27 fevereiro 2007

mais da (nossa própria) crueldade
acho que compreendo agora um pouco melhor imagem construída por nietzsche quando ironiza que a compaixão num homem de conhecimento, assemelha-se a um gigante com mãos de criança;
ele se refere ao disparate entre a crueldade pressuposta no discurso da ciência e a compaixão que ordena o discurso religioso;
muita crueldade (como se diz muito sangue derramado) pressupõe a ciência, o discurso competente, que é a maneira de nos utilizarmos de nossos discursos técnicos, a qual acaba por se dispersar em nossas falas cotidianas;

assim, acaba por ser incongruente querer elaborar um tipo de participatividade que não coloque em questão a própria forma do discurso, sua disposição;
a incompatibilidade parece ser a de colocar um agente que aparece no mero espaço de referência, sem fazer intervenções no espaço referente;
assim, politicamente esse agente é absorvido passivamente, para contar como mais um elemento do discurso objetivo, perdendo a eficácia que um discurso puramente tecnicista lhe daria, afinal ele foram ouvidos, isso está legitimado;
aí está a questão que comentava que se buscava superar no grupo oimporama orereko, superar o discurso da compaixão, o discurso moral que quer dar voz a esses desprivilegiados, marginalizados;
o que interessa nesses marginalizados não é o que neles inspira compaixão, e sim sua potência, a potência discursiva que eles proporcionam ao possibilitarem desmontar o discurso universalista do positivismo que impregna nossa alma autoritária de brasileiros;
a perspectiva que é proporcionada tem lugar na instância de produção discursiva e não no campo de referência, ao qual até hoje está restrita;
o discurso moralista se alinha historicamente à perspectiva positivista, integracionista, evolucionista, que quer fazer o outro participar de algo que lhe é privado, de algo que lhe falta;
é um discurso comprometido politicamente por não fazer desse pensamento uma máquina de guerra, ou seja, não revesti-lo da dimensão política própria a todo pensamento ou saber;
elaborar, portanto, a partir do material que esses grupos nos apresentam, um saber que se contraponha ao saber técnico, civilizado, que avança sobre eles com sua hegemonia avassaladora, é assumir esse saber como máquina de guerra, como pensamento selvagem;
essa máquina política se contrapõe a concepção positivista de que a tomada de consciência política desses grupos passa pela consciência histórica e pela conquista de seus direitos, de um sistema de direitos que está comprometido na sua gênese, em seus princípios, não com esses atores, mas com outros;
fala e poder a ética discursiva ou do direito à voz
para iniciar uma série de posições sobre a ética discursiva, parto da implicação política/palavra nas diversas formas que assume;
marginalizar o estrangeiro em sua própria concepção, tomando para tanto, sua característica lingüística, esse é o bárbaro, ou bárbaros;
essa atitude etnocêntrica é um gesto constitutivo da sociedade ocidental;
o logos, desde o direito praticado entre os gregos, é um instrumento político de distribuição significativamente restrita (restritamente distribuído);
a palavra oficial é de poucos, na democracia clássica o grego falado por uns não era o grego falado por outros;
que se lembre que a grécia democrática da agora era a mesma que inventou os sofistas, esses originais ad-vogados;
o idioma latim cumpriu essa função desde o império romano passando pela sociedade medieval;
o idioma científico se contrapõe ao senso comum e sua linguagem, dando continuidade a essa forma de contraposição social com que o discurso se diferencia;
essa maneira de se diferenciar o discurso é uma estratégia de política de posicionamento social que define a identidade e a diferença do discurso, bem como aciona sua eficácia simbólica;
essa estratégia de diferenciação encontra amparo em práticas políticas, são exercícios políticos que se sucedem há séculos, definindo categorias e procedimentos da política brasileira e ocidental;
essa chave da ética discursiva remete aos estudos foucaultianos do saber/poder, que evidenciam o caráter político dos discursos científicos a partir da crítica marxista ao capitalismo (discurso positivista e sociologias do conhecimento) e a crítica nietzscheana ao pensamento histórico-transcendental do século dezenove (incluindo o campo de imanência da análise marxista);
num país onde os bacharéis bons falantes da colônia independente cumpriram uma função política central na definição do estado e do poder privado e suas relações promíscuas, o idioma é um poderoso e influente instrumento de distinção social;

25 fevereiro 2007

mais uma da série bichos da floresta técnicas 2
hoje um dos grupos em sala de aula, representado por julio, expôs uma concepção de etnocentrismo que sintetiza tanto nossa aula até o momento, como a abordagem que se procura fazer da antropologia neste primeiro módulo;
em seu exemplo, os pesquisadores contrapuseram duas diferentes concepções de realidade, a primeira do homem ocidental e seu modelo de desenvolvimento tradicional, valorizando as facilidades e o poder controle sobre os seus meios através da tecnologia e desvalorizando as sociedades que não possuem esse poder;
numa segunda sociedade, os valores podem ser outros e todas as conquistas técnicas do ocidental valerão mais pelas conseqüências que acarretam em seu meio e nos seres com que convive;
a partir desse rascunho de duas culturas diversas, tem-se dois modelos diversos de atribuição de valores;
com isso, tem-se dois contextos em que a técnica é valorizada segundo concepções e mundo diferente;

o difícil exercício de contextualização a que estamos nos submetendo tem intenção de desmontar, desconstruir a dinâmica evolucionista pressuposta em nossa concepção de tecnologia;
essa desconstrução dos pressupostos evolucionistas presentes em nosso discurso da técnica servirão para nos atentarmos ao nosso próprio contexto tecnológico, mas também à antropologia e, principalmente, ao direito como técnicas;
universalização e contextualização
o contraponto entre universalização e contextualização (que pode ser chamada relativização) serve para nos darmos conta de dois diferentes procedimentos;
a universalização, característica marcante no discurso do direito, principalmente do direito positivo, é procedimento operante no etnocentrismo;
o etnocentrismo pode ser definido como a postura de universalizar os valores da minha cultura, da minha etnia;
a universalização é um procedimento de ocultação de pressupostos, um pensamento que reproduz pressupostos;
portanto, a contextualização (ou relativização) define-se por um procedimento de revelação de pressupostos;
ao contextualizar, revela os pressupostos generalizantes em que se assentam os textos e, com isso, serve para descortinar suas intenções;
esse exercício de contextualização nos servirá, na abordagem do direito, para suspender os juízos etnocêntricos que propõem projetar sobre outras sociedades tanto os costumes, matéria prima das leis, quanto as próprias leis elaboradas pelo direito positivo, privando-as de seu contexto e submetendo o ‘outro’ a um instrumento técnico próprio de outra sociedade;
isso ocorre quando se desqualifica as instâncias de julgamento e disputa da outra sociedade, pressupondo-se que essa sociedade não está apta a encaminhar seus próprios processos de julgamento e penalidade;
privar uma sociedade de tais processos é um procedimento, de eficácia comprovada, que serve à desmoralização dessa sociedade e de suas instituições;
série noturnas respeito para o guarani é quando um fala e o outro escuta;

a máxima que definia o grupo oimporama orereko, desde o início era essa: o trabalho tem que ser participativo;
essa máxima se definiu por dois fatores principais: primeiro pelo discurso das políticas públicas que nos servia em nossas dúvidas e apontava para possíveis soluções junto aos órgãos públicos, espaço por onde se pôde garantir possibilidades de trabalho;
segundo, pela experiência das inúmeras violências que cotidianamente os víamos sofrer com pessoas, instituições e governos incapacitados de os ouvir;
incapacitados de os ouvir: uso essa expressão por ter sido evidente desde o início para o grupo, com certa unanimidade, que se tinha um importante trabalho de assessoramento comunicativo;
não era um trabalho simples, falar pelo outro não é um trabalho simples, incluía a representação em reuniões e consultas públicas morosas de instituições públicas, escrever projeto com infinidades de exigências burocráticas, conversar com pessoas desinteressantes etc;
tudo isso, fora as coisas boas, que eram a maior parte, com a convivência, as conversas e as rezas etc;

o trabalho participativo
vindo de uma escola da desconfiança discursiva, entendi tanto o que o grupo queria dizer com participativo, quanto entendi que esse participativo tinha pouco significado conceitual, apesar das boas experiências práticas dos arquitetos na construção da escola, gênese do grupo;
elaborar junto à comunidade a estrutura e o desenho da escola era uma experiência simples, mas que simbolicamente tinha bastante resultado conceitual em arquitetura;
enfim, o conceito de participativo deveria ser agora redefinido por nós, pelo novo grupo, pelas novas experiências, junto às práticas com o povo da aldeia, junto com eles, enfim;

propriedades metodológicas do participativo
um nó importante (e difícil) a ser desatado era o de que trabalho participativo, respeito, diálogo eram problemas conceituais que exigiam práticas e abordagens próprios;
ainda que quiséssemos nos diferenciar de certas práticas, as quais considerávamos moralmente condenáveis (apropriação de conhecimento, uso do nome dos guarani, falta de protagonismo no diálogo etc), é importante trazer o problema da ética discursiva para um campo conceitual, no qual se encontrassem métodos de pesquisa que se pautassem numa base metodológica própria;
centro e periferia
desde a suas matrizes, o pensamento ocidental remete ao uno, a um centro, a um centrismo;
assim é com seu discurso teológico elaborado no horizonte do monoteísmo;
assim é com a macro noção de objetividade que redunda num método e numa concepção própria (e que pretende ser a própria, a universal) que cumpre o papel de expropriar o poder político e a eficácia simbólica do discurso religioso, substituindo-o pela representação laboratorial e suas experiências perceptivas (que manda a noção de representação política para um sentido bem distante daquele que com ela compartilhava);
com o pensamento científico, funde-se mesmo a dimensão do perceptível (também articulada no religioso) (por meio da qual se conduz ao bom pensar, ao pensar racional) da experiência do mundo com sua reprodução sígnica, a representação;
se o campo em que se dá origem à antropologia é marcado pelo etnocentrismo, ela rapidamente se fundirá com seu objeto, um objeto pensante que põe a perder todo o modelo de pensamento objetivista, criando um campo de experiência epistemológica distinto daquele que era o de seu ponto de partida;
o pensamento do central, do uno, da referência só pode ser definido pela perspectiva do marginal;
por isso é que será o pensamento selvagem (ou infame se pensarmos com foucault e sua máquina de desmontagem discursiva) que possibilita uma perspectiva diversa daquela homogênea conduzida pelo pensamento científico, definido a partir do quadro de valores que lhe garantiu projeção política, a chamada, equivocadamente se me permitem, razão instrumental;

interdependência entre centro e periferia
por vezes parece haver uma aliança entre esse pensamento etnocêntrico, voltado para o centro do pensamento ocidental, e essa ciência marginal, cujo centro é a linha limite onde o pensamento passa a se indefinir, a se tornar difuso;
a antropologia é criada no cerne do pensamento etnocêntrico, trazendo, no entanto, em si, o germe de sua oposição, de sua desconstrução;
há uma interdependência entre a homogeneização em que consiste a construção da identidade da ciência, sempre contraposta ao, até então, hegemônico discurso religioso, e o caráter heterogêneo (e heterogeneizante) antropologia, que constituirá um discurso da alteridade não só do homem ocidental, mas principalmente de seu pensamento, que se forma a partir de características psicológicas bastante similares a esse homem;
só se reconhece
tecnologiastecnologia de manejo
trabalhei alguns meses num curso de formação de manejadores;
trago de lá algumas experiências com que tenho refletido;
a noção de técnica do jovens formados para operar como técnicos nas áreas desconhece o conhecimento dos extrativistas que vivem na mata;
garotos da cidade se colocam diante dos comunitários em posturas arrogantemente etnocêntricas;
esse comportamento em minha observação está estreitamente ligado à relação valorativa de sistemas de conhecimento: tema chave que conduzia nosso processo de formação via pesquisa, cujo título é: saberes da floresta;
fui escalado para dar o curso que os preparasse para a pesquisa;
depois de uma preparação, versando sobre o caráter humano do manejo, antes do grupo entrar na máquina tecnicista do manejo oficial, tratou-se o conflito dos modelos de conhecimento em contato;
optei por não manobrar antropologicamente tais sistemas de conhecimento, e sim dar a conhecer aos cursistas que se opera com saberes diversos; pelo menos o saber técnico dos técnicos e o saber da floresta;
a experiência era bastante forte e reveladora, com direito a conflitos diretos e muitos mal entendidos;
na maior parte dos mal entendidos, os jovens técnicos da seater tinham dificuldade em reconhecer e operar com elementos do saber da floresta;
a princípio, todos reconheciam que havia saber naqueles grupos e tal, mas na hora de colocar pra fora suas reflexões e aprendizados nesse mundo, ficavam perdidos no seu universo de conhecimento e acabava caindo muitas vezes em leituras preconceituosas desse saber;
era o resultado, acredito, do seus estudos e de suas práticas junto aos extrativistas a quem davam assistência, bem como de seu universo de técnicos e o que eles trocam de suas experiências;
já os comunitários não tinham dificuldade em reconhecer e expor as especificidades de seu próprio saber;
as exposições eram variadas, complexas, concretas, com direito à amostragem de artesanatos com sementes e sapatos de látex;
penso que tive uma experiência viva do que tentarei explorar no sentido de rever e criticar o conceito de técnica e tecnologia sustentado em nossa cultura ocidental;

assim, quando se fala em tecnologia no manejo, a imagem de tecnologia que se projeta está associada à uma noção de técnica própria à cultura ocidental, como todos os cacoetes e idéias fixas;
reconstruir a noção de técnica no âmbito dessas culturas é um ponto de partida para se poder falar em tecnologia de manejo;
no entanto, penso que tal problema só poderá ser colocado a partir dessa distinção dos modelos de conhecimento e seu conflito inerente;
série noturnas 3
contexto e discursocontextualização e ética discursiva
esse método da contextualização do discurso, de voltar-se para uma análise básica de seu enunciado, seu enunciador, seu campo de enunciação é um instrumento básico para desmontagem de discursos positivistas;
discursos positivistas são aqueles em não condiz o que se fala e o que e faz (em termos textuais);
são discursos que se caracterizam por uma disparidade interna, por um descompasso que já foi chamado (quando se acreditava em discursos não-ideológicos) de ideologia;
um discurso político, o nome já diz, caracteriza-se por um discurso que opera num determinado campo representacional;
o discurso político pode operar com campos representacionais seja para reafirmar os pressupostos que o sustentam, seja para revelar os pressupostos que sustentam um universo discursivo;

universalização e etnocentrismo: a ciência e as leis positivas
um sistema vale pelos hereges que produz
a lei positiva é aquela que se dá num vazio contextual, aquela que não define sua contextualidade discursiva (ética discursiva) e política;
por se nutrir do poder instituído, retorna a ele seus serviços (préstimos) chamando a isto justiça, conceito que deixa de ser relacional (e relativo) para tornar-se uma apropriação afirmativa e descontextualizada;
o direito positivo tem lugar numa sociedade específica, está circunscrito a um modelo de conhecimento, delimitado numa certa dinâmica política, determinado por um campo discursivo pré-definido;
escandir seu discurso moralista depende da instituição de um método de análise discursiva que delimite o seu processo de universalização;
a antropologia fornece aqui um procedimento genealógico que possibilita verificar o procediento de ocultação de pressupostos que caracteriza a universalização característica do etnocentrismo do moralismo referido;
a contextualização funciona como esse anti-vírus que detecta posturas etnocênctricas em que se generaiza particularidades culturais ou mesmo sociais;
sabe-se da necessidade desse programa, visto que o discurso em ciências jurídicas é marcado constantemente, dada sua gênese especialmente no brasil, pela dinâmica política que caracteriza o positivismo, com seu universo racionalista, evolucionista, etnocêntrico;
aplicar a contextualização no discurso do direito nos fará verificar o alto indíce de comprometimento político dessa ciência, ocultado justamente num discurso universalizante, voltado aos interesses comuns;
nesse discurso se verá concepções como justiça e verdade sendo tomadas numa perspectiva abstrata, enquanto são utilizadas segundo propósitos políticos bastante concretos;

24 fevereiro 2007

série noturnas 2 antropologia e políticas de comunicação

ética discursiva e políticas de comunicação de povos indígenas

há um debate que tem sido protelado há séculos pela sociedade e o governo brasileiros;
só se trata dele em altos brados, gesto autoritário típico de quem não quer dar o direito de resposta ao interlocutor;
no entanto, o tema tem emplacado e não quer sair do debate, especialmente pelo viés que tem feito a cabeça dos antropólogos das novas gerações, cansados com a antropologia oficial e conservadora tradicional;
o viés simétrico traz à tona (ou de volta) o debate (e a questão) da autonomia política das sociedades indígenas brasileiras;
após algumas décadas de exercício de políticas públicas e de aberto o mercado das ongs e das assessorias que transformaram o quadro dos serviços prestados na área, antes exclusividade do governo, das missões e das universidades;
o debate da antropologia política das últimas décadas no brasil tem proposto conceitualmente a abordagem do problema por meio de uma revisão profunda ou extensa dos métodos e da função da antropologia na política de ação das sociedades indígenas brasileiras;
a questão então em voga é a da autonomia política, ou dos caminhos que levam à autonomia política dos povos indígenas sobre a gestão dos recursos de seus territórios;
pode-se parecer (de fato é) uma postura descompromissada a do governo, a de estabelecer estatuto de terra da união e não investir sequer em demarcações ou não exigir (a postura seria essa) sem tanto controle desse território, não permitindo sua exploração por parte de seus usuários, exigindo em troca a apresentação e cumprimento de um plano de gestão de recursos e exploração da área, de modo que esse processo possa ser gerido pela comunidade, com fundo próprios e assessoria custeada por sua conta;
no entanto, a postura do governo é a de aplicar uma política de exploração para os territórios indígenas bastante avessa àquela a que é submetido pelos grandes pecuaristas e pela indústria do agrobusiness monocultural;
há um sério problema, um verdadeiro abismo, para o qual não se quer olhar, e que deve ser tratado, aliás é condição da antropologia contemporânea trata-lo, que é a ética discursiva que sustenta o diálogo entre governo e sociedade brasileiras e povos indígenas;
série: noturnas 1 ética discursiva: primeiro esboço
o etnocentrismo adquire várias faces conforme o modo como, em cada contexto específico, o homem constitui sua imagem de si próprio;
na sociedade ocidental, pode-se caracterizar, exemplarmente para a antropologia (conforme explicado), um etnocentrismo associado à técnica, principal elemento utilizado pelo ocidental do século dezenove sua identidade e, portanto, sua diferença;
um outro modelo ocidental para construção de subjetividades é o religioso;
esse modelo se constitui numa máquina complexa devido à função política (e histórica) com que opera no processo de colonização da américa;
sua função na era moderna se estende ainda do catolicismo à configuração de uma contra-ética protestante, resgatando valores judaicos, que vão ordenar algumas sociedades numa nova concepção de capitalismo;
entre gregos e romanos, o que se vê é um outro etnocentrismo;
o caráter fundante da política e da palavra nessa sociedade, conduz uma configuração própria de etnocentrismo;
o bárbaros seria aquele que não fala, de fala enrolada, que não fala o idioma oficial;
assim como a diferença tem na palavra um elemento definidor, a identidade entre os cidadãos é igualmente estabelecida pela palavra, pela técnica do falar;

23 fevereiro 2007

a crítica dos pronomes
- nós!? nós quem cara pálida ...
(de minha amiga cláudia para mim,
em minha primeira aula de política na faculdade)

a tarefa constituinte e definidora do estado é produzir homogeneidade em povos heterogêneos por natureza, pela natureza da cultura;
essa é a natureza de seus dispositivos, são dispositivo que atuam na produção de subjetividades, na criação de perfis, padrões, tipos;
aqueles que se encaixam em tais padrões, colaborando para o bom desempenho da máquina, são condecorados, ganham prestígio;
os marginais são o perigo, um risco para a ordem e o bem estar social, o organismo deve afastar de si qualquer possibilidade de (o bem comum) ser colocado a prova;
a partir daqui já se começam a desenhar os personagens de nossa história (atente-se para a polissemia): o nós e o eles;

nós, eles
os processos de produção de nacionalidades, de identidades nacionais, constituíram-se (arrisque-se) n(um)a (das) maior indústria do século vinte;
a articulação estado/poder privado definiu, através do investimento nos mídia e na indústria da opinião, a maior das tecnologias do século vinte e um com o controle das comunicações;
é via comunicações, que os dispositivos da indústria de subjetividades encontram vazão para se constituírem na maior potência do capitalismo global;
quem diria onde dariam aquelas lições de catecismo...
foi o investimento nessa tecnologia que conduziu ao atual espírito globalizador criado pelo mercado mundial, essa espécie de anomalia resultante da era das multinacionais;
já que voltei ao mercado, gostaria de retomar e citar a reflexão profunda dessa semana que se encerra: o brasil entra no mercado mundial não como fornecedor de matéria prima, e sim como comprador de escravos, primeiro produto a ser importado em larga escala para a nação;

é nesse espírito bastante direcionado e objetivo que se vê nascerem, com a facha daquela ingenuidade moralizante dos meios de comunicação, o cinema industrial americano com o nascimento de uma nação;
que infeliz coincidência com o nosso tema: do filme de griffithi e seus altíssimos investimentos (para uma época em que o cinema não era levado a sério) resultaram os estúdios holliwoodianos e a nova indústria de subjetividades;
foram três milhões de espectadores no mundo todo, compondo já o primeiro circuito de distribuição que seria monopolizado e controlado como poucos mercados o foram;
o mercado
me pergunto: será que estou fazendo uma apologia do mercado? pode ser que esteja;
no entanto, me respondo que vejo duas formas de apologia: a primeira responde por uma irresponsabilidade epistêmica, por falta de densidade política, por ser, como diziam os antigos uma mera posição ideológica;
falei, falei e não consegui definir essa primeira forma de apologia do mercado, mas o que eu quero dizer é que é a liberal, que está inserida no projeto moderno por não ter pernas (ou cérebro, ou culhões...) para crítica-la;
portanto, é aquela comprometida, epistemicamente sobretudo, com o projeto moderno e seu programa, por estar circunscrita a ele da mesma forma (não, de maneira similar) que o discurso chamado crítico (frankfurt) do marxismo sociológico;

a intenção, de fato, se insere num processo de apropriação política do conhecimento e de uma crítica de nosso modelo de ciência e de saber, para experimentarmos outras disposições de espírito, num exercício crítico das bases afetivas que movem o (nosso) pensamento tradicional;
no caso, tomo o mercado não como um instrumento passivo do capitalismo, visto de fora do processo de produção, naturalmente, como conseqüência da produção;
procuro uma abordagem pragmática, pois nossos problemas (inclusive o dos seringueiros que estão na floresta, que se tornaram, de uma forma um tanto inconsciente, seus opositores) se associam ao mercado (eu ia dizer; dependem do mercado);
sim, dependem ou se associam, ainda que para exercitar esse tour de force que é o boicote (ovo de colombo) de gandhi, numa saída via ideais ascéticos às astúcias inglesas;

enfim, o exercício ao retomar o mercado é retomar princípios de a parte maldita de bataille e do anti-édipo de deleuze-guattari, visando retomar a economia libidinal;
nas próximas;

19 fevereiro 2007

o ponto de partida em antropologia elaborar um método antropológico para a definição da antropologia, pois sendo a antropologia, por exemplo uma disciplina tão avessa à história, não se poria iniciar com uma história da antropologia;
um método antropológico para se definir a antropologia: há diversas possibilidades, múltiplos caminhos se dispõem, tomemos um;
optou-se por uma entrada que evidencie alguns dos pressupostos que marcam o discurso antropológico em uma variedade de tempos e lugares;
uma arqueologia que evidencie esses pressupostos pode basear-se num procedimento simples;
elaborar-se uma contextualização do campo discursivo no qual é inventada a antropologia como ciência stritu sensu;
como se constrói a concepção de antropologia que se tem hoje, pode-se construir a concepção de outros tempos: isso não é história, talvez genealogia;
a partir da concepção construtivista de conhecimento, nossa perspectiva será estabelecida como contraponto à concepção tradicional de conhecimento, que concebe o conhecimento como uma técnica de descrição da realidade por meio do instrumental verbal de que dispõe a ciência;
a ciência tradicional opera por constantes, na verificação de verdades pré-estabelecidas no universo sensível, ou na confirmação de hipóteses verificáveis na realidade;
segundo o construtivismo o conhecimento não se trata de uma região fixa, a ser observada em uma pintura ou através de uma janela, e sim como um campo em que, a cada vez que se o penetra, pode-se interferir nele, modifica-lo, construir sentido;
aliás, nessa chave hermenêutica o conhecimento só se justifica como processo, enquanto processo;
temos de um lado o conhecimento tradicional, afirmando a distinção ontológica entre conhecimento e realidade, e de outro o construtivismo, que procura elaborar métodos em que tais fronteiras se diluam e as esferas se interponham;
o discurso criando e sendo criado pela realidade e vice-versa;
a dobra discursiva, quando a antropologia se volta para sua natureza discursiva, deixando seus pseudo-objetos, estabelecidos no plano de transcendência do positivismo, é que ganha uma constituição política;
no momento em que se volta para seus pressupostos, a antropologia se revela um instrumento político-epistêmico que revela suas propriedades originais, a propriedades discursivas herdadas do discurso científico que a origina;
para operar esse curto circuito epistêmico-político que é a volta da antropologia sobre seus próprios pressupostos, a genealogia e a discursividade (que já se esboçam em nietzsche) tem a função de dissipar as fronteiras entre conhecimento e conhecido;
essa operação epistêmica, uma fusão entre mundo do conhecimento e mundo conhecido, tem por conseqüência uma redefinição do caráter político do saber na modernidade;
começa-se a desmontar então a velha noção de verdade científica que remete à metafísica do discurso religioso que configura sua matriz;
ainda que carregue os pressupostos do campo discursivo, da episteme, em que é criada, a antropologia se constitui apontando na direção de um outro modelo de produção de conhecimento;
o lugar em que se situa, na relação entre etnias, povos, e seus pensamentos, sistemas simbólicos, culturas, sociedades, técnicas e, especialmente, políticas, já a lança à margem do campo de circunscrição da ciência tradicional, voltada para o centro do pensamento ocidental;
a disciplina define seu campo como o espaço, a zona de contato do pensamento ocidental, o seu limite, a zona da indiscernibilidade das culturas e seus pensamentos característicos;
enquanto a ciência têm por referência esse centro (etnocentrismo), a dinâmica própria à antropologia é a de voltar-se para a margem desse pensamento, para seus limites e zonas de contato com outros pensamentos;
não demoraria o momento em que a antropologia encontraria sua especificidade metodológica e epistemológica que faria dela uma das ovelhas negras da ciência positivista;

18 fevereiro 2007

princípios antropológicos 2 a antropologia como ponto de virada ou quando o eu é o outro
todo esse esforço de reconstrução do contexto histórico da antropologia serve para nos preparar para o ponto de virada, a partir do qual o etnocentrismo será criticado e exorcisado do discurso antropológico;
devido ao seu caráter constitutivo, fazer a separação ou pelo menos a crítica do etnocentrismo no discurso antropológico não será tarefa simples ou fácil;
o enfoque que daremos a essa abordagem da ciência, no caso da antropologia, será o caráter político que define a gênese dos discursos;
é também por aqui que se chegará a uma crítica do discurso das ciências jurídicas, constituindo-se, assim, de fato, uma antropologia do direito e, que sabe até, uma tal antropologia jurídica, como quer a promiscuidade conceitual dos fazedores de currículos;

além disso, gostaria de tomar o que há de paradigmático na noção de contexto redefinida aqui; essa concepção perdeu seu caráter factual, histórico;
foi transposta para o território da discursividade, tem agora a especificidade discursiva de construção política, resultado da crítica dessa representação ingênua pressuposta numa concepção factual;
de forma simples, me parece que o processo de contextualização constitui um modelo de produção de conhecimento;
isso nos interessa, por esse modelo de produção de conhecimento por contextualização (chamemo-lo provisória e simplesmente dessa forma) constituir um contraponto ao que nos interessa enfocar no modelo de produção de conhecimento do direito, o positivismo, que consiste num aperfeiçoamento do modelo etnocêntrico desenhado anteriormente, modelo comprometido politicamente com o contexto civilizatório e etnocêntrico do programa moderno;

o modelo de conhecimento, o campo em que operam a ciências jurídicas se caracterizam mais por textualização que por contextualização, ou seja, por criar uma dinâmica textual que não revela seus pressupostos, e sim, ao invés disso, os oculta;

duas definições de antropologia
duas definições de antropologia foram definidas em sala; uma que contrapõe a civilização aos povos indígenas ou primitivos e outra que propõe que a disciplina estuda a relação entre as etnias;
essas duas concepções de antropologia definem o nosso percurso; a passagem de uma à outra concepção marcará o seu ponto de virada;
numa, pode-se ver esboçado o etnocentrismo que marca o civilizado como ponto de referência discursivo;
a noção de centro é literal: de um lado está a ciência, ou seja, a técnica (de observação e descrição, de estudo, de produção de conhecimento, de leis, de civilidade, de território, de economia, de mercados) dos civilizados, a antropologia, de outro estão os primitivos;
quando se passa a problematizar a relação, a tarefa lógica é mais complexa: o centro deixa, relativamente, de ser fixo, perde sua rigidez, adquire variáveis;

tecnologia e evolucionismo
ponto levantado por augusto em sala: o problema da água;
o modelo de desenvolvimento ocidental de âmbito global está ameaçando o suprimento de água do planeta (quem é o planeta, quem tem direito à água hoje...etc);
em que medida ainda faz sentido pensar na sociedade ocidental como a mais evoluída do planeta? que critérios se toma para elaborar tal julgamento?
certamente não são aqueles da convenção da biodiversidade (preservação, sustentabilidade e divisão de renda);
é a partir daí que nossa articulação inicial entre antropologia e etnocentrismo passa a fazer sentido, a partir de uma crítica da concepção evolucionista que se confunde inclusive com a tecnologia, tamanha a força da sua pressuposição no discurso tecnológico;
é válido, portanto, conduzir uma crítica ao binômio etnocentrismo/evolucionismo para chegar a uma redefinição de evolução técnica, de superioridade técnica, para revê(la)r os critérios implícitos numa tal concepção de evolução;

antropologia e direito
a partir desse problema, pode-se voltar o olhar para o direito, partir em direção a uma crítica do direito positivo;
qual a base política desse direito? quem ele representa? os direitos sociais servem, de fato, para garantir sua execução ou funcionam mais como obstáculo para que ela se realize?
no entanto, não nos empolguemos; não temos a mínima intenção de responder a tais questionamentos;
não é função da antropologia dar respostas a tais questões;
sua função é definir métodos que conduzam uma melhor colocação do problema, uma problematização que se sustente;
nossa questão, portanto, será de que forma desmontar o discurso do direito positivo, desse direito comprometido com o poder instituído, cujo discurso oculta seus pressupostos, mascara seus aliados;
princípios antropológicos antropologia e etnocentrismo
o problema inicial, que servirá de ponto de partida, será a construção dos conceitos de antropologia e etnocentrismo;
proponho, de saída, a abordagem desses dois conceitos por ter em vista um ponto de virada na antropologia;
esse ponto de virada modifica substancialmente a definição de antropologia, proposta como ponto de partida;
essa proposta inicial de definição caracteriza a antropologia a partir de dados referentes ao seu contexto;
como se define a antropologia no momento histórico em que é criada, como se caracteriza esse momento histórico e quais as características dos inventores da antropologia;

contextualizando o texto
é dessa forma que se caracteriza o contexto em que surge a antropologia: século dezenove, revoluções industriais e científicas, colonizações etc;
a antropologia surge na europa como um segmento da tradição iluminista;

de tendência humanista, civilizatória, messiânica, revolucionária, o iluminismo não demora a se tornar instrumento conservador da civilização burguesa;

o contexto de invenção da antropologia influencia muito sua definição;
pode-se imaginar, para o período referido, uma definição de antropologia: as técnicas de estudo de povos primitivos;

evolucionismo: a antropologia como estudo das origens
no contexto de invenção, de criação da antropologia stritu sensu, vive-se a era plena de um cientificismo europeu que conduz a um etnocentrismo exacerbado;
todo o projeto moderno, na medida em que constrói seu discurso apoiado na evolução técnica, estabelecendo aliança com a ordem política que a sustenta, se define nesse contexto;
é o projeto moderno que cria as condições para o mercado global;

e fez-se a técnica
tal era o espírito europeu do momento: a imagem que fazia (e faz muita vez) de si era a da civilização mais evoluída do planeta, enquanto os demais povos primitivos deveriam se submeter à colonização “para o próprio bem de sua evolução, progresso e futuro”;
é baseado nesse discurso político que as técnicas são universalizadas, naturalizadas, como já o fora a primeira técnica de colonização: a religião;
com essa universalização, a técnica não é vista (pela sociedade européia) como um produto de sua cultura (como já o fizera no campo religioso, ao condenar preconceituosa e autoritariamente as místicas de todos os povos do mundo);
A técnica é encarada, nos moldes do discurso político colonialista, como uma conquista da “civilização”;

é aqui que nos deparamos com um problema interessante;
se a ciência é base do espírito tecnicista que inspira esse discurso civilizatório, ela também constitui uma auto-imagem politicamente comprometida com tal programa;
esse programa foi (e é) chamado de modernidade;
portanto, o que ocorre é uma composição: o contexto técnico da revolução industrial define a ciência (antropologia), ao mesmo tempo em que a ciência projeta e define a técnica;
a antropologia é um produto desse discurso moderno.

a antropologia como técnica
a concepção de técnica parece melhor que qualquer outra fazer a articulação entre as noções iniciais que devem guiar nossos estudos de antropologia jurídica, que são as concepções de antropologia e etnocentrismo;
essa noção (de técnica) é especialmente interessante pelo fato de nos referirmos tanto ao cientificismo próprio da revolução industrial do século dezenove, contexto da antropologia, como à própria antropologia como técnica;
no caso, como é definida então, uma técnica de estudo dos povos primitivos;
esse duplo sentido em que corre o conceito é que nos conduzirá ao problema político fundamental da antropologia;

as origens da antropologia
a antropologia remete à imagem de um estudo das origens da humanidade;
não se pode deixar passar tal implicação: se com o evolucionismo típico do cientificismo do dezenove, o tema da antropologia se caracteriza como a(s) origem(ns) do homem (tema bastante místico ao gosto do evolucionismo que reinventa o espírito dogmático, antes tão próprio à religião), o que se tomará como ponto de partida são as origens da antropologia;
certo que se faz aqui uso de licença poética para uso do termo problemático;
origem é uma outra palavra para genealogia ou, para simplificar nosso estudo, contexto;
toma-se assim, como ponto de partida, a inserção da antropologia em seu contexto histórico e, sobretudo, político;

fatos discursivos
desse contexto histórico e político do século dezenove, toma-se a técnica por tema chave da caracterização;
a revolução técnica preparada pelo espírito iluminista e culminante na revolução industrial, transforma não só a sociedade ocidental, com sua maneira de conceber o homem, de forma absoluta, mas especialmente em relação às outras sociedades;
é no contexto dessas transformações, que têm a técnica em seu eixo, que o espírito etnocêntrico encontra seu apogeu;
na ciência, o evolucionismo construirá provas científicas da superioridade do homem branco europeu para dominar e matar os outros povos, estendendo seus domínios sobre os territórios, as riquezas e as matérias primas desses povos sem estado, sem economia, sem história, sem escrita;
seu atraso justifica o messianismo que irá inspirar o neocolonialismo do projeto moderno;
etnocentrismo e evolucionismo são os traços marcantes que a antropologia herda de sua gênese política e epistêmica;
é essa gênese da ciência antropológica stritu sensu, traçada a partir do século dezenove como contexto; seu objetivo é revelar os pressupostos que se ocultam no discurso naturalizante e absolutizante ainda hoje carregado por essa ‘ciência’;
o etnocentrismo e o ponto de virada da antropologiaetnocentrismo é uma atitude na qual a visão ou avaliação de um grupo sempre estaria sendo baseado nos valores adotados pelo seu grupo, como referência, como padrão de valor; trata-se de uma atitude discriminatória e preconceituosa;
basicamente, encontramos em tal posicionamento um grupo étnico sendo considerado como superior a outro;

a antropologia possui um ponto de virada;
esse ponto de virada será o enfoque da nossa disciplina;
de ciência humana que estudava os selvagens ou os primitivos, passa à ciência que estuda o outro, que estuda as relações entre grupos étnicos;
essa mudança se define no século vinte, com a revisão dos preconceitos evolucionistas nas ciências humanas;
o evolucionismo é um modelo de construção de conhecimento próprio do século dezenove, tomado das ciências biológicas e adaptado às ciências humanas;
o evolucionismo analisa a sociedade em termos de progresso e evolução linear no tempo;
esse evolucionismo nas ciências humanas é conhecido como positivismo;
outra característica marcante do positivismo é a idéia da neutralidade científica, a objetividade;
segundo essa concepção, o conhecimento científico se caracteriza pela neutralidade, por seu ponto de vista imparcial;

a partir desse ponto de virada a antropologia faz um esforço para se desvencilhar de seu preconceitos etnocêntricos, que têm a sociedade ocidental em seu centro;
uma das maneiras de fazer isto é reconhecer que que a relação entre os grupos é tomada sempre a partir das posições políticas que eles ocupam, por exemplo colonizador e colonizado;
toda relação é uma relação política, mesmo e principalmente uma relação de conhecimento;

17 fevereiro 2007

a nova convenção da biodiversidade 2 assim, como ficariam os princípios a convenção da biodiversidade na chave de uma contextualização discursiva que revele seus pressupostos implícitos pelo posicionamento político que implica tal discurso?
encaminha-se então esta exposição dos três princípios universais (e universalizados) da convenção da biodiversidade revisitados nesse (velho) método (genealógico) da contextualização discursiva;
são três os pontos: conservação, sustentabilidade e biopirataria;
o primeiro imperativo é conservar, o tu deves conservar ou melhor ainda conservarás, para lembrar moisés;
justifica-se pelo alto poder de destruição conquistado pelo homem para submeter os demais;
o segundo, o imperativo da sustentabilidade, é o frente a frente do modernismo ocidental que vê em sua tecnologia o seu diferenciante em relação aos povos “sem tecnologia”;
tecnologia não se dá no absoluto, ela é relativa e não pode ser tomada descontextualizada do sistema capitalista que a desenvolve e justifica;
o resultado do nosso endeusamento da tecnologia, parte do programa da modernidade, são as catástrofes que sociais e ambientais que começam a nos chamar a atenção para entendermos que não somos tão evoluídos assim, que não somos superiores ao outros povos que não criaram o mercado global, que o juízo da tecnologia não é absoluto, e sim relativo;
dessa forma, o que é tomado por grande evolução tecnológica, por servir ao mercado capitalista, pode tornar-se (como se tem tornado) um processo menos glorioso;
o não-índio precisa reconhecer a grosseria de suas técnicas de exploração da terra, movidas mais pela produção de dinheiro que pelo bem estar global, comparadas às técnicas de convívio com a natureza elaboradas pelos povos indígenas (incluem-se aqui os regimes políticos desses povos);
o terceiro, esse é o mais difícil de se trabalhar, pois trata da legalização dos contratos sobre divisão da renda (e do carma sem dúvida) gerada pelos dois primeiros tópicos;

mais que a fragmentação, a descontextualização positivista gera discursos que são verdadeiras bombas tamanho o seu perigo;
como são armas químicas, o perigo está mais nos campos em que são lançados, no caso esta bomba será lançada no meio da floresta, entre índios;
vislumbra-se de longe, no cheiro, a máquina discursiva da metafísica jesuíta que se instala aqui há cinco séculos;
e há quem (uma extensa linhagem de antropólogos) estabeleça paralelos entre a metafísica cristã e a mística indígena;
por isso, o trabalho discursivo do antropólogo se faz necessário nas interpretações e leituras que possam desativar tais textos que parecem despretenciosos, mas trazem em seus pressupostos cargas explosivas de alto calibre;

15 fevereiro 2007

ciência nômade
opõe-se à ciência régia, enquanto esta se caracteriza por teoremas e constantes, aquela se problematiza por fluxos e suas variações contingentes, num esforço de livrar o pensamento de seus princípios de sedentaridade definidos pelo estado;
sociedades contra o estado
o que nos interessa é a preposição contra, mais do que estado, é ela que define o caráter nômade dessa ciência;
clastres vai a um problema central da antropologia ao problematizar seu caráter paradoxal: saber originado do grande divisor e meio possível de supera-lo;
a saída proposta pelo autor é pela linha de fuga discursiva: de um ‘discurso sobre’ para um ‘diálogo com’;
sobre o grande divisor é importante marcar a redefinição radical que deverá sofrer a partir de uma crítica extensa da noção de poder no pensamento político das últimas décadas;
o grande divisor da antropologia (política) retomado por clastres é o da difícil (e, por vezes, genérica) distinção entre sociedades com estados e sociedades sem estado, a qual remete à gênese da disciplina;
os dois modelos são caracterizados e isolados por maine, no século dezenove, através das noções de status e contrato;
os modelos políticos são retomados pela antropologia inglesa do século vinte e problematizados com a noção de linhagens segmentares que descentra a oposição e redefine e especifica a noção de estado;
de aparelho de organização específica com vínculos territoriais, a uma concepção mais ampla de modelo jurídico das relações de poder;
volta e meia e cá estamos falando de ecologia e educação ambiental para os índios da floresta (pelo menos, dessa vez não nos pedem para falar daquela ética, a do padre);
o discurso ecológico contextualizado (sem descer do céu, absolutizado, como todo discurso de biólogo) remete a outra dimensão: quer se generalizar como se toda a humanidade fosse responsável (o que de fato é) pelo poder de destruição concedido a uma parte sua;
esse avassalador poder de destruição, no caso, de auto-destruição, relaciona-se à tecnologia (!!!)
pára tudo !!! será que eles vão entender o que é tecnologia?
talvez melhor do que nós, que recebemos a tecnologia em doses palatáveis, eles, que a receberam em forma de chumbo, balas, pólvora, vão entender, mas para facilitar vamos colocar entre parênteses (armas, motores, carros, aviões, remédios), prossegue;
dessa forma o discurso ecológico que soa à carta universal dos direitos humanos (com direito a clarins ao fundo), contextualizado, perde esse glamour de voz média universal e passa a ter uma origem certa, determinada;
a partir de revelada essa origem, dificilmente esse discurso poderá ser assumido universalmente, como se pretendia inicialmente com os pomposos títulos que a apresentavam (convenção da biodiversidade);
e se não pode ser assumido universalmente, imagine-se o paradoxo de ser assumido por grupos indígenas;
assim, como se encaminha nossa exposição dos princípios universais (e universalizados) da convenção da biodiversidade;
são três os pontos: conservação, sustentabilidade e biopirataria;
o primeiro justifica-se pelo alto poder de destruição conquistado pelo homem para submeter os demais;
o segundo, que o não-índio precisa reconhecer a grosseria de suas técnicas de exploração da terra, movidas mais pela produção de dinheiro que pelo bem estar global, comparadas às técnicas de convívio com a natureza elaboradas pelos povos indígenas (incluem-se aqui os regimes políticos desses povos);
o terceiro, esse é o mais difícil de se trabalhar, pois trata da legalização dos contratos sobre divisão da renda gerada pelos dois primeiros tópicos;

mais que a fragmentação, a descontextualização positivista gera discursos que são verdadeiras bombas tamanho o seu perigo;
como são armas químicas, o perigo está mais nos campos em que são lançados, no caso esta bomba será lançada no meio da floresta, entre índios;
vislumbra-se de longe, no cheiro, a máquina discursiva da metafísica jesuíta que se instala aqui há cinco séculos;
e há quem (uma extensa linhagem de antropólogos) estabeleça paralelos entre a metafísica cristã e a mística indígena;
por isso, o trabalho discursivo do antropólogo se faz necessário nas interpretações e leituras que possam desativar tais textos que parecem despretenciosos, mas trazem em seus pressupostos cargas explosivas de alto calibre;

14 fevereiro 2007

tirado de um jornal velho
o rebanho bovino acreano é o que mais cresce na amazônia;
hoje existem mais de 2 milhões de cabeças de gado no acre;
de acordo com o ibge, nos últimos 30 anos as pastagens do estado cresceram 2.000% e as cabeças de gado, 2.700%;
hoje, mais de 80% das áreas desmatadas estão ocupadas por pasto;
o presidente da federação da agricultura e pecuária do acre, assuero doca veronez, considera que a economia do estado tende para a expansão cada vez maior das fronteiras da pecuária;
é esse o caminho do agrobusiness milionário, a monocultura e o gado, em detrimento da agricultura familiar, de variedade de produtos e divisão de renda;
para ele bastaria comparar as riquezas geradas pela venda de produtos acreanos para outros estados: 77,2% das receitas é proveniente da pecuária bovina, enquanto 21,4% vem do extrativismo, lê-se manejo florestal madeireiro ou venda de madeira, e apenas 1,3% da agricultura;

comentário
tantos anos se passaram e, numa história econômica tão particular, não se percebeu ainda a força do mercado:
que o mercado desterritorializa a produção no capitalismo;
que a produção é definida pelo mercado e não o mercado pela produção;
que o capitalismo, principalmente o do marketing simbólico via media, se constitui da criação de consumidores ao mesmo tempo que de bens de consumo;
que (como se constata na experiência recente do acre, que vai de expoacre à minissérie da florestania) o mercado de subjetividades, especialidade em um país que constantemente precisa de novas faces de acordo com seus regimes políticos e suas leis de segurança, resulta de uma fusão entre duas máquinas: a máquina da história e a máquina do jornalismo;

a revolução liberal
a revolução acreana pouco tem a ver com ideais patrióticos ou coisas do gênero (épico);
como é o caso de muitas revoluções, foi movida por interesses bem particulares;
o mercado de borracha e sua estrutura política patrocinou a revolução;

ciclos
afinal de contas, os ciclos da borracha que parecem suceder-se como estações do ano, não passaram de articulações de um mercado internacional em formação;
foi o mercado da borracha que se utilizou (e se utiliza do brasil) do acre e em troca de bagatelas, instaurou a guerra da borracha, transferindo desde há muito uma mentalidade militaresca para a conquista da selva que deveria, parece, ser feita à bala;
os seringueiros e a revolução
a tal compaixão cristã, que faz de nós colecionadores do ser, impedindo muita vez o devir, associada a crenças sociológicas numa consciência histórica (qual história, ou qual contra-história?) definiu uma imagem histórica, se se pode dizer assim, do extrativista (o seringueiro) bastante problemática em seus pressupostos;
os seringueiros já estavam extintos, o mercado os havia extinto, recupera-los era recuperar um sistema de servidão a eles associado;
todo o seu mito de origem era problemático desde a guerra da borracha às frentes de expansão;
de dependentes foram transformados em autônomos (de quem é esse projeto?);
não me diga que foram eles que decidiram por si só, entre eles se auto-constituírem em reservas, na minha experiência de platéia em políticas públicas sei o que significa a frase: “foram eles que decidiram”;
isso que ainda não toquei no problema da concepção de estado que sustenta esse projeto sustentável;
porque é o estado, e que se doa, o federal, que desadministra a autonomia extrativista, com suas instituições ineficientes, burocráticas;
a não ser que se pense que essas sociedades possam dar jeito no estado, por que o estado...,
e agora o mercado quer o boi, muitos já cederam (traidores do movimento...)

a história demonstrara o poder de fogo do mercado, que é o mercado que define a produção e não a produção que define o mercado, certo que o mercado se reinventa, mas é o mesmo que tem sido disputado há séculos por esses inventores do mercado global;

o que me chama a atenção é que se toma a extinção do seringueiro pelo mercado da borracha como uma injustiça conforme aquelas ocorridas em inúmero momentos da história, quando o mercado descartou sua mão de obra;

como lidar com o mercado, como lidar com a administração do pasto, do agrobusiness que veio nesse mesmo projeto político...;

reflexões sobre a última reunião do núcleo de antropologias e florestas apresentação
conceitos que chamam a atenção a serem aprofundados cultura e sociedade, contrapontos da natureza;
um ponto: essas “sociedades particulares” (sempre parece se ter como eixo gravitacional político, ou melhor valorativo, os aglomerados urbanos) tem uma relação constitutiva com a natureza;
a construção histórica (talvez a luta pela sobrevivência ameaçada por estado, sociedade e mercado) é um viés de abordagem para a concepção dessas comunidades, pois a história foi um instrumento importante na sua constituição;
outros pontos abordados foram o contraponto rural/urbano, a organização em produção familiar, a floresta como espaço específico;
o tradicional é um problema a ser desenvolvido, aparece de formas diversas em diversas abordagens;
é elemento da política ambiental, contrapõe características internas e externas;

objetivos
o que será do futuro x o que será do presente;
o problema inicial é uma reflexão sobre a noção de desenvolvimento (o mito do desenvolvimento) através de uma reflexão crítica do desenvolvimento;
alguns conceitos que atravessam essa abordagem são: direitos, qualidade de vida, sustentabilidade;
retomar a variedade de concepções de desenvolvimento, problematizando suas especificidades: concepções de governos, comunidades, pesquisadores, ongs etc;
lembre-se que a noção de desenvolvimento traz em seu bojo a dinâmica de progresso (ordem e progresso), linearidade, consecução, fim etc;
o cuidado com os conceitos: operar com eles como construções e não pega-los como se já estivessem prontos, o perigo das unanimidades;
o modelo sócio-histórico do contraponto dialético e seus perigos: construção de uma subjetividade seringueira nos moldes de uma nova revolução acreana: seringueiros versus capitalismo (patrões, pecuária, grileiros, paulistas, fazendeiros etc);
parece que a noção de desenvolvimento implícita nessa história leva longe;
a tragédia dos comuns: a perspectiva liberal do globalismo sobre as últimas sociedades que resistem (o que será resistir?) ao mercado global;
problema antigo (mas nem tanto) no discurso do brasil: entre liberais e democratas vamos nos adaptando no caminhão de melancias do capitalismo global;
o brasil se insere, não quando abastecemos o mercado e a produção mundial com matéria prima ou produtos primários, e sim (de novo o mercado) quando criamos um mercado de escravos, quando nos tornamos importadores de escravos;
as abordagens sociológicas a serem feitas do problema do extrativismo parecem bastante interessantes na retomada de problemas como o autoritarismo na constituição política, a constituição dos movimentos sociais e sua marginalidade na sociedade brasileira entre outros temas já clássicos da sociologia brasileira;
sugiro que se faça uma retomada da antropologia brasileira e da antropologia do brasil, percorrendo temas caros à essas sociologias: o conflito público/privado, o autoritarismo da sociedade escravocrata, a organização patriarcal, o patrimonialismo, o conflito entre discursos liberal e democrático na constituição de um estado, movimentos populares como caso de polícia e de política etc;

linhas de pesquisa
a primeira linha de pesquisa problematiza a noção de natureza (conceito, referente, contrapontos);
fala-se em crise do extrativismo tradicional e cooperação internacional na constituição das resex: pontos interessantes;

na abordagem dessa primeira linha de pesquisa surge o problema da definição metodológica que deve conduzir o tema e mesmo o horizonte hermenêutico do núcleo;
o perspectivismo parece ser uma condução interessante, mas parece sustentar pressupostos idealistas que parecem não fazer muito sentido diante dos problemas factuais, empíricos e reais;
diante desse quadro, o melhor a se fazer parece ser retomar a velha sociologia e a etnografia objetiva para dar conta dos velhos problemas;

porém...
um ponto a ser problematizado é o da contraposição entre universo simbólico e mundo empírico;
essa contraposição só se faz no sentido de entender a articulação dessas duas instâncias, não existem como dimensões separadas, o mundo simbólico não é uma construção a partir do mundo empírico, e sim uma construção desse mundo;
borges e a literatura fantástica, que tematizam problemas como a percepção, a memória, o virtual, e principalmente a criação literária, a chamada paraliteratura, exploram o que há de insólito nesse mundo, ou melhor, nesses mundos, ou melhor entre esses mundos;
no entanto, esse é um buraco sem fundo, fiquemos com a história que é uma chave clássica para problematizar o universo das representações;
a história como um intensificador de poder, pode-se partir da frase de foucault para e pensar a natureza da história;
separando-se, a partir daí, o discurso histórico da realidade (objetiva) dos fatos (aquela do positivismo), pode-se liberar a história (o discurso histórico) para intervir na (construir a) realidade dos fatos;
portanto, separa-se as duas instâncias (para não confundi-las) para se compreender a natureza de cada uma, sua materialidade epistêmica, e voltar a coloca-las em contato, utiliza-las;
entendendo-se a materialidade e o uso das instâncias, pode-se tornar a confundi-las, a sobrepô-las, agora com outro resultado, numa outra direção;
se antes (parecia que) o discurso histórico era determinado pelos fatos, nessa outra sobreposição vemos os fatos serem determinados pelo discurso histórico;
(contribuição de natália: relata o enredo do filme o príncipe, de ugo giorgeti;)

é algo bastante próximo disso que tenho tentado definir como a natureza/constituição política do discurso, criando uma noção de política que opera na chave (dessa crítica) da representação;
não é politizar a representação, mas definir o caráter cultural/constitutivo do político, o político como construção política;
uma abordagem construtivista do político remete à própria gênese do conceito = político = polis;

numa análise que tenho dado curso em minhas reflexões, a aliança entre discurso histórico e discurso jornalístico, ou seja a constituição de uma elite acreana que atua nas comunicações, é resultado da construção histórica do estado a partir dos movimento social dos seringueiros;

13 fevereiro 2007

a afecção indica muito mais a natureza do corpo afetado do que a natureza do corpo afetanteestá certo que radicalizei alguns posts atrás ao referir-me à concepção bovina de realidade dos comedores de boi, ao referir-me à consciência das massas e sua natureza manipulante;
parece que uma fórmula de spinoza pode encaminhar uma melhor definição daquilo que tentava protestar;
o processo de afecção revela mais a natureza do afetado que do afetante;
e no entanto nossa concepção compassiva tradicional parece centrar fogo e foco no afetante, como se este fosse o responsável pelo processo, eximindo todo um processo que dá sentido à servidão voluntária, por estar apoiado numa concepção de consciência das massas exploradas;
é fundamental atentar para essa natureza do afetado que conduzirá à crítica nietzscheana do ressentido (ressentimento);
essas considerações nos conduzirão para retomar o tema desenvolvido nos últimos dias sobre a noção de utilidade e utilização nos estudos de subjetivação e de constituição de processos de inteligência coletiva (distintos de processos de despotismo ou de domínio via casa grande senzala (confusão público/privado, pessoal/impessoal);
em terra de pirata, biopirata ataca caro enio
comunicei a questão com nosso socio amilton:
nos moldes do que você está procurando, recomendaria o caso do murmuru, patenteado pela tawaya;
é um processo que está em andamento e possui as diversas etapas que o interessam numa pesquisa: o contato com a comunidade, a parceria, o processo de pesquisa junto à comunidade, a chegada ao produto a ser explorado, a expropriação do produto com a patente do murmuru, o processo, a suspensão da patente;
a entrevista com os ashaninka que participaram do processo pode ser bastante interessante, os ashaninka são bastante articulados e podem fornecer uma leitura do caso com reflexões sobre o fenômeno;
os ashaninka é um dos grupos mais articulados no combate à biopirataria;
devido ao seu conjunto de atividades, são facilmente encontrados em rio branco;
o dono da patente pode também ser facilmente encontrado para uma entrevista;
como estudo de caso que possua claramente as etapas da biopirataria o estudo do murmuru, acredito que seja o mais completo;
veja a reportagem do final de 2006 no site sobre o caso;
Abraço,
Michael e Amilton
o contexto da antropologiacontexto não é história: o problema da genealogia
a antropologia é uma disciplina que, dada sua peculiaridade não só metodológica como, principalmente, epistemológica, solicita que se comece seu estudo pelo contexto;
uma disciplina, para a antropologia, uma disciplina, assim, como um texto ou mesmo um conceito, não possuem um sentido que não seja contextualizado;
assim, para a antropologia não se pensa em termos de sentido em si, ou sentido universal (absoluto);
o que se quer dizer que “não se pensa nesses termos”, se o que dizemos que a disciplina reprova é a característica constitutiva de nosso pensamento;
contextualizando, o que se quer dizer com “isto” (que não se pensa sem contexto), equivale a dizer que esta postura é um pressuposto de uma política discursiva para legitimar um pensamento, deslegitimando outro;
ao se assumir o caráter político de tal atitude, implícita e por vezes inconsciente (palavra perigosa) em nossa ciência e em noss@s cientistas, em seus discursos objetivos, essa postura passa a constituir o discurso de outra forma;
abole-se toda uma dimensão transcendente que sustenta o primeiro discurso que se apóia numa dimensão pré-conceitual (brincadeira...), ou melhor, extra-conceitual;

11 fevereiro 2007

humano, demasiado humanoo problema político da produção de conhecimento
uma das conquistas dos movimentos sociais na área de educação não está na conquista do ensino, na democratização da educação;
está, talvez, numa contra-democratização da educação, ou num processo de afirmação de saberes marginalizados numa sociedade que se homogeneizou, sob a etiqueta de nação, de maneira bastante autoritária, constituindo o que chamamos de cultura;
produzir educação, produzir educadores populares, por fora dos meios universitários formadores de elites, foi um legado importante da educação popular;
o que importa isso aqui: essa educação se elabora no âmbito do construtivismo, da produção de conhecimento, indo de frente e quebrando com o paradigma positivista do conhecimento objetivista, descritivo, que elabora uma imagem universal do saber a partir de noções como deus e natureza;
diferentemente, uma educação que se orienta pelo social (não-positivista) e não nessas concepções pré-conceituais, mas numa perspectiva do social como construção humana, tomando essa constituição como paradigma;
esse movimento participa de uma ruptura com os modelos de socialização do século dezenove, que vem no embalo de (ou dá embalo a) toda uma revisão epistemológica, na natureza do conhecimento, seus princípios e procedimentos;
as mudanças no pensamento sociológico do século dezenove preparam o campo para a concepção desses espaços sociais em que ocorrerão tais transformações na forma de conceber a educação;
a sociologia de marx, que coloca a luta de classes na história de hegel, dá um enfoque político outro à sociologia positivista;
a partir daí, a educação passa a instrumento de luta de determinada classe, questão de direito a ser garantida por essa classe, deixando de ser considerada, segundo o universo positivista, como um princípio absoluto de descrição de um universo igualmente absoluto;
com isso, destrona-se não somente a perspectiva de uma classe, ou de grupos sociais dominantes, o que se põe abaixo com isso é um modelo de produção de conhecimento, uma matriz ou paradigma que remete ás bases místicas de sua formação;
esse modelo que é posto abaixo é o de uma realidade homogênea que dá sentido à ciência universal e a seu método;

é nessa dinâmica histórico-sociológica que se insere o processo de definição de uma educação indígena, com os inúmeros sentidos que esta pode ter;
ah! então sociologia e antropologia não se diferem tanto assim;
não é bem assim, a sociologia fornece uma abertura que permite a desconstrução da fortaleza cultural do etnocentrismo europeu via epistemologia;
no entanto, o fenômeno que se passa na antropologia redefine o problema como um problema de classes, transpondo-o para um problema de pensamentos, um problema de cunho epistemológico, ou melhor, filosófico;
o viés econômico, que universaliza o capitalismo e seu mercado, propõe uma divisão social de classes, dá à sociedade uma baliza nas diferenças de classe;
para a antropologia, as diferenças culturais não podem se reduzir a diferenças de classe, como muito se pensou numa certa antropologia brasileira;
a oposição, que se desdobra em dualidades, do conflito de classes deixa de fazer tanto sentido ao ser pensada da perspectiva antropológica de uma multiplicidade de recortes da realidade, assim como do status, tanto dessa multiplicidade, como desses recortes;
mas porque criticar marx e a sociologia se nós nem cumprimos com requisitos básicos de suas concepções ?
porque criticar marx se nós ainda não cumprimos sua agenda social que pressupõe a luta pela equidade de classes sociais ?

talvez nessa questão (na forma como ela foi colocada) resida a chave de sua resposta;
a concepção de tempo e de história pressupostos no pensamento marxista constituem um problema central no aperfeiçoamento da antropologia;
como se concebe, de que forma se constroem culturalmente categorias antes naturalizadas em nosso pensamento, tais como tempo, natureza e história ?
assim, a antropologia vai atacar os pressupostos que predispõem o pensamento ocidental e dificultam a abordagem (e desconstrução) de outros pensamentos, bem como sua própria abordagem (desse pensamento sobre si), visto que ele mesmo (o pensamento) se circunscreve em suas categorias, as quais universalizam propriedades a ele inerentes;
a amazonlink recebeu, esta semana, lideranças indígenas da bolívia, jaime e suas companheiras, que estão organizando o encontro trinacional de povos indígenas, a partir do apoio do map central na organização minimap indígena;
iniciou-se com uma apresentação, por parte da amazonlink, da página do map e seus recursos na organização dos grupos indígenas que integram o map;
em seguida, os dirigentes apresentaram as propostas e encaminhamento para o projeto do encontro que esperam ser em rio branco;
têm apoio da universidade federal do acre, principalmente o map e seu grupo de articulação, onde esperam encontrar apoio logístico necessário ao evento;
depois nos sentamos (marta, silvana e eu) para rever o texto do manual;
pautei que por mais que pareça abstrata e filosófica minha colocação, estou lidando com concepções estritamente pragmática como, por exemplo, o perfil do leitor, pois pensar um leitor muito genérico (para todos) é pensar uma mensagem imprecisa (para ninguém);
debateu-se inicialmente os problemas das definições genéricas do conceitos propostos: biodiversidade, conhecimento tradicionais etc;
definiu-se que seria melhor tomar tais conceitos a partir de sua colocação na lei, de sua função;
marta falou de algumas de suas experiências durante o aldeias vigilantes;
colocou o problema das lideranças que centralizam a informação, não permitindo que essas se disponibilizem a não ser para seu grupo familiar;
falou-se, então, do perfil do leitor para quem a cartilha deve ser um instrumento de protagonismo e multiplicação, ao invés de detenção do poder;
falou-se, ainda sobre as camadas ou barreiras que nos separam, as quais não devem servir para talhar a comunicação, para torna-la algo que pareça subestimar a inteligência de nossos interlocutores;

09 fevereiro 2007

nosso ponto de partida para uma definição de antropologia que conduzirá às concepções que se cruzam nesse campo de força antropologia e direito, é a simples e complexa distinção entre uma antropologia de objetos e uma antropologia de sujeitos;
o objeto da antropologia pode ser uma cultura, uma instituição, uma subjetividade, um pensamento;
quando se pensa uma antropologia de sujeitos é todo o pensamento que se desloca e precisa ser reformulado para dar conta de sua genealogia, de seus princípios políticos, ou ao menos dos pressupostos que o sustentam e que ele reproduz;
antropologia de sujeitos desloca o eixo gravitacional de nossa cultura para uma posição tensiva do contato/conflito de dois pensamentos;
para se chegar aí, retoma-se os princípios que sustentam a imagem do pensamento: assim se desloca de uma antropologia de objetos para uma antropologia de sujeitos;
se os métodos, os procedimentos e o instrumental da antropologia pauta-se numa objetividade típica da relação com objetos, isto se define numa postura política em relação a esse pensamento;

reformula-se, assim, com essas considerações, traz-se para o debate o próprio contexto histórico, cultural, epistêmico que constitui essa imagem etnocêntrica do conhecimento que toma o outro por objeto e que ao mesmo tempo que expropria seu saber, sua terra, sua subjetividade;
a caricatura do outro é parte do aparato de submissão que passa pela mística, pela política, pela tecnologia, enfim todo o pensamento outro;
não se pode mesmo admitir ainda hoje, dado o alto grau de objetivismo que constitui nossa percepção intelectiva, a relação entre o nosso contexto e história de sujeição (assujeitamento) e a maneira de se lidar com esse saber dos grupos subjugados politicamente;
o que impera ainda em nossa impressão é a idéia de que os procedimentos operam a simples descrição desses povos e seus saberes, sem perceber como essa forma de pensar está impregnada de pressupostos que neutralizam os conflitos políticos sustentados por elas;

08 fevereiro 2007

se vocês compreenderam isso, vocês compreenderam quase tudo; existe então uma realidade formal da idéia, isto é, a idéia é alguma coisa nela mesma, essa realidade formal é seu caráter intrínseco e é o grau de realidade ou de perfeição que ela envolve nela mesma;
deleuze, aula sobre espinoza

a produção de conhecimento é um dos principais fronts da guerra política pelo poder nas sociedades;
reformulando a assertiva, a produção de conhecimento é uma das principais formas de se fazer política, ou ainda, o conhecimento é uma chave no entendimento da natureza do político;
lembre-se que a definição de uma natureza do político é um debate que se abriu recentemente por aqui;
com foucault fica bastante claro a natureza política do conhecimento: por meio de uma arqueologia discursiva (e não via história e seus idealismos transcendentais) o autor conduz uma genealogia dos discursos jurídicos e científicos em sua relação com a verdade;
a questão central para o pensamento do século dezenove é um princípio na condução do pensamento do autor: a ruptura com a representação clássica, sustentada seja no racionalismo idealista, seja nos empirismos que o desmentem, redefine a relação entre inteligível e sensível;
tal redefinição se dá de forma que o pensamento se dá conta de sua realidade formal (material), para além de sua natureza representativa;
a partir daí, a verdade deixa de constituir numa sobreposição do inteligível sobre o sensível, ou do sensível sobre o inteligível, pois revelam-se em suas naturezas diversas;
a verdade deixa de operar no modelo da metafísica, do plano transcendental, a partir do qual esta é buscada enquanto processo pré-existente, tomada como descrição perfeita de universos a priori;
a verdade se assimila agora a um construto que se pauta em sua definição, mais pelo conturbado contexto em que se constitui, que por pacíficas e harmoniosas esferas onde a verdade esperasse para ser resgatada;
a verdade não se encontra, ela se constitui e se constrói em processos políticos de disputas de saber-poder, de concepções de mundo a serem impostas a indivíduos e culturas;
a verdade então se reveste de seu caráter político, reconhece sua natureza política, ao mesmo tempo, num mesmo processo e que revela a natureza da própria política;
a própria política, assim, deixa de ser definida segundo os pressupostos que sustentavam a velha imagem do conhecimento, e passa a se constituir nesse universo da eficácia simbólica do feiticeiro de lévi-strauss, ou seja, no universo do (virtual);

esse vínculo entre pensamento e mundo, próprio da concepção representativa do pensamento, segundo a qual pensar é representar a realidade dos representados, tomado enquanto princípio do pensamento será colocado em questão por uma linhagem filosófica;
o desvínculo dessas dimensões (típico do pensamento do século dezenove, mas que já vinha do dezesseis/dezessete) é uma chave na constituição de uma imagem do pensamento segundo a qual se possa operar sem os pressupostos do plano de transcendência, ou seja os pressupostos que formam a imagem do pensamento baseada na representação, na realidade objetiva das idéias;

07 fevereiro 2007

o que se chama idéia, no sentido em que todo o mundo sempre a tomou na história da filosofia, é um modo de pensamento que representa alguma coisa; um modo de pensamento representativo;
deleuze, aula sobre espinoza
conforme temos estudado com clastres (mas também lévi-strauss, foucault, evc), a linguagem é um instrumento principal na construção desse plano (que se reduz ao nosso o campo e as políticas dos) de pensamento em que se constitui a antropologia;
plano epistêmico: aquilo que lhe fornece condições de se constituir epistemicamente;
a linguagem, e no caso de clastres, o discurso, constituem, assim, matéria privilegiada de abordagem na produção de recortes outros de pensamento;
destravando os fechos da linguagem que dão condição para tal amansamento do pensamento selvagem, podem se criar perspectivas diversas daquelas a que estamos determinados pela força desse uso limitado da linguagem, que se mostra essencial por nos colocar em vantagem em relação aos nossos objetos;
o que se leva a perceber não é bem a importância da discursividade para a apreensão de pensamentos selvagens, e sim a sua importância enquanto pressuposto do nosso pensamento;
voltar-se para tal pressuposto discursivo, para tal posicionamento político na construção do texto, serve mesmo para nos voltarmos sobre o nosso pensamento, sobre o seu funcionamento e sua função;
essa é a função central da discursividade: não se manter obstinada e obsessivamente voltado para o outro, por não compreender o funcionamento de meus recursos lingüísticos;

o problema da linguagem a ser aprofundado tem por conflito paradigmático contraposição da linguagem para descartes e leibniz;
com esse conflito se alinha o problema da linguagem com a representação, com as concepções de representação apresentadas desde spinoza pelo menos, quando se opera uma cisão definitiva com a representação clássica;
sobre dizer e fazer: políticas e mercados da discursividade

sem querer fundamentar o discurso em verdades extraconceituais, que fingem ignorar os condicionamentos políticos e s pressupostos epistêmicos da produção de conhecimento, em valores humanos ideais (os mesmos em franco descompasso com o que define o humano demasiado humano da humanidade nessa chave saber/poder);
deve-se estudar o estatuto da produção de conhecimento concentrando-se em pontos cuja genealogia os torna inadmissíveis, ou melhor, incompatíveis com outros planos;

as tradições do positivismo, com sua tradicional associação entre saber e poder, entre ciência e mercado, a qual constitui traço definitivo da era industrial, definem nossas concepções sobre o nosso pensamento e o pensamento alheio: todas pautadas por nossos critérios e pressupostos;

constituir um circuito global para integrar todas as formas de saber, mediadas pelo mercado;
tal circuito comercial se constitui numa submissão política, e, por extensão, religiosa, de pensamentos que retornam de seu ostracismo (não se sabem se são eles dadas as proliferações de seus hologramas) sob a tarja de saberes locais ou conhecimentos tradicionais;
no âmbito do discurso que instaura tal circuito e põe a circular tais mercadorias (mercado discursivo dos direitos, mercado discursivo das políticas públicas, mercado discursivo das agências (ongs) etc) nesse mercado global do discursos, sob tal sistema de apropriação de discursos, essas outras vozes se apresentam digamos, para usar um termo técnico, amansadas;
sua postura política não é a da máquina de guerra, mas a da apropriação de discursos para um circuito pré-definido politicamente em termos de mercado;
o que se disser, automaticamente se transforma em produto, em mercadoria a circular, a ser posta em circulação;
corre-se o risco de se tentar apropriar e ser apropriado, a máquina é rápida e penetra, apropria todos os tipos de discursos;
o discurso antropológico se constitui no seio dessa máquina de apropriação, a partir das técnicas de roubo de almas, de doutrinação;
opera com o mesmo plano conceitual, com o mesmo plano de imanência, ou melhor, de transcendência da máquina religiosa até contrapor-se ao pensamento selvagem;
é assim quando a antropologia concebe o pensamento amansado, espécie de contraponto ao pensamento selvagem que serve de máquina de guerra, na construção de um pensamento que se constitui a partir de uma outra imagem do saber;
essa imagem do saber outra, rompe com o plano de transcendência que sustenta uma concepção sem teor político, sem pressupostos políticos, e, por isso mesmo, politicamente instrumentalizada;
essa imagem do saber define seus pressupostos políticos em termos de plano de imanência, do instrumental de construção de conhecimentos;

a contraposição de discursos ou da hipocrisiahoje pude vislumbrar a estrutura do filme a rota do pacífico e, assim, apreciar sua dimensão sociológica;
é uma pena que alguns de nossos companheiros não captaram tal contraponto, ou que tal contraponto está para além de conflitos governamentais;
nossos limites são outros, nossas fronteiras são outras;
o que se tem na abertura do filme é um plano seqüência em que se sobe o rio chipamano, rio que faz a fronteira brasil-bolívia;
corta e viajamos por brasil, bolívia e peru perguntando para as pessoas sobre a integração entre esses países;
fala-se de política, de geopolítica, de economia, de cultura, experiências de fronteira etc;
as pessoas que falam são as pessoas que estão assistindo o filme: transeuntes, com exceção dos poucos especialistas;
seu discurso fala dos benefícios da integração, o discurso positivo da televisão, do governo, do mercado;
o terreno é bem preparado para o golpe que se dá no bloco de conclusão em que e apresenta a situação dos brasileiros que vivem na região de fronteira do lado boliviano;
brasileiros que vivem há trinta anos na bolívia, tem filhos maiores, constituíram famílias com bolivianos etc estão sendo expulsos violentamente das terras em que trabalharam durantes as últimas décadas;
expulsos de forma truculenta, estão sendo ameaçados e aterrorizados pela polícia boliviana e por capatazes das madeireiras multinacionais;
daí ao delírio final que fecha o filme;
essa é a estrutura política e discursiva do filme;
essa contraposição marca o conflito entre o modelo pacífico de se ver a integração: seu caráter econômico de mercado global, no qual todos parecem se beneficiar, um discurso oficial bancado pelo governo associado aos seus financiadores, versus a face obscura do modelo econômico imposto à região por interesses não tão coletivos;
a vida na cidade parece não conhecer bem o preço que está sendo pago para que esse sistema que se impõe, torne-se onipresente;
de um lado a concepção de fronteira, de política, de estado é uma, de outro sua vivência é outra;
que se veja: não se está dizendo quem está certo ou errado, não se está demonizando os bolivianos, nem vitimizando os extrativistas;
o que interessa é essa contraposição de realidades discursivas: vidas constituem discursos: a inocência com que um vive o processo atropela estórias de vida de pessoas marcadas por um processo similar de expulsão;
dessa forma, com os depoimentos do seringueiros que se vêem ser expulsos de suas terras e de suas famílias, para situações incertas nas periferias das cidades, dessa forma violenta, desconstrói-se o discurso da política de globalização econômica em que não se precisa mais de passaporte para atravessar a fronteira mostra uma outra cara;
não é o caso, igualmente, de demonizar evo morales ou jorge viana, é do processo que se está tratando, processo do qual eles são personagens;o processo, pelo qual somos certamente responsáveis, se deixa apreender em sua contraditória insensibilidade, visto que o caso dos extrativistas de fronteira compõem personagens que se projetam nos diversos grupos que pontuam o filme;