tráfico madeireiro de seus manejos e suas concessões fajutos;

daí a habilidade dos aparelhos de estado se disfarçarem de máquinas de guerra, utilizando-se dos próprios índios enquanto aparelho;
melhor, os amansados estão se fingindo de brabos para cumprir a função de retificar o mapa;

essa é uma das formas da máquina de guerra ser apropriada pelo estado;

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06 outubro 2007


máquinas de guerra e aparelhos de estado
essa inversão da tese do socioambientalismo pode ser articulada de maneira interessante pelo duo aparelhos de estado/máquinas de guerra e pela avaliação do potencial de máquinas de guerra dos coletivos em questão;
máquinas de guerra são agrupamentos que escapam à lógica de poder do estado e problematizam os circuitos capitalistas;
as máquinas de guerra não se definem positivamente, por caracterização e identificação, e sim por diferenciação, em afirmação não-positiva;


em síntese, as máquinas de guerra não são aparelhos de estado;
podemos pensar nas sociedades indígenas como máquinas de guerra tal como fizera clastres nas sociedades contra estado;
os seringueiros e seu movimento, bem como o processo de constituição da reserva, também serão pensados aqui a partir da polaridade máquinas de guerra/aparelhos de estado;

quero diferenciar essa diferença (mg/ae) de uma distinção tomada como coro dos contentes no ativismo antropológico que consiste em tomar a perspectiva dos regionais/nativos em oposição ao estado, tomando como intermediário ou discurso mediador o direito;
com isso minha intenção é despistar o monismo que vincula milenarmente a antropologia ao estado (mesmo que seja um vínculo de pseudo-oposição) e trazer a diferença para dentro da análise dos coletivos e seu movimento, na medida em que eles próprios se constituem ora como aparelhos de estado, ora como máquinas de guerra;

as reservas extrativistas, modelo de organização definido pelos seringueiros, podem ser pensadas como máquinas de guerra devido a algumas de suas propostas escaparem aos modelos dos aparelhos de estado;
a autonomia que os seringueiros visavam com seu modelo de reforma agrária inspirado nas reservas indígenas levou por aproximar princípios extrativistas desses elementos da máquina seringalista ao modo de vida dos povos indígenas;
a aliança dos povos da floresta consiste no momento em que se ativa a maior quantidade de dispositivos de máquina de guerra no projeto das reservas extrativistas;
a associação do movimento seringueiro/extrativista no alto juruá, mais especificamente no contexto da aliança dos povos da floresta, ativou dispositivos de maquina de guerra;

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diferença intensiva e devir: os aparelhos e o corpo do estado
proponho-me a experimentar uma indistinção substancial entre a governança dos seringueiros e o governo (do estado);
penso aqui em pensar uma diferença antes intensiva, em que ambos podem, em certos momentos, constituírem o mesmo corpo, um corpo em continuidade, através das mesmas funções;
esses momentos é o que chamarei de aparelho de estado, em oposição à máquina de guerra, momentos em que o movimento reinventa as referências unicizantes ou monistas do estado;

coloca-se muitas vezes que tal movimento, seja dos seringueiros incorporando funções do estado ou vice-versa, se manifesta de acordo com os interesses das partes;

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o ecologismo como aparelho de estado
a apropriação do ecologismos pelos seringueiros da reserva extrativista analisados por pantoja pode conduzir a uma problematização sobre a forma com que dispositivos de máquina de guerra podem se converter em aparelhos de estado;

em lugar do socioambientalismo ter potencializado o movimento seringueiro, o que se vê é o ecologismo minar o movimento seringueiro e sua mobilização;

inicialmente quero colocar em questão os agenciamentos associados aos direitos dos trabalhadores como parte do apareho de estado, o direito de forma geral associa-se ao monismo estatal;

a política ambiental de estado, responsável de alguma forma por ter arregimentado as categorias que iriam definir esse discurso jurídico socioambiental, tais como povos tradicionais, etc e mais recentemente conhecimentos tradicionais etc, teria se apropriado dos seringueiros
os seringueiros, dirigidos pelo conselho nacional dos seringueiros, teriam dado o suporte social dessa política e, isso sim, contribuído na formulação dessa política, especialmente com sua condição de povos tradicionais;
todas categorias antropologicamente suspeitas ou pelo menos não usuais e "carentes" de uma urgente crítica antropológica rigorosa;

os agentes dessa política ambiental (ibama) prosseguem enviando seus missionários, devidamente munidos dos livros da constituição e do snuc para doutrinar os regionais;


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o ecologismo seringueiro
postos tais marcos, prosseguimos com outra abordagem do ecologismo, extensamente desenvolvida por pantoja (2007), pelo discurso seringueiro e seus desdobramentos na praxis das reservas extrativistas;
com a naturalizada "crise" da borracha, deu-se início à expulsão generalizada dos seringueiros das colocações que pertenciam à máquina seringalista, convertida então em empresa pecuarista;
as agências e agenciamentos que foram ativados consistiam nos sindicatos de trabalhadores rurais, as reuniões, os discursos, a organização da classe trabalhadora, a luta e classes, um discurso de luta, resistência e articulação política que tinha lugar em, ou melhor que vinha de outras regiões do brasil e do mundo;
essas agências e agenciamentos deram lugar a outras, tais como as cooperativas, escolas etc;
seu discurso girava em torno dos direitos dos trabalhadores à terra, à reforma agrária, e só mais tarde, à sua forma de vida já tradicional, o extrativismo;

pois pantoja (2007) igualmente marca o artifício que fazia do ecologismo um dos pilares argumentativos, quiçá o central, justificados no momento de concepção as reservas;
por fim, da condição de trabalhadores rurais em luta pela reforma agrária, os extrativistas se convertem em poucos anos de processo de articulação política, em ecologistas interessados no patrimônio natural do país, melhor, do estado;
a justificativa era seu modo tradicional (que imaginavam continuar tradicional) de baixo impacto ecológico;
melhor seria dizer, o baixo impacto ecológico da empresa seringalista;
enfim, o ecologismo que nortearia a política ambiental institucional já estava em seus primeiros planos de utilização;
não sei a vocês, mas a mim parece estranho encarar com naturalidade a idéia de que a luta do seringueiros ou dos povos da floresta teria pautado a legislação subseqüente, que teria a finalidade de determinar legalmente/definir juridicamente/dispor em forma de lei as diretrizes da política ambiental do estado;
minha hipótese aqui é invertermos essa relação aqui visando evidenciar o contramovimento ou o refluxo do já lugar comum dessa influência popular em nosso estado recém-democratizado;
ou seja, não teriam sido os seringueiros a construir uma legislação popular do socioambientalismo, e sim, o socioambientalismo que teria dirigido os seringueiros a se converterem ao ecologismo, o que se verá com pantoja que teve desdobramentos catastróficos quando os seringueiros caem nas mãos do ibama;

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05 outubro 2007

o ecologismo
vejo no ecologismo um problema interessante;
duas autoras com que trabalho tratam do ecologismo como uma questão exógena, que teria se vinculado artificialmente, em um momento determinado, no contexto e no discurso das disputas políticas dos regionais estudados;

ecologismo indígena
entre os ashaninka, mendes (1991) constata que seu contato com os brancos da região consiste num ciclo de predação que vai desde as correrias de outros povos, passando pelo fornecimento de peles de animais e carne de caça, até a empresa madeireira, quando tem seu terrítório invadido e impactado com as máquinas pesadas dos cameli, família de político e empresários do juruá, episódio que suscita a busca por outras alternativas com o projeto da cooperativa e da associação;
com esse percurso, a autora desmistifica o discurso do ecologismo que caracteriza as estratégias políticas de índios e seringueiro da região do alto juruá desde fins dos oitenta;

antes de sair em busca dos operadores do ecologismo, em que consiste meu propósito, preciso definir alguns marcos e outros tantos pontos de referência;

inicialmente o que me chama a atenção, nas entrelinhas dessa sua desmistificação, é que se pode ler o ecologismo em continuidade aos produtos oferecidos ao mercado pelos indígenas;
se foram oferecidos índios selvagens, pele de animais, carne de caça e madeira, agora seria oferecido, pois o mercado exigia, ecologismo;
digo que me chama a atenção uma certa continuidade - e não ruptura - do ecologismo;

no entanto, não é estranho que o ecologismo seja articulado aqui num discurso indígena visando a demarcação de terras;
o ecologismo está atrelado às exigências de condições para o desenvolvimento das práticas tradicionais que caracterizam o indigenismo;e, além disso, a empresa pecuária que sucedera a máquina seringalista é incompatível com tal modo de vida do indigenismo, o que era a justificativa central no caso em questão;


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04 outubro 2007


sempre exercitando a genealogia
o modelo moral proposto pelos gregos a partir da razão e da consciência, ou seja, supostamente laico e universal (universal aqui num sentido particular pois que rompendo com o cultural mítico para definir mito universal, a razão) foi metamorfoseado por duas revoluções que mediam nosso contato com ele;
a primeira é sua regressão judaico-cristã ao mito (séc. II ao sec. XVI) para identificação de suas raízes definitivamente morais, ou seja, culturais e, portanto, universais, mas não no sentido que po ele fora atribuído, de ruptura com mito e universalização pela razão;
o mito a que me refiro é o judaico-cristianismo que se apropria dos recursos da tradição grega para definir sua psicologia, sua política, seu direito, preparando assim, o caminho do monoteísmo laico do estado;
chega-se ao estado (sec XIII até hoje), a segunda revolução a que me referi, que teria retomado e redefinido a sua forma esse modelo individual de homem (modelo moral de indivíduo), fundado na consciência e na liberdade, o qual fornece também e ao mesmo tempo a psicologia do estado (digo, a mônada da sua estrutura psíquica), assim como o modelo epistêmico, a forma própria do conhecimento que se propõe laico a partir do renascimento, a ciência, que é colocada pelo estado em função do desenvolvimento ou progresso e da ordem social;

é a isso que nos referimos quando tratamos do caráter repressor da concepção do desejo como falta que procuramos formular no texto regras da virtude;
estamos tratando que a forma do uno que está apropriada seja pelo monoteísmo judaico-cristão, seja por seu regime político, o estado capitalista, forma esta que se projeta na forma do sujeito moderno, o indivíduo;

por que o desejo e justamente o desejo?


o desejo é aquilo que singulariza, aquilo que tira do padrão, que particulariza e faz a singularidade de cada indivíduo;
por isso a moral (processos de valoração universais) se constitui aqui na forma de um modelo, de uma receita, de uma fórmula despojada de arbitrariedades, mansamente domada pela razão e seus remédios, explicável, racionalizável;
nesta crítica epistêmica, a psicologia (e a psicanálise) ocupa espaço privilegiado e se projeta devido a ela operar com as imagens e conceitos da subjetividade (ainda que de forma alguma esteja imune à tradição objetivista que a fundou e define seus métodos científicos), tendo a objetividade (de forma alguma, igualmente, imune à subjetividade, que a funda e percorre via moralismo), a partir da physis, (expurgado a subjetividade das ciências e criado esse campo experimental para sua abordagem asséptica e positiva, a psicologia) se constituído como o objeto ou problema, por excelência, das demais disciplinas do nosso pensamento, o pensamento positivo;

interessante, nessa guerra, como se constitui o corpo da antropologia, disciplina que se coloca na margem de nossa subjetividade (de seu modelo, digo, de nosso modelo, ao estudar a minorias, sejam alienígenas ou não), nas fronteiras de nossa id-entidade para definir processos de subjetivação e objetivação outros;
garantida pela colonização, regime político dominante em seu contexto nascedouro, acreditava-se que não seria mais possível escapar ao milenar método positivo e histórico constituído como aparelho de estado visando à ordem social do capitalismo colonialista;
imaginava-se que os antropólogos fossem mandados para pregar nos velhos oestes a religião universal do estado, da igualdade, dos direitos, reiterando e reforçando o modelo do estado;
imaginava-se, até bem pouco, uma zona fronteiriça não problemática, definida pela progresiv civilização dessas zonas limítrofes desse sentido moral que nos pressupõe a subjetividade e a objetividade;

entre a objetividade subjetiva da physis e a subjetividade cientificamente objetiva da metaphysis, a antropologia encontrou o sentido, liame de conexão entre essas dimensões;
daí a crise de que sairá o óbvio ululante do estruturalismo, que irá inicialmente opor as séries significada e significante para ir se desdobrando na crítica dos dualismos que sustentam a imagem ilusória da representação positivista, ou melhor, taxonomista e individualista;
colocado o problema da representação, articulado (inevitavelmente) ao dos valores, desconstrói-se (via genealogia ou crítica dos valores) o imaginário de uma dimensão universal da physis, da natureza, bem como (pela própria crítica dos valores que possibilita essa desconstrução) a crítica ao modelo moral que define a subjetivação na forma das identidades;

inicialmente tenta-se isolar a objetividade indígena, fazer dela o objeto da antropologia, cujo método teri o propósito estrito de registrar ou descrever objetivamente tais objetividades;
mesmo em campos em que a subjetividade se sobrepõe como o mito ou o xamanismo, o animismo objetivou processos mentais;
a socialidade é explicada objetivamente, projeta-se sobre ela categorias estranhas;

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regras da virtude
a noção de virtude para os gregos, ou para aristóteles, está associada à prudência, ao controle do excessos;
foi essa concepção de virtude e de moral herdada por nossa sociedade com as devidas adaptações dos tempos;
a razão, dimensão humana e espiritual, seria a maneira adequada de frear os impulsos, esse nosso lado animal, que nos levam à desmedida;
os valores estão norteados pela consciência, visando a liberdade, liberdade de se fazer o que se quer, em sã consciência;
o homem como animal que escolhe, que possui a razão e, além disso, a consciência, este instrumento essencialmente moral;
ao invés do excesso, da guerra que conduz à extinção, portanto, escolherá a liberdade da prudência, da justa medida;
o desejos consistem na falta de controle, de medida, de razão e consciência;
razão e consciência consistem aqui no sentido "natural" ou evolutivo que a moral atribui ao homem, essa figura universal;
o sentido prático da filosofia seria um imperativo moral: o controle do impulsos;
a via desse controle seria a razão e a consciência;
essa concepção pode ser estendida para a pólis, o regime político que constituiu o nascedouro político da filosofia;
a razão política visava a ordem, o controle dos impulsos sociais;
o valor da ordem aqui é supremo, e a desordem associada à imoralidade, ao que não tem valor, ao que é espúrio;
o conhecimento racional tem ainda o poder de dissipar a ilusão dos sentidos, essa outra instância contraposta ao campo das idéias;

interiodade e exterioridade
o dilema e a crise vivenciados pelo conceito de identidade forjado em nossa cultura e fundamental para sua identidade, sua auto-concepção e a concepção das outras sociedades e culturas, estende-se e passa a contaminar o próprio conceito de sociedade;

convirá articular esses conceitos de socialidade e subjetividade conforme articulados na matriz epistêmica moderna;

como se demarca uma sociedade se esta instância não se constitui como entidade em si, como auto referenciada, se a condição de sua definição, fundada no amplo espectro de fenômenos denominado cultura, é relacional...

essa articulação para guattari consiste na articulação de duas ecologias, o que significa dizer que seu relacional ganhará sentido aí a partir do capitalismo e não na busca por outras substantivações que nos forneçam outras essências do social ou do subjetivo;
o capitalismo consiste num eixo que desloca do 'em si' para a produção de subjetividade ou de socialidade;
a revolucionária produção de si, invenção de si...

o capitalismo e sua propriedade de desterritorializar, põe abaixo os marcos oficiais de definição de sociedades, como fizera com a história;
e fará o mesmo com a nação socialista;
o movimento ecológico, chamado depois de socioambientalismo, acreano levou para a legislação, para a prática ambientalista, para o estado, para a imprensa e a opinião pública a zona de indiscernibilidade entre natureza e cultura que eles - e não eram só eles - representavam, ou melhor, problematizavam;
eles constituíam um elo, assim como (mas nem tanto) os povos indígenas, que, em termos de política de estado, ligavam as políticas públicas sociais às políticas púbicas ambientais;

foi a primeira crítica que os ecologistas regionais fizeram à obsessiva distinção antropológica - que também é religiosa, científica, estatal etc;
primeira de uma série de intervenções que esses regionais/nativos em busca de saída para sua condição sem saída (considerando sem dúvida todos os acordos com o regime capitalista nos quais a grande maioria caiu e continua caindo) propuseram à disciplina que se propunha a colocar a ciência a seu favor, ainda que a ciência não tivesse nascido para mudar de lado assim, ao bel prazer de alguns;
assim, para o pensamento científico, que opera com os mesmos velhos pre(con)ceitos estatais, esse foi o primeiro dos problemas que gostaremos de apresentar nessa proposta de análise da relação entre nativos e antropólogos no ecologismo acreano e adjacências;

o que me anima a investir em tais intervenções, o que requererá um conhecimento ou uma pesquisa extensiva no tema, é a possibilidade de constituir um corpus com o qual se poderá articular e interagir com as pesquisas em transformações indígenas do nuti;

tal ponto de partida tem por objetivo conduzir minhas intervenções junto ao centro yorenka ãtame na linha de abordagem do referido núcleo de transformações indígenas;
portanto, tiro proveito das transformações que tal abordagem propõe à antropologia para conduzir, a partir daí, minhas intervenções e minha perspectiva, meus princípios;

é assim que começo a acreditar - e a propor - que a noção de transformações indígenas guarda uma polissemia que escapa ao sentido 'literal' (denotativo) de transformações indígenas, ou a noção de indígenas;

pois os tais problemas relativos às dualidades (nuti, 2003: 6) que se projetam do pensamento antropológico para a - leitura da - realidade etnografada, devém ser aqui (nem tanto) igualmente problematizadas;

também porque as perspectivas antropológicas que ganham lugar com seu encontro com tais transformações se rebatem sobre a antropologia, modificando-a desde os seus fundamentos;

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estou trabalhando desde a minha pesquisa de mestrado sobre a articulação entre subjetividade e conhecimento;
a imagem que o homem faz de si mesmo determina a imagem que faz do próprio conhecimento;

além do mais, a concepção dessa articulação implica a concepção de metodologia;
modificar a abordagem com a identidade, que objetiva a subjetividade alheia, que se torna um objeto estudado, em lugar de um processo vivenciado em ação, implica mudar a relação com o conhecimento, com a produção de conhecimento;
esse outro, que deixa de ser uma identidade objetualizada e se torna um processo de subjetivação no qual o pesquisador está envolvido, passa também ao status de produtor de conhecimento, atividade que deixa e ser exclusiva do pesquisador, de suas metodologias e pressupostos;
entram no jogo uma outra abordagem, com seus regimes de verdade, seus processos de subjetivação, sua ontologia;
os princípios a pautar meu trabalho, minha abordagem, minha pesquisa junto ao centro yorenka ãtame sugerem uma abordagem crítica dos processos de subjetivação capitalística;
a crítica e o contraponto à esse modelo de subjetivação, típico de ma taumaturgo estão na gênese do centro e suas ações e propostas de subjetivação;
estamos em uma região estratégica e o investimento em subjetividades é o centro de disputa em torno do qual gira a luta política na região;

a região conheceu uma forte projeção da política de mal taumaturgo nos últimos anos, período que coincide com um a crise aguda do frágil modelo de organização comunitária da reserva na forma de associações;
mal taumaturgo catalisa assim os processos de subjetivação, a política e os processos de gestão da reserva que se torna cada vez mais papel exclusivo do estado;
com isso o sistema de propriedade coletiva que sustenta a reserva vai se afastando cada vez mais dos projetos de constituição, dos planos de uso e manejo;

o centro yorenka ãtame propõe como uma de suas metas principais proporcionar processos de subjetivação voltados para a gestão comunitária de recursos naturais;
essa proposta articula assim três processos: processos naturais, processos sociais, processos subjetivos;
assim que este projeto se articula às ecologias da mente relidas por guattari;
retomando que o norte valorativo das ecologias se posicionam num contra-capitalismo, operando no sistema n-1 de desconstrução genealógica;
a religião capitalista – esse misto de misticismo, ciência e um pop que faz torna mercadoria tudo que toca – com sua dinâmica unificante é encarada da máquina de guerra com um olhar agnóstico de afirmação não-positiva;

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03 outubro 2007


as máquinas de guerra se constituem em oposição aos aparelhos de estado;
é aparelho de estado tudo aquilo que é incorporado como dispositivo ao corpo do estado, tudo aquilo que é unificado;
tudo aquilo que se alinha a esse organismo que tudo pretende organizar;
as máquinas de guerra, que traçam rizomas com o modelo das sociedades contra estado, se referem a tudo o que escapa a esse poder de incorporação, de unificação;
tudo que se desorganiza, que segue desorganizando, criando vida fora da ordem e do sentido, tudo o que se poietiza em corpo-sem-órgão;

o conceito (a categoria conceito) foi incorporado ao estado, tornou-se seu aparelho, um dos primeiros, pois que veio a dar o sentido racional e laico do estado burocrático;
o nomadismo marca esse movimento de escape e o pensamento nômade essa desestatização dos conceitos que devem encontrar ou constituir vias que não os circuitos fechados das disciplinas, daí os agenciamentos de enunciação;
daí os agenciamentos de enunciação que devem ser criativos e comunicativos mas que não se confundem com comunicação ou com arte;

instrumentos como entidade, identidade, sociedade, entre outros conceitos que visaram "explicar" as socialidades indígenas num processo de substantivação de seus processos dinâmicos e fluidos, adequando essa socialidade aos padrões de nossos conceitos (por sua vez adequados à nossa ordem estatal), operam como aparelhos de estado;

o estruturalismo opera com dois eixos, duas séries: linguagem e mundo;
o máximo que se tinha alcançado em termos práticos de crítica ao nosso modelo de representação era a crítica das ideologias;
ele coloca e problematiza a questão da representação (e da ontologia) que tinha sido resolvido em ideologia;
até então era simples: a linguagem representava o mundo e ajudava a construí-lo com a força das ideologias;
até aí estava introduzido e explicado ou decifrado o problema do plano simbólico, que consiste num problemão no contexto capitalístico, sem afetar o telhado de vidro da ontologia (e da) metafísica ocidental;
ou, em outras palavras, parmênides ainda estava valendo;
mas o capitalismo não cessou de desmaterializar seus fluxos e e desterritorializar, passando por cima do respeito marxista à ontologia ocidental;
pois é, as coisas mudam... ainda que permaneçam as mesmas;


a identidade como princípio milenar tinha encaminhado até então um acordo não problemática entre as duas instâncias;
mas a velha tradição racional que sustentara o sentido (racional-izante) do mundo se viu esvaziada e novas possibilidades de relação foram sendo apontadas para a desmontagem e reconstrução de tais padrões;
a ciência teve finalmente uma rigorosa genealogia, o que exorcizou a história (e, por extensão, o método histórico) e definiu saídas para uma ciência impiedosamente laica, ou melhor, não-judaico-cristã, ou melhor, não-monoteísta;
com isso o positivismo se torna subitamente (em termos de longa duração) um peça de museu e/ou de laboratório;
o poder se constitui como uma instância imanente da produção simbólica e do conhecimento, destinado a ser absorvido ou dobrado nas metodologias a-morais da neutralidade axiológica;

pois bem, esses foram alguns recortes e linhas de fuga com que se chegou à engenharia das máquinas de guerra;
como disse inicialmente, elas tiveram um caráter central na, ou melhor, enquanto deconstrução dos pressupostos instaurados pela/enquanto polis, pelo/enquanto estado;
suas próprias condições de possibilidade foram a guerra contra essa constituição ou apropriação enquanto aparelho de estado;
daí o esquema de destranscendentalização n-1, especialista em singularizar entidades (e, portanto, identidades), ou (como há muito já temos trabalhado) a afirmação não-positiva;
por isso, ainda, a descida à casa das máquinas da epistemologia e da teoria do conhecimento ao longo do século passado;

a problematização estruturalista das dimensões da significação encaminhou ao complexo das cosmologias, que abriu campos híbridos entre simbólico/empírico, chamados sociocosmologias, a partir dos quais a socialidade indígena pode não só ser compreendida, ainda que minimamente, em seus próprios termos como, ao longo deste percurso, redefiniu princípios antropológicos basilares;
a partir daí, temas como o xamanismo, especificamente as metamorfoses e seus operadores, tais como o canto, a música instrumental, a dança, o tabaco, entre outros serem promovidos a intrumentos dessas socialidades;

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