31 janeiro 2007

rizoma: traduzindo; um emaranhado de questões, sem pé nem cabeça, mas com um corpo (sem órgãos)
iniciando a série antropologia e política (o desafio[desabafo, desaforo]) parte 1
a casca e a nervura do real
parece que a questão com o luiz se deu quando questionei a distinção clássica que constitui a metafísica: a distinção entre essência (ser) e aparência (parecer);
quando coloquei que suprimir essa distinção é um dos exercícios do paradigma do qual evc faz parte, tomou-se como se estivesse me posicionando (e de fato estava) dogmaticamente (mas não dogmaticamente) a favor da aparência sobrepondo-a à essência;
ele dizia que para ele existe um eixo, um essência, ainda que essa essência não seja judaica, mas que seja simplesmente transcendental: a força;
no entanto, foi o judaísmo que patenteou, antes de mais ninguém, a transcendência e assim, hoje, para se pensar nessa chave transcendental temos que pagar os tributos devidos a esse pensamento;
para qualquer exercício de saída ou pelo menos de estranhamento em relação a esse eixo do pensamento ocidental, inicia-se pela problematização de tal eixo: o que faz o autor estudado em seu questionamento sobre a noção de natureza e seus fundamentos;

a saída que encontrei foi pelas máquinas de guerra, quando a antropologia se descobre como contra-antropologia ao munir-se de instrumental político com clastres por exemplo, em que a dinâmica discursividade, política, antropologia: resulta na mistura explosiva as máquinas de guerra;
antropologia política, portanto, só pode ser contra-antropologia, ainda mais depois de termos estudado com foucault o caráter político (colonialista) que define o saber antropológico;
a postura antropológica, o olhar antropológico possui uma natureza política, o próprio saber só se define em função da política;
por isso a necessidade de se definir especificidades que atravessem a noção de política aqui elaborada;
essa noção de política se alimenta de todo o debate que atravessa o século vinte nas obras de nietzsche, foucault, deleuze e, de um jeito ou de outro, dos demais pensadores: o debate sobre a representação;

luiz argumenta que não se trata distinguir essas esferas e sobrepor a aparência sobre a essência, as essências se equivaleriam aqui ou em qualquer outra cultura, visto que o que interessa é o movimento de voltar-se para a “essência transcendental” (força superior);
é assim que ele alinha a transcendência indígena a todas as demais transcendências, como se fosse um privilégio projetar a transcendência indígena ao lado dos demais panteões místicos das diversas culturas: hinduísmo, budismo... e xamanismo;
recai-se no multiculturalismo bíblico ou globalista;

no entanto, o que o perspectivismo propõe é uma máquina de guerra: elaborar um pensamento virtual indígena a partir do xamanismo que se constitua em bases imanentes e não transcendentes;
o animismo é lido, assim, numa chave da imanência, ao invés de ser tomado como projeção, como fora nas velhas interpretações do pensamento indígena;
aliás, tais velhas interpretações do pensamento indígena é que se caracterizaram por uma abordagem de assimilação do pensamento indígena: assimilar a mística indígena à religiosidade cristã, hindu, budista... buscando por vezes paralelos históricos e arqueológicos que justificassem tal assimilação;

29 janeiro 2007

a antropologia não se constitui, diferente do que normalmente se pensa, quando o homem ocidental passa a estudar rigorosamente as outras culturas;
a antropologia se constitui a partir do momento que se concebe modelos de produção de conhecimento para além do nosso, trocando em miúdos, quando passamos a nos estudar com a visão de mundo do outro;
portanto, a antropologia consiste no exercício do estranhamento sobre o que normalmente se pensa em nossa sociedade;
consiste numa prática de distanciamento do etnocentrismo, tão caro ás nossas posições colonialistas, que reveste de poder político a verdade do que normalmente se pensa;

a contribuição de um olhar antropológico sobre um processo em que se trabalha com conhecimentos tradicionais, inicia-se com a construção da concepção de conhecimentos tradicionais;
atenta-se para que ela seja sempre uma construção, ainda que com suas diversas dimensões, uma construção;
esse exercício será importante para que não se cristalize uma noção de conhecimento tradicional vinculada estritamente ao passado, mas que se pense no conhecimento tradicional como instância mediadora do contato com a sociedade ocidental;
a função do conhecimento tradicional não se restringe, assim, às dimensões da comunidade, ele se reveste de uma função reprodutora de subjetividades, indo além, inclusive, da afirmação de identidades;
o mercado global tem boa aceitação de subjetividades indígenas, especialmente em relação aos seus saberes, por tanto tempo ignorados por não se reconhecer seu valor comercial;
temas como o xamanismo e a sustentabilidade e toda uma gama de linguagens (grafismos, roupas, música, escrita, etc) têm ganhado o mercado global muitas vezes com versões pouco convincentes de sua ligação com fontes diretas às culturas e aos conhecimentos tradicionais;
o reconhecimento legal e a inserção desses sistemas de subjetivação no mercado global constituem marcos das nova formas de se lidar com os conhecimentos tradicionais a serem elaborados agora;
portanto, a concepção de que tais instrumentos jurídicos e políticos visam preservar ou conservar essas culturas baseia-se numa noção de cultura estática;
tais instrumentos criam uma noção de cultura tradicional nas comunidades a qual não deve ser projetada para dentro da cultura, de forma a procurar identificar nossa concepção de conhecimentos tradicionais com suas instituições milenares;
esse conceito de conhecimento tradicional que é um instrumento jurídico, político e comercial/econômico está aí para ser projetado sobre a zona de contato entre índios e brancos;
a gestão desses supostos conhecimentos tradicionais talvez seja a parte mais importante na prática de suas garantias legais contra a expropriação de seus recursos simbólicos ou naturais;
não se confunde assim o que normalmente se pensa por conhecimentos tradicionais com o que de fato é ou deve ser: um instrumento político (jurídico, econômico etc) constituído em nossa sociedade para cumprir funções próprias à nossa sociedade ou à relação dos povos indígenas com a nossa sociedade e seu mercado;

26 janeiro 2007

um discurso político
, ou quem fala quando o outro fala para iniciar este debate sobre política e discursividade, quero retomar uma questão perspicaz do amigo paulo, feita para mim em uma de nossas boas prosas: o que é política?
(deixa: não se lê a fala com tom universal, mas com um tom de quem diz: amilton, o que você quer dizer com política...);
pois é, uma boa hora para revestir a palavra com o sentido que ela terá articulada com outras, que vem sendo arduamente trabalhadas, nessa tessitura;
o interesse na empreitada sobre a política resulta das urgências: primeiramente, como definir a concepção política (ou de política) de um curso intitulado antropologia política (ou, conforme meu recorrente ato falho, antropologia e política);
assim, como definir o caráter político da meta-antropologia, da meta-teoria que caracteriza a antropologia a partir de lévi-strauss, quando a disciplina ganha sua dimensão epistemológica hoje característica;
assim, como definir o caráter político do movimento de dobra metodológica da antropologia sobre seu próprio corpo, quando se desloca a abordagem do problema antropológico para o interior das cosmologias ameríndias;
assim, como definir o caráter político da discursividade, visto que nosso interesse sobre a discursividade e os desdobramentos do enunciado é francamente político;

a partir deste problemático rizoma de natureza política, propõe-se retomar a questão filosófica proposta pelo amigo paulo: o que é política? ou pelo menos, o que queremos que ela seja (brincadeira com a utopia do plano de transcendência);
como encontrei na discursividade um eixo que contata as diversas coordenadas que impulsionam o viés antropológico resultante desta plataforma, a discursividade será uma diretriz na definição de política que se busca aqui desenhar;
o impulso desta conexão associa-se às experiências junto aos conflitos travados em torno da construção de princípios que pautem a definição dessa noção, tão enigmática porque tão óbvia e simples: políticas públicas;
por isso, portanto, iniciar problematizando a unanimidade que reveste essa expressão, o mesmo que ocorre quando se fala, em termos de discursividade, em dar a voz ao outro;
é um velho problema antropológico que se julga cinicamente transpor na justificativa da metodologia da pesquisa, ao citar as falas do interlocutores, respeitando inclusive seus erros de português (no original, ipsis literis), algo como jogar o interlocutor numa arena de leões e não lhe dar ao menos os instrumentos utilizados pelo domador;
no entanto, o problema aqui ganha consistência epistêmica, visto que o antropólogo, gestor da política de comunicação própria do trabalho (seja material acadêmico, “técnico” ou jurídico), deve reconhecer o campo ou plano em que se elabora esse discurso;
o plano que oculta seus processos de constituição se chama plano de transcendência;

fazer falar em termos de escritura é outro processo: constitui-se enquanto plano de imanência, mantendo à tona as suas condições de produção e apontando seu lugar no processo de construção do sentido;
entre os procedimentos próprios ao plano de imanência situam-se: redefinir conceitos, questionar unanimidades, problematizar meios e linguagens, desdobrar pressupostos etc;
para efetivar tal escritura, exige-se um trabalho de corte e polimento nas categorias que deverão estar prontamente alinhadas a este plano;
conceitos como enunciado, subjetividade e sujeito, representação entre outros precisam ter consistência conceitual e fazer parte de um campo semântico harmônico ou compatível;
no âmbito da tarefa que aqui se cumpre, a noção de subjetividade é um conceito chave por seu lugar central em no pensamento e na metafísica ocidental, sendo um dispositivo chave do plano de transcendência;
o sujeito tomado como algo constituído, desprovido de problemas, como imagem acabada do sujeito transcendental é a forma do instrumento utilizado pelo plano de transcendência;
o sujeito aparece aqui como pressuposto do texto, como pressuposto do diálogo, como figura já anteriormente definida da intervenção política abordada;
é, portanto, este caracter que o define (e que define o próprio plano) como instrumento do plano de transcendência;

24 janeiro 2007

rodin, danaid
hegel e a antropologia 2
hegel desferiu o primeiro golpe na metafísica, do qual ela se recuperou com as novas formas da história;
esse golpe consiste em traçar um plano de imanência para o espírito, que até então se constituía em bases estritamente transcendentes;
a história fornece esse primeiro plano de imanência, mas sua facilidade em fornecer esse plano resulta no alto preço que cobrará: a história com sua concepção de fato histórico e de verdade, tem suas bases na mesma tradição metafísica que e está buscando criticar, circunscrever, escapar, redefinir;
essa história tradicional, mantém a distinção entre o plano dos fatos e o plano do discurso histórico: é essa postura que a compromete epistemicamente, para os fins de crítica à metafísica, assim como politicamente, visto que se torna um intensificador de poder (foucault)

portanto, é assim que hegel dá o primeiro golpe na metafísica, ao fazer despencar o espírito do absoluto para a dimensão imanente do tempo (o qual se mantinha refém de uma dimensão extra-temporal ou supra-temporal), ao circunscreve-lo na esfera da temporalidade;

de individual e abstrato o espírito passa a constituir-se coletivamente e de forma concreta na história e na política;
dessa forma, o espírito passa de causa transcendente a efeito imanente;
no embalo da tradição clássica, o espírito ganha forma individual e abstrata em oposição o corpo, matéria concreta e integradora;

o caráter revolucionário dessa concepção de espírito está na passagem de sua condição de causa transcendente à condição efeito imanente;
esse espírito (coletivo) passa de causa transcendente, essencializado pelo idealismo, a efeito imanente do tempo;
o tempo como condição fundamental à constituição do espírito, ou melhor, à sua manifestação (enquanto história) diacrônica, descritível por que não homogênea ao presente, implica em sérios desdobramentos políticos;
o espírito possui em suas gêneses epistêmicas, nos sentidos de que foi revestido ao longo de seu percurso, uma dimensão moral definidora;
essa dimensão moral está associada a essa imagem idealizada do espírito como causa transcendente, seja como sabedoria, como alma, ou como indivíduo;
o espírito seria (é) privilégio dos nobres, dos sábios, daqueles que o inventaram, ou melhor, daqueles que têm o poder de reinventa-lo segundo seu tempo e os interesses desse tempo;

a sacada de hegel

hegel associa o espírito ao tempo; o tempo seria assim, o plano de imanência em que o espírito se pode manifestar; é dessa concepção que se extrai a noção de espírito do tempo;
incrível, é a primeira expressão da idéia de cultura, o espírito de tempo de um povo;
portanto, esse conceito, geralmente apresentado absolutamente nos compêndios o que é cultura?, como tirado do dicionário, sem história ou genealogia, é um conceito bastante problemático na filosofia;

o tempo (história) aqui é condição para a manifestação do espírito, que é pensado diacronicamente como expressão conjugada com acontecimentos que caracterizam tal espírito de época;
portanto, é a história que irá possibilitar desenhar-se o espírito de certa época;
como se vê, a aliança entre antropologia e história é bastante antiga;

23 janeiro 2007

o perspectivismo de matrix
matrix opera no multinaturalismo, procura desprender a gente da univocidade que caracteriza nossa visão ocidental, abrir nossa percepção para uma multiplicidade de mundos infinitamente mais veloz que a multiplicidade de culturas do multiculturalismo;
a cena central do filme é a visita de neo ao oráculo: neo havia testado seu poder inicial de superação da unidade da natureza (sua fé na matrix) e caído de cara no chão (todos caem na primeira...);
neo já havia passado pela experiência corporal, orgânica, física de ruptura com a matrix ou a natureza, já havia passado pela experiência limite de reconstituição de seus músculos, mas sua percepção ainda não havia sido redefinida e é isto que o faz cair;
a cena do oráculo é um desdobramento desta cena, o problema é o mesmo: romper com a unidade onipresente da matrix, da natureza;
a chave desta cena é a colher: there’s no spoon: esta é a lição perceptiva que lhe permitirá superar os problemas colocados a partir da decisão intelectual (buscar morfeus);
com essa chave o personagem redefinirá sua percepção e, com ela, a sua concepção de o que é a matrix, ou o que é a natureza;
pode-se pensar que nos encontramos nessa experiência intelectual e, sobretudo, perceptiva de redefinição de nossa epistéme, de nossa matriz de conhecimento a partir da redefinição do conceito de natureza fornecida pelo perspectivismo e sua teoria virtual da natureza e da cultura;
foi o que se fez: redefinimos a noção de natureza, e seus pressupostos, ao inseri-la, ou melhor, desenha-la a partir dessa epistemologia indígena e sua teoria virtual;
pra concluir, talvez essa não seja a cena central do filme, afinal não se pode penetrar nesses desdobramentos antropológicos do filme enquanto não tivermos escolhido pela pílula vermelha, até aí estaremos detidos por nosso senso crítico que não permitirá observarmos essas dimensões perspectivas sobre as quais o filme reflete e tudo fica parecendo pura imaginação;
mas não é?...;
série makakos 5as máquinas de guerra
a guerra é um eixo nas sociedades indígenas e não possui esse valor ambíguo que possui em nossa sociedade, a qual faz uma guerra no front e outra na mídia, em que impinge seus adversários de terroristas, criando para si uma auto-imagem de juiz final;
conceber a guerra em seu valor positivo é um exercício do pensamento trágico;
é também o pensamento trágico que nos encaminha à superação de uma antropologia da compaixão, antropologia de inspiração marxista que identificava os indígenas aos espoliados do sistema capitalista, fazendo-os sofrer do mesmo mal que sofria tal pensamento: seu encerramento nos limites do sistema que o produzia, do sistema que contradizia e criticava;
antropologia trágica assume uma outra forma da política, assumindo o risco da velha pecha dos marxistas: uma antropologia alienada, da forma pela forma etc;
acredita-se, no entanto que a forma é o que há de mais revolucionário, aliás, uma supressão da distinção forma/conteúdo, tomada como efeito da série de duos: natureza/cultura, corpo/alma etc;
a experiência de linguagem passa a constituir-se de certo caráter revolucionário, passa a revestir-se de teor político ao voltar-se contra os modelos ocidentais de que o próprio pensamento político revolucionário teria tomado sem rigor crítico e metodológico;
entende-se por que maio de sessenta e oito foi um marco para os franceses e, quiçá, para o mundo, pois propunha uma forma molecular de fazer política, a sociedade se segmentava, sua face se pulverizava
são os movimentos sociais que no brasil foram recebidos pela tradição histórica do autoritarismo que, no momento tinha a face terrível dos militares;
a experiência política já tinha ganhado expressão diferenciada na arte, as vanguardas levaram a público uma revolução na forma que acaba por querer se dissipar na arte pela arte dos americanos por exemplo;
que os makakos não se ofendam... nós quem, cara pálida...

um ponto de partida, uma referência para iniciar essa construção pode ser a crítica da noção de representação, sem a qual é difícil ir muito longe;
é a nossa concepção de representação que sustenta (e é sustentada por) essa concepção de natureza como conceito matriz, como plano de transcendência que sustentaria os conceitos a partir de uma instância extraconceitual;
é a partir de uma genealogia da representação, que nos conduzirá à base de nosso pensamento (essa construção política que serviu ao poder constituinte em sua constituição) a metafísica grega e seus desdobramentos, que se poderá exercitar a concepção de linguagem aqui exigida, a qual conduzirá a proposta de supressão da dicotomia das esferas de representação e referente;
makakos 4 o que eles chamariam de natureza

a primeira chave que o autor nos fornece para o exercício de re-configuração perceptual é o distanciamento que precisamos ter no uso da linguagem: não crer que o nome se confunde com a coisa (pois só a partir desse distanciamento que poderemos suprimir a dualidade da representação);
cumpre-se atentar para o plano de imanência em que nos deslocamos: um plano epistêmico que suprime a dimensão extraconceitual;
lembre-se, o meio é o conceito de natureza, o objetivo é suprimir a distinção fundamental entre natureza e cultura, instaurar-se uma esfera estritamente conceitual: plano de imanência;
portanto, utilizar-se da linguagem com desconfiança e parcimônia: os nomes não são decalques das coisas, assemelham-se a coordenadas que permitem seu mapeamento;
é dessa forma que podemos criar um conceito virtual de natureza na esfera do pensamento indígena;
esse conceito não existe nesse pensamento, não é uma categoria nativa no sentido clássico, ele é construído a partir de coordenadas fornecidas como desdobramentos do perspectivismo;
é o perspectivismo, como exercício de epistemologia indígena, que conduz na teoria indígena virtual daquilo que eles chamariam de natureza;

como vimos anteriormente (há antropologias e antropologias... 1 e 2) chamar é um verbo há muito presente na concepção do perspectivismo;
trabalha-se com definições e redefinições de conceitos (plano de imanência) e, portanto, opera-se com a arbitrariedade própria da língua, um exercício perceptivo para que não nos fixemos em definições como decalques de coisas, pois definições são arbitrárias;

imaginar é um verbo novo no vocabulário do perspectivismo e serve para delimitar, para exercitar esse distanciamento proposto aos se entrar na esfera epistemológica;
estamos na esfera da imaginação, é aqui que opera nosso pensamento ao ser ejetado de sua dimensão extraconceitual, ao despojar-se de sua naturalidade;
o exercício primeiro: como imaginamos os índios e como que, ao imagina-los, por nossos pressupostos, os imaginamos como parte da natureza ou de uma esfera extra-humana;
é assim que os indígenas são imaginados por nós como parte dessa esfera extraconceitual que denominamos natureza;
o contraste entre nosso pensamento e o seu, inicia-se pelo fato de sua concepção epistêmica situar-se no contraponto do natural, o social;
é por isso que seu pensamento não admite (ou admitiria) uma esfera extraconceitual, por não conceber uma dimensão inerte, desprovida de envolvimentos sociais, essa que nós chamamos natureza;
a partir daí, da idéia de que as relações de uma sociedade com a natureza, diferente do que pensamos, não possa ser concebida como relação natural, mas como relação social, derivam-se dispositivos simbólicos específicos (além de formas sociopolíticas determinadas);
os dispositivos simbólicos específicos constituem o instrumental conceitual com que uma sociedade concebe o real, sintoniza-se com ele;
aqui se faz valer a arbitrariedade da linguagem e, mais veloz, a arbitrariedade própria do conceito e de seu plano de imanência;é a essa arbitrariedade, constituída a partir da experiência lingüística, que se contraporá a univocidade dos parâmetros extraconceituais (lê-se aqui: a nossa abstração onipresente chamada natureza, conceito extraconceitual por definição);
makakos [3]
a propriedade do conceito

sobre a sua legitimidade lévi-strauss se perguntava censurando: será que não se está com esse perspectivismo a fazer os índios falar mais do que o que estão falando (a tal da superinterpretação);
e eduardo argumenta que teria sido o próprio mestre a nos guiar rumo à saída da interpretação, da prática interpretativa;
teria feito isso ao dobrar a antropologia sobre ela mesma, mostrando a continuidade entre discurso nativo e discurso do antropólogo;
nas mitológicas mesmo invoca uma linguagem mítica, única capaz de falar do mito;
mas já havia proposto tais experiências, fora do universo mitológico, desde seus primeiros textos sobre xamanismo, quando opera as primeiras experiências discursivas em seus textos;
makakos [2] do conceito de natureza à natureza do conceito

estudamos a imagem que fazemos da natureza em nosso campo epistêmico: a natureza é colocada em nossa epistéme como dimensão extraconceitual, como pressuposto transcendente ao plano de nossas construções conceituais, algo como o conceito mãe ou o conceito dos conceitos;
o autor propõe uma concepção epistêmica que suprima toda dimensão extraconceitual e opere com sua dinâmica própria;
ao suprimir-se o universo extraconceitual e reconhecer nosso sistema de conhecimento em pé de igualdade com outros sistemas simbólicos opera-se, uno actu, a supressão da distinção natureza/cultura e com ela todas as demais;

as implicações políticas dessa atitude possuem desdobramentos a serem explorados;
não somos, a partir daí os donos da verdade, os donos de uma concepção fechada do que seja a natureza;
abrir a realidade, que nos custou tanto fechar tão bem, para outras concepções parece, para muitos (civis e mesmo antropólogos), desses absurdos que só acontecem na ficção, na arte, e não na ciência, que teria um compromisso com a realidade;
da série makakos (1o verdadeiro problema antropológico, portanto, não é o de determinar a relação das sociedades indígenas com a nossa natureza; o problema é saber como as sociedades indígenas, ao se auto-determinarem conceitualmente, constituem suas próprias dimensões de exterioridade;
evc, a natureza em pessoa;
o corpo da antropologia
a definição de antropologia sustentada no (e que sustenta o) texto retoma a definição de, há quase trinta anos, a construção da pessoa nas sociedades indígenas brasileiras;
esse texto de seeger, da matta e viveiro de castro operam na tradição de mauss, que rompe com o paradigma que sustenta (e é sustentado pela) antropologia inglesa e sua concepção representativa;
enquanto a antropologia inglesa opera na matriz da representação, a antropologia francesa já busca atalhar essa concepção, mesmo antes das idéias estruturalistas chegarem, com a obra de mauss, que propõe a construção de conhecimento antropológico com categorias nativas;
os autores definem essa atitude como definidora não só do objeto da antropologia, estendendo-a a sua metodologia e mesmo à sua especificidade enquanto disciplina, relegando as demais atitudes, ao modo de lévi-strauss, a sociologia ou história indígena;
essa definição desloca o problema antropológico para uma região e uma materialidade específicas: a dimensão epistemológica;
a partir dessa definição, toda e qualquer abordagem antropológica passa necessariamente pelo crivo epistemológico, tinge-se de caráter epistêmico;
operar no plano epistêmico resulta em algumas exigências teóricas e metodológicas;
a interlocução pressuposta se dá entre modelos de conhecimento com especificidades próprias;
os conceitos de nossa epistéme não podem trafegar impunemente de lá pra cá e vice-versa;
nossos pressupostos deverão ser suspensos, pois não tem a mesma validade em outra cultura e essa suspensão pode implicar contribuições na reformulação desse mesmo conhecimento;
essa reformulação se dá pelo fato de se circunscreverem as causas políticas que motivam tais pressupostos numa espécie de genealogia necessária de tais conceitos;
o enfrentamento desses sistemas de conhecimento coloca nosso saber numa outra perspectiva, já que ele perde necessariamente o caráter absoluto que o define;

os elementos distintivos colocados agora, referem-se ao vocabulário filosófico assumido;
tem-se a questão da auto-determinação conceitual própria a essa epistéme e, assim, o problema da exterioridade nesse pensamento;

para operar a supressão da dicotomia natureza/cultura que funciona como princípio seja em nossa moral religiosa, seja em nossa moral científica, via teoria virtual indígena, é acionado o perspectivismo;
essa teoria das perspectivas encontra respaldo etnográfico em mitos e ritos das sociedades estudadas, a partir dos quais se pode elaborar um modelo de conhecimento;
o perspectivismo encontra no trato do corpo pela ciência indígena a linha de fuga com a qual opera a tal supressão da dicotomia metafísica: o corpo;
no âmbito dessa ciência xamânica, o ponto de vista que pode ser explorado determina-se pelo corpo, um corpo que deve ser conceitualmente definido na especificidade de seu uso;
esse corpo não se define como fato, como se define para nós numa extensão da definição de natureza, corpo como objeto inerte das ciências físicas e biológicas;
corpo aqui estende-se para além da sua constituição orgânica, igualmente uma construção simbólica, para uma constituição afetiva incorporada num habitus;
esse habitus caracterizará a cultura única ou homogênea que será o eixo móvel para multinaturalismo;
tomemos um eixo só para exemplo, o eixo da predação: o corpo define a perspectiva e a predação como habitus define como determinada espécie conforma sua realidade, constitui sua normalidade, sua naturalidade em relação às espécies com as quais propõe ou realiza trocas sociais, sejam seus predadores ou suas presas;

22 janeiro 2007

antropologia e cinema
penso que, com esses apontamentos, pode-se dar início, ou seguimento, a uma proposta de reflexão que tem sido elaborada aqui;
a proposta de elaborar uma estética audiovisual a partir da antropologia segue os passos acima;num primeiro momento romper com a concepção de representação oficial no regime de percepção do pensamento ocidental;
o filme, assim como a antropologia, não se pode confundir com descrição de uma realidade pré-concebida que se está a representar, e sim constitui sua linguagem a partir da crítica de tal sistema de representações (em suas genealogias filosóficas, religiosas, políticas etc);
definida em seu caráter formal a antropologia opera com jogos perspectivos, associando-se às práticas discursivas e jogos de enunciados das diversas linguagens(regimes sígnicos, sistemas expressivos);
essa definição apropriada ao cinema, a linguagem do documentário pode trazer contribuições valiosas em termos de criação de regimes de imagens;
esse alheamento da cultura ocidental, o ato de lançar um olhar estranho que subverta o próprio olhar daquele que assiste ao identificar o absurdo de hábito cotidianos através da experiência desse olhar cinematográfico;
um recurso interessante no documentário é a confiança que o espectador atribui ao filme, ao colocar-se na crença representativa de que o filme documenta a realidade vivida e comum (uma realidade da qual se compartilha o estatuto e o código de valores sobre ela, a tal realidade oficial);
o cineasta então tem o poder de tomar esse olhar confiado pelo espectador e conduzi-lo seja para reafirmar o seu mundo confortável, seja para subverte-lo, conduzindo-o por códigos dissidentes;
cabe lembrar que o poder de apropriação de discursos por parte do espectador não pode ser subestimado, pois a televisão treina-o diariamente a absorver os mais violentos discursos de dissidência na perspectiva conservadora do estado, do mercado e da sociedade;
para poder pegar esse espectador é preciso ser rápido, preciso no uso dos recursos;
em certos momentos do trabalho apresentado conseguimos operar com a dobra do olhar sobre si, do homem ocidental voltado sobre seu código de valores e suas contradições;
a antropologia opera com essa dobra do homem ocidental sobre si mesmo, passando pelo outro e voltando para si, portanto, diferente de quando partiu;

21 janeiro 2007

da criação na ediçãono processo de edição é concebida grande parte do recursos de linguagem com que o filme consegue devir seu tema;
gostaria de exemplificar com algumas das soluções que surgiram na edição de a rota do pacífico;
um primeiro exemplo começa num problema: tinha-se o material da expo acre, tudo ao mesmo tempo muito normal e muito bizarro;
nós víamos aquela cultura bovina e considerávamos absurdo essa cultura assumida com tanta violência nesse universo do povo da floresta construído pela publicidade acreana;
a instauração dessa realidade econômica criou, no entanto, um plano para expressão de tal universo que permite a convivência pacífica desses códigos de valores, tudo perpassado pela costumeira hipocrisia brasileira;
como, então, trazer à tona o que há de bizarro na normalidade, ou melhor, nesse plano instaurado em que a violência é tomada como eixo de valores;
havia uma imagem onde jovens dançavam num show e é comum na edição (estamos trabalhando com o adobe premiere) que o som caia e a imagem fique silenciosa;
quando vimos aqueles jovens dançando recobertos pelo silêncio, evidenciou-se a imagem que se buscava, o contraste entre normalidade e bizarria;

outro momento que se descobriu um recurso de linguagem na ilha de edição;
desde há muito o diretor falava que queria trabalhar com o contraste entre o som da motosserra e imagens da estrada e da floresta;
estávamos editando um campeonato sul americano de motocross que aparece no filme para devir processos de integração do eixo bolpebra;
durante a edição do campeonato associamos o som das motos ao barulho de motosserras;
a fusão do som das motos com a imagem da estrada e da floresta não só ressignificou a imagem da estrada e da floresta, como também ressignificou a imagem do campeonato de motocross, das pessoas vibrando nas arquibancadas;
de um plano em que dominava a normalidade de um evento corriqueiro extraiu-se o sentido do absurdo de uma cultura que cultua as máquinas e seu poder destrutivo;
evidencia-se, com isso, a fragilidade humana em seu movimento auto-destrutivo;
além disso, o que mais me interessa enquanto antropólogo é que e consegue esse efeito de sentido, ao fundir o absurdo humano à serenidade vegetal (seringueira) e animal (pássaros e outros bichos);
a impressão que interessa impregnar no espectador é a do olhar de árvores centenárias e da sabedoria animal sobre a vaidade e prepotência dos seres humanos, sobre sua ignorância a respeito do processo que estão encaminhando;
a fusão dessas imagens não representa, ela deixa no plano das impressões esse jogo tensivo de olhares, esse contraponto de perspectivas;
sons como o das motos, que se associam a motosserras, e o das pessoas vibrando, que se associam às arenas, fundidos com imagens de árvores e pássaros em seus gesto cotidianos, serenos, operam um contraponto entre fragilidade e força;
consegue-se também uma perspectiva alheia ao olhar comum que sustenta o sentido de normalidade sobre os fatos humanos e revela o que há de absurdo em hábitos tão “naturais”;
do documentário e sua edição 1não descrever um determinado tema, e sim mergulhar num determinado tema buscando-lhe os recursos de linguagem viabilizados por esse tema;
não se manter determinado pela exterioridade, pela transcendência, pela descrição de um objeto externo ao filme, risco que corre e de que são vítimas a maioria dos documentários;
o documentário recria o objeto e essa autonomia é um recurso de linguagem;
a concepção objetivista e empirista que marca o documentário com um tom jornalístico, afastando-o ou contrapondo-o à ficção é estraçalhada no clássico documentário o homem-camêra, de dziga vertov;
o jogo dos planos realidade/ficção fazem do filme um discurso filosófico sobre os limites da distinção e da indiscernibilidade entre mundo produzido (realidade, documentário) e produção de mundo (ficção, filme);
tem-se a captação de imagens, a edição, a exibição, todas essas dimensões jogando com a idéia de construção de realidades e realidades que estão além da possibilidade de criação do artista, que o transcendem;
autonomia da linguagem e autonomia do mundo;

temos no filme de vertov uma das mais belas cenas que se passa na moviola, na mesa de edição;
é nesse momento de aguda metalinguagem que se tem experiência de materialidade do filme: pega-se a película na mão, em sua materialidade;
a imagem estática nas mãos da editora, o feminino chama a atenção, é contraposta à imagem em movimento num discurso metalingüístico de primeira;
não é possível manter a mesma concepção descritivista de documentário, que cinde o mundo em dois, depois desse filme;
geopolítica amazônicao caf é (corporação andina de fomento) uma corporação multilateral que opera desde 1970 na área de geopolítica com projetos de desenvolvimento infraestrutural;
além de 22 bancos privados da região, o caf tem como acionistas países como Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Venezuela, Brasil
entre outro projetos, esse consórcio internacional elaborou e coloca em prática o iirsa iniciativa para a integração da infra-estrutura regional sul-americana;
o iirsa coordena uma série de projetos que abrangem as regiões estratégicas da américa do sul;
um dos projetos desenvolvidos pelo iirsa consiste num amplo projeto de desenvolvimento da região bolpebra, tríplice fronteira entre brasil, bolívia e peru;
o elemento central do projeto na região é a estrada interoceânica que dará vazão ao pacífico via peru, a grande parte da economia amazônica, ao fazer a conexão entre o acre e portos do peru;

o modelo de desenvolvimento encampado por essa corporação é o ultraliberal, modelo que identifica os interesses dos estado aos interesses do grande capital;
são trinta e cinco projetos financiados atualmente, na cifra dos sete bilhões de uss;
o iirsa está fazendo da amazônia um grande corredor a ser atravessado por produtos de exportação como matérias primas e carne bovina, cujo preço já é inviabilizado na maior parte dos países do mundo;
a concepção de desenvolvimento posta em prática pelo iirsa é a das grande empresas e bancos desses países, os quais são os representantes legítimos dos poderosos grupos econômicos que inventam a globalização;
o som do filme
a trilha sonora original do filme está sendo elaborada por jon veras;
ontem estivemos reunidos para ver o filme e rever o homem da câmera, filme que nos permite vislumbrar a atmosfera rítmica, o casamento entre som e imagem, o caráter experimental do filme entre outras diretivas;
depois da visagem de a rota do pacífico, a primeira dessa primeira versão integral, sentamos para começar a definir as feições dessa trilha sonora;
a sugestão do músico foi a confecção de mapas sobre o filme para que se possa cotejar as áreas que deverão ser musicadas;
o debate ainda girou em torno da concepção política do filme, que para o músico não está bem definida, pois segundo ele, não há um posicionamento claro quanto à política do desenvolvimento sustentável;
construiu-se um percurso em que se possibilitou uma articulação entre os desdobramentos das políticas de desenvolvimento amazônicas e a expropriação cultural ao se pensar o alcance cultural de tais projetos;
para veras, o dispositivo que permite o devir fílmico, imagético de nossas concepções políticas é a pluralidade de perspectivas, a polifonia;
algo interessante expresso pelo cientista político que é veras, foi seu reconhecimento de uma estética do belo perseguida pelo filme, o que o incompatibiliza com um certo discurso panfletário de descrição da miséria e da destruição, e o arrisca a confundir-se com um positivismo exacerbado que pode beirar o discurso conservador ou reacionário do desenvolvimento sustentável;

há antropologias e antropologias...viveiros de castro (evc) volta e meia, em seu estilo, sua escrita, chama a atenção para que o sentido não reside na palavra como instância transcendente, com dimensão interior;
que nós revestimos e investimos as palavras de sentido no circuito de comunicação, na atualização cotidiana de nossos discursos;
o sentido não constitui uma dimensão interior ou algum estrato substantivo, alguma substância como um significado idealizado;
no exercício da prática textual lidamos com especificidades próprias ao universo conceitual;
no âmbito conceitual existe uma tendência mais poderosa ainda de cristalização dos morfemas;
o caráter político da linguagem científica, sua política discursiva, opera no sentido de definir e estabelecer territórios, de cristalizar os conceitos como marcos, como referenciais fixos que compõem os discursos como regiões demarcadas, definidas, estabelecidas;
penso até que esse recorrente dispositivo metalingüístico forneça um recurso explicativo de sua antropologia, ou melhor, um recurso implicativo do estatuto lingüístico e metalingüístico, formal e estilístico, de ressonâncias narrativas e discursivas, na definição dessa antropologia e seu paradigma;

o sentido se instaura no circuito em que se veicula, ganhando consistência com os usos feitos pelo grupo que reveste de novos sentido as palavras e conceitos;
assim, no estudo do discurso de grupos de pesquisa e instituições, pode-se descortinar verdadeiras dimensões discursivas encontradas no nível vocabular, no estrato léxico da verbalidade;
esses planos discursivos podem ter sido denominados, no âmbito de certos circuitos técnicos, ideologias;

19 janeiro 2007



aldeias vigilantes 1
a amazonlink é uma ong acreana, constituída há mais de cinco anos com o intuito de produzir política ecológica conectada às redes de informação tecidas atualmente, articulando os mais diversos coletivos inteligentes organizados e operantes na amazônia acreana;
meu interesse sobre o seu viés é o caráter humano de que se reveste sua problemática;
além desse humanismo que se equilibra com a técnica sem sobrepô-la - erro político e epistemológico das instituições tecnicistas e etnocêntricas que, ao extraírem prata da terra, jogam fora o ouro - meu interesse no trabalho da organização é a possibilidade de articulação entre interesses diversos, costurados pela antropologia, na definição de antropologias amazônicas;
a articulação de questões relativas à políticas de comunicação com temas relacionados à produção tradicional de conhecimentos está no centro da definição de antropologia do conflito que tenho articulado nos últimos anos;
a especificidade e autonomia da forma e do meio na condução da pesquisa antropológica que se desvencilhe dos limites não só do texto escrito no formato acadêmico, mas a própria linguagem verbal, podendo-se pensar a articulação de outra linguagens na produção de conhecimento, tais como o audiovisual, a rede, o rádio entre outros de acordo com o contexto de pesquisa e o caráter os interlocutores;

o projeto aldeias vigilantes opera no âmbito de articulação política em torno de problemas de biopirataria e propriedade intelectual;
o trabalho se desenvolve no eixo da articulação política visando o empoderamento em ações de ordem jurídica, desde o que é crime processável até os modos de se constituir e operar um agente jurídico e montar um processo;
em termos de pesquisas a serem aprofundadas, uma série de dispositivos nos interessam na abordagem do aldeias vigilantes;
inicialmente, a operação com coletivos inteligentes, produtores de conhecimento com especificidade epistêmica, jurídica e, sobretudo, política;
portanto, também a abordagem da dimensão política da forma em que se produz o conhecimento, para além de sua cristalização em conhecimento produzido;
a problemática da organização política via redes de comunicação, colaborando na constituição de corpos, de estações e malocas virtuais para esses sujeitos coletivos;

16 janeiro 2007

pequeno mario a vida está começando, você nasceu antes de ontem e tanta coisa aconteceu, pois é, assim é a vida: intensa para quem está vivo;
dizem que você é um cara de sorte; não tenho dúvida, que povo bonito esse seu, sua família, sua terra, seu rio; pra mim é um privilégio ser seu padrinho, passo a me sentir igualmente você, um cara de sorte;
assim, o que eu tenho pra te dizer, meu afilhado, é que a travessia está começando; estou aqui cultivando uma luz nessa vida, que essa vida, mario, é uma dádiva, estou então aqui sorvendo esse manjar, cultivando essa luz que espero servir pra ti, pra iluminar o seu caminho, por que a vida é bonita e perigosa, perigosa de perder o caminho do gosto da vida, então eu estou aqui curtindo esse amor tão caro e é com essa luz do sol da lua e das estrelas que quero abençoa-lo para que tenha sempre amor na vida; que nosso pai e nossa mãe iluminem seu caminho para que você enxergue longe e bem;
do seu padrinho amiltohm
antropologia conflitiva 2 a definição do campo epistêmico em que se travam tais batalhas será eficaz ainda, na abordagem de uma antropologia que se volta a uma problematização do universo jurídico;
a interface jurídica evidencia como poucas a tendência absolutizante de sua mediação, ao instaurar-se como instância positiva constituída sobre a rede de valores própria e exclusiva da sociedade ocidental;

o campo de problemas a partir do qual se iniciaram tais reflexões é o das possibilidades metodológicas sobre as quais se elaboraram antropologias políticas;
de uma abordagem em que se descrevem, e reflete sobre, as práticas políticas e outro povos a uma abordagem em que se volta à própria antropologia como instrumento político e se busca definir daí as implicações metodológicas;
procura-se, assim, lidar com tais implicações em seus diversos desdobramentos, da prática á escritura antropológica;

para tanto, devo elaborar práticas de pesquisa que visem aplicar essa antropologia do conflito ao pensamento jurídico;
submeter o pensamento jurídico à antropologia do conflito repercute em problemas de ordem política, epistêmica, entre outras;

o exercício inicial pode ser a elaboração de argumentações quanto à garantia de liberdade religiosa prevista na constituição;
em que medida se pode argumentar a inconstitucionalidade – dado o valor universal da constituição brasileira em território nacional, o que é questão problemática, sem dúvida, e que será retomada – do processo de evangelização de uma comunidade? será cabível considerar-se uma aldeia como uma comunidade outra, em que as disposições místicas estão postas num mercado livre? qual poderia ser o critério de regulação desse mercado místico em comunidades que se definem segundo valores culturais distintos dos nossos?

a partir daí, o desenho de uma antropologia do conflito passa a se definir: não se trata de descrever as práticas definidoras da alteridade, e sim estudar a dinâmica desse conflito em que consiste a abordagem antropológica;não teria sentido, assim, descrever a mística indígena detalhadamente, captura-la em nossa grafia, já que o que interessa é colocar-se e devir tal conflito primordial e próprio à antropologia;

antropologia conflitiva
entre os motivos por que atravessamos ultimamente um estudo das ilusões de óticas está a intenção de desmistificar a objetividade aparente da descrição etnográfica;
busca-se assim, circunscrever e revelar o condicionamento com que se toma a evidência do descritivismo objetivante, o qual sustenta nossa percepção pré-epistêmica da antropologia como descritora de mundos marginais, máquina que não poderia se voltar sobre si mesma;

o empirismo que nos leva a crer na transparência da linguagem, assim como no valor supremo da transparência e na neutralidade como método, não teria, portanto, descido do céu, e sim estaria sendo constantemente atualizado em nossa cultura epistêmica, em seu universo axiológico, seu campo de valores;

a interferência em que resulta a presença do pesquisador e seu olhar sobre a comunidade não seria unidimensional, não estaria, cá entre nós, encerrada no âmbito do descritivismo objetivante que inventa essa paleta idealizada, que não teria pintor a porta-la, uma paleta trancendente, um “olhar do mundo do conhecimento”, um mundo sem política;
esse olhar transcendente, sem sujeito é que define essa antropologia, pois não pode se assumir politicamente em ação e, assim, cria essa aberração idealizada, o nativo, descrita do ponto de vista do nada ou do deus ocidental que tudo observa-domina;

não é nesse universo do empirismo idealista que se dá a interferência ou alteração, ou intervenção, ou seja o que for;
no devir da antropologia do conflito, a alteração será projetada para o plano epistêmico, visando circunscrever, inicialmente, o idealismo fundante da prática antropológica descrita até então;
a neutralidade objetivante não terá, portanto, o valor positivo e pressuposto que tem lá;
busca-se aqui circunscreve-la, critica-la traçando o caráter;
além disso, a exportação ao plano epistêmico define alguns de seus pressupostos e desdobramentos necessários;
numa antropologia conflitiva não se tem como pressuposto o plano transcendente da descrição de uma alteridade idealizada;
aliás, se pode tê-lo, desde que se revista de um corpo epistêmico, ganhe dimensão na composição textual como sujeito viabilizado por enunciados;
no entanto, até se chegar na constituição do sujeito no universo epistêmico que caracteriza o início do trabalho antropológico, outras dimensões de conflito, outro campos institucionais foram estabelecidos e outras batalhas foram travadas;

a pressuposição do tal espaço transcendente da natividade idealizada, tão evidente (para o olhar pré-epistêmico) que não se chega a questionar sua validade, é produto (a partir da dimensão epistêmica em por que, aqui, me desloco) é produto de práticas antropológicas que não problematizam os conflitos políticos e institucionais que a precedem, tomando-os, ingenuamente, como pressupostos livres de desenvolvimento;
enfim, produto de práticas antropológicas que ignoram o universo político no qual essa própria disciplina é imaginada;
e, assim, propõe-se suspender valores como princípio metodológico justamente na hora que tais valores entram em ação;

14 janeiro 2007


designers do pensamento, para não os prendermos na metáfora do arquiteto, é o que se tem em mil platôs;
uma reflexão que se dá num plano que ficamos buscando, que é preciso construir para si, tal como ou propriamente o corposemórgãos;
afinal, construo-me como organismo, portanto, posso desconstruir-me como corposemórgãos;
o velho eu sou da consciência é arrebatado pela velocidade com que se chega aos devires, quando se percebe que não se precisa referir ao devir para devir, devem e devem-se concomitantemente;
a atualizadíssima concepção de consciência como obra da natureza, como criação divina, como fiat lux de uma consciência superior, encontra-se atravessada ou circunscrita por zonas de desconexão, de desligamento, de desorganização, de morte, de recolhimento, que possuem ou adquirem a partir de lá, valor negativo;
uma concepção humana do humano, tal como a genealógica de nietzsche, nos fornece a problemática matricial da dicotomia básica entre natureza e cultura;
sua consciência como produto não só da humanidade, como da dor, das experiências mais marginalizadas no contexto cultural do homem ocidental médio, consiste numa ruptura com princípios pressupostos à tradição de nosso pensamento que precisou conceber o sujeito como resultado de uma consciência de natureza metafísica, contraponto do corpo como manancial de instintos animais inferiores próprios da natureza;
a alma como obra divina e produto naturalmente concebido parece um paradoxo para a oposição natureza/cultura, ao menos até se possibilitar uma sobrenatureza sobrehumana;
tudo isso para se poder localizar o ponto de onde os designers de mil platôs estão situados para nos circunscrever a gênese constitutiva, ponto da ruptura entre natureza/cultura, unidade/multiplicidade;
o discurso, assim concebido, não é a manifestação, majestosamente desenvolvida, de um sujeito que pensa, que conhece, e que o diz: é, ao contrário, um conjunto em que podem ser determinadas a dispersão do sujeito e sua descontinuidade em relação a si mesmo; é um espaço de exterioridade em que se desenvolve uma rede de lugares distintos;
arqueologia do saber: 61

o enunciado no discurso
o enunciado consiste na dimensão subjetiva do texto, no campo em que se constituem as subjetividades, enfim, na construção de propriedades subjetivas compatíveis com o discurso, conforme definido aqui;
para estabelecer tais princípios enunciativos, conforme feito em relação ao discurso, toma-se como referência a ruptura com o modelo representativo da linguagem, que fornece uma imagem da subjetividade como um bloco, o sujeito como unidade – quer se trate do sujeito tomado como pura instância fundadora de racionalidade, ou do sujeito tomado como função empírica de síntese, nem o ‘conhecer’, nem os ‘conhecimentos’ (p.61);
opera-se no enunciado com uma dinâmica da dispersão: diversos status, diversos lugares, diversas posições que pode ocupar ou receber quando exerce um discurso, descontinuidade dos planos de onde se fala (p.61);
o modelo de subjetividade da dinâmica da representação e da identidade palavras/coisas se define como uma consciência idêntica a si;
a imagem do sujeito que se perpetua em nosso sistema de produção de conhecimento depende desse universo da representação, constitui-se nele e , portanto, pressupõe sua perpetuação;
é esse modelo de subjetividade que opera como pressuposto organizador, caracterizando uma concepção de autor, com todas as suas implicações políticas, típica desse universo da representação;
constituir-se um modelo de análise e produção textual a partir da dispersão, no qual a experiência formal esteja centrada no devir;
é para isso que se opera tal genealogia da representação, em que se busca acionar seus recursos narrativos, seus procedimentos textuais, pois tais procedimentos são o material de que se dispõe para a atividade de produção com devires;
o que se busca destacar aqui é a contribuição da perspectiva epistêmica, de se colocar nesse plano epistêmico em que se opera a antropologia numa esfera específica;
articular discursividade antropológica, ou seja, a antropologia produzida a partir de tais referenciais discursivos, com o/no plano epistemológico, em que pode construir teorias virtuais nas quais se esboça concepções alheias aos nossos pressupostos, aos nossos procedimentos, aos nossos valores;
entre autor como unidade subjetiva e texto como dispersão de sujeitos, há um abismo cuja ponte que leva à transposição de uma a outra beira é parte do projeto aqui proposto;
essa subjetividade da dispersão, o devir, caracteriza-se em foucault como especificidade de uma prática discursiva, por oposição à definição metafísica de uma consciência abstrata e anterior ao discurso;
a partir daí, o discurso será buscado como campo de regularidade para diversas posições de subjetividade (p.61);

alguns princípios discursivos
os discursos constituem uma rede, uma teia, um tecido de materialidade e natureza próprias, não se caracterizam por seu caráter representativo, de relação descritiva que coloca em relação palavras e coisas;
os discursos se caracterizam como práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam (p.56);
rompe-se, portanto, com uma dinâmica da identidade de um mundo em si, da concepção da linguagem como espelho do mundo, como campo refratário onde se pode projetar a realidade como forma da verdade evidente;
o que caracteriza o discurso em sua autonomia criadora, constituinte é o princípio da relação opositiva, concepção tão cara à lingüística e sua definição de linguagem;
para a lingüística, o signo é arbitrário e a língua é forma, um sistema que se define pela oposição, em que um signo só tem sentido por sua oposição em relação aos demais;
lembre-se que a lingüística se torna referência a uma série de campos de conhecimento por sua definição de linguagem como sistema de oposições, como sistema de natureza estritamente formal;
que a língua é forma é a definição fundamental do manual saussureano;
segundo a arqueologia, portanto: o objeto não preexiste a si mesmo, retido por algum obstáculo perceptivo, mas existe sob as condições positivas de um feixe complexo de relações (p.51);
assim, tem-se o contraponto de tais disposições discursivas: uma caracterizada pela representatividade, pela identidade palavra/coisa, e a outra que se caracteriza por uma alteridade entre tais dimensões, por sua problematização;
não mais a identidade entre palavra e mundo, o discurso passa a consistir no espaço das relações textuais que constitui objetos, no qual se erige um regime dos objetos;
descrição e/ou miração

o que será contraposto ao nosso modelo de produção de conhecimento serão modelos de conhecimento virtuais, que ganharão sentido a partir do contraponto;
quem descreve seu interlocutor – assobia – não pode – chupar cana – construir esse sistema virtual de criação de saber próprio do interlocutor, com que o interlocutor pode problematizar nosso modelo, estabelecendo um diálogo epistêmico, ainda que virtual;
essa é a importância de deslocar o debate antropológico para a cena epistêmica dos conflitos de sistemas de saber, onde inclusive a disciplina se define, já que no âmbito de nosso sistema de valor ocidental, já se estabelece por princípio uma reação de objetividade e que o outro é colocado no plano do objeto, enfim, não se situa como sujeito do debate, restringindo-se a objeto de operações descritivas e intelectuais;
colocar a problemática discursiva, incluindo o enunciado, é questionar os critérios na definição de subjetividade, de sujeito, de locutor dentro desse campo, na posição de seus pressuposto, em seu deslocamento;
por isso a eficácia de contrapor, ainda que simplificadamente, tais dois modelos já incansavelmente exibidos: de um lado o descritivismo de nossa representação metafísica e de outro o subjetivismo da cosmologia imanente do xamanismo;

o engraxate engraxado
o regime enunciativo, assim, pode definir a propriedade formal da linguagem áudio-visual, aquilo que constitui sua força expressiva em termos antropológicos;
a experiência demonstra uma infinidade de possibilidades discursivas de articular essa linguagem e suas propriedades com a pesquisa antropológica;
temos um exemplo simples e prático tomado do filme de paulo sacramento, o prisioneiro da grade de ferro;
com recursos simples o autor elabora blocos conceituais: com a inversão da implosão do carandiru ele reconstrói filmicamente sua realidade, nada será representado, a linguagem é pura produção;
é o que se verá nos diários construídos pelos detentos, técnica simples que define o caráter antropológico de um filme cuja problemática teria toda chance de cair no sociologismo descritivista;
não é isso que se vê, o que se vê são perspectivas inusitadas, recortes originais, tema impensáveis, aspectos incognoscíveis, a que não se teria chegado não fossem auto-retratos;
o filme de fato propõe uma experiência de linguagem, cria-se como experiência de linguagem antropológica original, elabora uma experiência de pesquisa antropológica com recursos próprios do audiovisual;
tratar o outro como objeto não se trata de um problema moral, como todo público que ouve a expressão faz parecer, é procedimento tão comum que poucos dele se apercebem o quanto recorre;
certo que possui sua especificidade política – aliás, é o problema político por excelência –, entretanto, para esta ser devidamente dimensionada passa-se pelo crivo de seu entendimento técnico, narrativo, discursivo, enunciativo;
descrever uma formulação enquanto enunciado consiste em determinar qual é a posição que pode e deve ocupar todo indivíduo para ser sujeito;
foucault, arqueologia

a partir da articulação proposta pelo filme o homem invisível, de andréa veloso, de áreas de conhecimento diversas como cinema, sociologia, psicologia, política e antropologia, toma-se a discursividade como fio condutor que possibilita costurar esses temas mais diversos;
o que se chama discursividade é a construção narrativa, os recursos de linguagem que visam administrar a distribuição das vozes;
a partir da construção de subjetividades da narrativa, as vozes, no referencial verbal, ou as perspectivas, no referencial visual, são acionadas, agenciadas pela central enunciativa;
posto o fio condutor, procurar-se-á traçar o problema que tal discursividade nos proporciona;
traçar-se-á dois modelos narrativos pautados na discursividade, um marcado pela objetividade, pelo discurso direto, pela descrição, outro, pela subjetividade, pela articulação de vozes, polifonia, pelo agenciamento de enunciados diversos, descentralizados;
a amplitude deste problema ganha sua dimensão quando colocada na devida proporção/dimensão epistêmica, em que se trata de vozes coletivas, de contraposição de sistemas de saber com sua natureza política;
tal contraponto é uma imensa contribuição para uma ciência como a nossa, um modelo de produção de conhecimento com as características do saber ocidental;
possibilita redefinir uma série de pressupostos ligados a genealogia dessa ciência, tais como noções de subjetividade, padrões valorativos, princípios políticos;
tal contraponto que se funda, que busca seus princípios e pressupostos nessa genealogia epistêmica, nessa arqueologia, possui uma dimensão discursiva que resulta na definição narrativa dos modelos;
tal definição se caracteriza de procedimentos narrativos de distribuição discursiva que se articulam constituindo uma linguagem com propriedades específicas;

os debates sobre a discursividade que conduzem atualmente os trabalhos nesta pesquisa on line conheceram novas vias após o agenciamento de o homem invisível via cine batelão;
a retomada dos conceitos nos tem conduzido a uma intensa bateria de estudos que deverão correr por aqui e à retomada de textos há muito prometidos de retomada tal como os platôs e a teoria do enunciado de foucault com a arqueologia e o que é um autor;
pois é, a viagem a bordo do batelão contribui com os desdobramentos de nossas articulações entre cinema e antropologia simétrica;
este tem sido tema de pesquisas recentes junto ao núcleo de pesquisas em antropologia e florestas visando encaminhar recursos de linguagem audiovisual que operem manobras conceituais, ou seja, criar antropologia audiovisual tendo por princípio a exploração da linguagem audiovisual em suas propriedades específicas para a criação de antropologia com suas propriedades igualmente específicas;
a via encontrada é a da discursividade, que trata a distribuição das vozes ou das perspectivas no texto audiovisual;
o objetivo, para além de compreender a dimensão discursiva da antropologia e o teor político que define a discurividade, consiste em produzir uma antropologia com os recursos disponibilizados pelo debate em antropologia simétrica;
desses recursos, os mais importantes consistem no caráter formal do texto antropológico e sua importância da dinâmica epistêmica que reveste essa simetria;
a simetria destaca o caráter formal do texto antropológico ao dobrar-se sobre si para devir o discurso epistêmico nativo, a forma, inclusive e principalmente, em que esse saber se configura;
portanto, o debate em torno do teor político da linguagem, da forma, da discursividade com a atribuição de autoridade em sua distribuição de enunciados se contrapõe à confusão que persiste em infirmar a antropologia por seu conteúdo e não por sua forma;

09 janeiro 2007

rumo a antropologias amazônidas
volto às distintas concepções da antropologia – e do pensamento – inglesa e da antropologia francesa;
enquanto um se reveste de um projeto que visa redefinir o estatuto da ciência e a natureza do texto, o outro reforça a cadeia em que se mantém encerrado o discurso de tradição metafísica;
os críticos não-construtivistas do construtivismo proposto por foucault, deleuze e outros, desconfiam há muito da possibilidade de se desenredar da tradição metafísica: o velho riso cínico diante do terremoto nietzsche;
nessa crítica, em que se distinguem atitude e conhecimento, a própria mofa em relação à nietzsche se confunde entre o discurso irônico de nietzsche e a fala do feiticeiro, o de assim falava... ;
já me referi a essa passagem, passagem do zaratustra com que jogo em meu texto o que se ouve... (mattos, 2005), passagem em que o autor desdobra a voz de zaratustra nos personagens do feiticeiro e do homem de ciência na tribuna da caverna, em que nos identificamos com esses pseudo-zaratustras e caímos do cavalo;
jogo de linguagem que nos possibilita deduzir toda uma teoria do conhecimento, teoria lingüística ou teoria dos enunciados que está desdobrada em diversas dimensões e procedimentos pela obra do autor e aqui se desenrola em recursos literários de regimes enunciativos;
teoria que nos possibilita desdobrar vias e articulações com a leitura de nossas referências, costurar com as linhas de fuga dos autores que estimulam a criação de boas paisagens conceituais;
bem, o que iniciei a dizer, enfim, é que são zelosos os guardadores da concepção inglesa, que retoma a tradição metafísica pelo viés do empirismo e do liberalismo;
o risco das experiências criadoras, de poder deixar de lado a segurança do mundo das essências, é ameaçador para aqueles que trabalham com as concepções reacionárias e os conceitos conservadores;
de fato, a experiência de devir propõe uma ruptura milenar no pensamento, ruptura com o muro que se cristalizou na distinção que tem importante passagem em aristóteles entre cultura e natureza, entre o que se define por natureza do cultural e natureza do natural, em que se pauta o estatuto que define essa diferença;
aliás, dando um passo a frente, que apropriação se fez dessa distinção que dá fundamento à própria percepção, percepção essa que é tomada como elemento do âmbito da natureza e não em sua dimensão cultural, ou seja todos os homens perceberiam de forma homogênea;
remetemos novamente à o que se ouve..., já que foi este nosso ponto de concentração a partir do texto de nietzsche a concepção do trágico, em que trata bem essa construção cultural da percepção e a forma com que ela se apresenta naturalizada para dar base à filosofia e à ciência;
essa construção da percepção, articulada à dimensão textual do discurso, é um ponto privilegiado em nietzsche, é o ponto em que se articula também a construção da concepção de consciência e de psicologia que sustenta igualmente esse discurso filosófico e científico visado (genealogia da moral);

fala-se, entretanto, do primeiro nietzsche, pois o autor mesmo mede as problemáticas conseqüências de enveredar e apostar nessa via e converge sua mira e centra fogo na problemática da subjetividade, da construção da pessoa, do homem ocidental e sua dimensão discursiva;
portanto, a articulação construção de corpos e construção de pessoas, de subjetividades, apropriação dos regimes de representação para a confecção de sujeitos está problematizada na anti-filosofia e na antropologia de nietzsche;
ainda assim, insisto que o autor coloca em questão o problema da separação entre natureza e cultura tomando como problema importante o estatuto da percepção e sua dimensão na construção do conhecimento, ou melhor, sua apropriação enquanto princípio na ciência ocidentalista;
ao se apropriar de máquinas de produção de percepção o pensamento se define como poderoso instrumento na produção de realidades, na produção de fatos, de naturezas;
aqui se estabelece uma nítida aliança entre a função do discurso religioso e do discurso científico ao longo do mito do processo de evolução do capitalismo moderno, leia-se história ocidental;
como ambos reificam valores já pressupostos, dogmas mesmo, julgando estar partindo de princípios universais, boa parte desses princípios baseados na percepção e na concepção de percepção como algo naturalizável e universalisável;
como funciona hoje ainda essa apropriação do natural e do cultural e de que forma a indústria do consumo do capitalismo global os utiliza em suas definições de necessidade;
pedro conduzindo o bote
no domingo à noite comemos a comida da jô, que é sempre surpreendente;
fui apresentado para o quiabo: uma delícia, quiabo frito;
de fato, ela dizia: o milho tirado e cozido na hora tem outro sabor; é fato, ele parece mais doce e mais saboroso;
a noite passaram subindo o rio dois rios: nivandro e francisco;
o francisco parou para passar a noite: de rio branco até o compadre são quatro horas de subida, para o francisco são mais quatro, então eles pararam para passar a noite no espaçoso bote do bebé;
a darci subiu para tomar um chá conosco depois do jantar;
assistimos ao sementes orgânicas, curta que preparei a partir de minha primeira viagem à área de jô e bebé;
no dia seguinte, pela manhã, comemos o tradicional pão de milho com leite de castanha enquanto desenhávamos a nossa casa;
voltamos na segunda pela manhã, quando jô já vinha para ficar em rio branco para o parto;
e cá estamos nós de prontidão para a qualquer momento abençoar o mais novo acreano de 2007...
tempo de roçado, a gente subindo o rio e o rio subindo;
foi no sábado que a jô e o bebé fizeram o convite ou deram a notícia: sim, nós seremos os padrinhos do garotão que está para nascer;
subimos o rio no domingo pela manhã depois de uma feira boa em que os produtos foram todos vendidos;
tomamos viagem e no caminho topamos com a chuva, uma bela chuva de inverno amazônico;
fomos pra baixo da lona e seguimos viagem, um primor;
conforme bebé tinha dito, pude conduzir o barco rio acima, uma experiência inesquecível de corpo a corpo com o rio acre;
o roçado está uma beleza: milho, quiabo, gergelim, melão, berinjela macaxeira, etc
fiquei meio grog de tanto meruim me picando, mas depois de um banhi di rio fiquei 100%;
o rio estava fundo e sua corrente forte, bem diferente do verão, quando o rio está baixo;
subindo o rio...

08 janeiro 2007

discursividades 1
o discurso do antropólogo adquire força a partir de que deixa de ser um discurso individual de um cientista que descreve uma cultura e passa a ser um discurso de uma cultura sobre outra, a partir da hora que o antropólogo deixa uma pretensa objetividade individual e particular de seu discurso, a qual pretenderia absolver com isso sua cultura, e passa a utilizar sua cultura como observatório, dando dimensão política a seu discurso e assumindo a antropologia como máquina de conquista ou máquina de guerra;
esse processo, num primeiro momento, é utilizado ainda visando sustentar o discurso etnocêntrico, pois se move no contexto politicamente comprometido [ou seja, não-problematizado] do positivismo e da objetivação do outro [lê-se: coisificação do outro];
sua estratégia é similar a do discurso religioso; tanto quanto ele, embasa-se na noção de verdade e nos valores pressupostos que a sustentam;

04 janeiro 2007

passo a problematizar agora uma distinção fundamental de nosso pensamento: a distinção entre natureza e cultura;
tal distinção funciona como pressuposto em grande parte das considerações em antropologia, epistemologia e mesmo em educação lato sensu;
penso aqui em natureza como campo do fato e do dado e cultura como espaço do feito e do fabricado;
a partir daí, certas colocações memoráveis vêm à mente;
lembro, por ora, do problema colocado por isaac pianko numa fala sua, sobre a noção de pobreza e do modo que essa noção levou ruína tantos indígenas que acreditaram na concepção de riqueza do branco, que não conseguiram se libertar dessa palavra e de seu pesado fardo;
ele dizia mesmo de poder se libertar da carga pesada que resta sobre essa noção e do prejuízo que ela traz não só para indígenas, como para outras culturas;
e se perguntava: o que é pobreza? questão a que propunha como resposta ser a falta da terra para os ashaninka e seus parentes, já que a riqueza para eles está na terra com suas belezas, seus animai, suas pedras, suas árvores, seus rios, seus remédios, seu prazer, seu alimento;
pois a riqueza para o branco é bastante pobre por não dar conta dessa diversidade proporcionada pela vida do homem indígena;

bem conceitualmente o que nos interessa desse debate é a questão dessa fronteira entre cultura e natureza;
tal fronteira remonta ao pensamento grego, mais especificamente ao pensamento de aristóteles, com sua definição e distinção entre necessário e contingente;
entenda-se esfera do humano – ou do não-natural, considerando a polarização humano/natural ou cultura/natureza – como lugar do feito e do fabricado, e esfera do não-humano – ou do natural – como espaço do dado, do fato;

assim, os brancos não associariam a pobreza à cultura, para eles é uma questão de natureza, visto que a definem como a falta de bens necessários, tais como alimentação, moradia, enfim bens materiais;
penso que ao se retirar esse conceito do espaço em que ele funciona tão bem para submeter os quais submete a não verem a riqueza da vida, a se manterem escravos do assistencialismo, esse instalado por meio da violência e do autoritarismo que caracterizam essa sociedade, a, enfim, não lutarem por sua autonomia;
ao se retirar, portanto, tal conceito de sua obviedade, de seu campo de ação e analisa-lo de outra perspectiva, ele se deixa ver em sua dimensão cultural;
deixa a naturalidade com que o revestimos para assumir sua propriedade de criação histórica e sua função social;
há muito indústrias da seca e da fome já revelaram esse processo de naturalização de processos de produção de miséria, os quais definem inclusive perfis na cultura brasileira;
o que no interessa aqui é pontuar a utilização política de processos naturais como a seca ou a fome para revestir criações sociais, produtos de nossa empresa humana demasiado humana;

onde a psicanálise diz: pare, reencontre seu eu, seria preciso dizer: vamos mais longe, não encontramos ainda nosso corpo sem órgãos, não desfizemos ainda suficientemente nosso eu;
mil platôs3

recorro aos mesmos temas que são os temas de minha preferência e procuro não crer em imperativos que não sejam estéticos;
a construção de subjetividades como devir, esse é um dos temas que flagrei (certo que meio às avessas) em minha pesquisa e que me possibilitou colocar os guarani urbanos da aldeia do jaraguá-sp, em função da detecção de pressupostos censuráveis em que incorria meu discurso, minhas apropriações enunciativas, minhas palavras de ordem científicas;
pois, o modelo com que operava antes de conduzir a crítica aos princípios epistêmicos que sustentam a direção, os vieses autoritários de nossa dinâmica discursiva, esse modelo me mantinha atado a uma determinada e cristalizada concepção de subjetividade;
a crítica da concepção de subjetividade pressuposta em nosso modelo de produção de conhecimento, nossos aparelhos políticos de confecção de saberes, passa a funcionar como um princípio definidor da antropologia;


...escrever é talvez trazer à luz esse agenciamento do inconsciente, selecionar as vozes sussurrantes, convocar as tribos e os idiomas secretos, de onde extraio algo que denomino eu [moi]; eu [je] é uma palavra de ordem;
mil platôs2

o ovo 3
apreender o funcionamento da máquina, das máquinas suas engrenagens;
a máquina não é exterior, aliás, só tem exterioridade, já que minha própria interioridade (consciência) é uma função dessa grande máquina;
as vezes, parece que cultuamos nossas próprias cadeias, nossos próprios grilhões se tornam objetos de culto a partir do momento em que os assumimos, nos identificamos neles com toda a força da intimidade;
assim ocorre com o eu, essa palavra de ordem, esse dispositivo lingüístico ao qual associamos uma noção sublimada de alma que nos restringe, nós seres humanos diante de um mundo desalmado, incomunicável;
portanto, sou eu o laboratório em que se pode experienciar a máquina de fazer gente, de fabricar consciências;

...o discurso direto é um fragmento de massa destacado, e nasce do desmembramento do agenciamento coletivo; mas este é sempre como o rumor onde coloco meu nome próprio, o conjunto das vozes concordantes ou não de onde tiro minha voz; dependo sempre de um agenciamento de enunciação molecular, que não é dado em minha consciência, assim como não depende apenas de minhas determinações sociais aparentes, e que reúne vários regimes de signos heterogêneos; glossolalia...

o ovo 2
o problema não se refere a nos identificarmos ou não com os outros, pois o problema se concentra em se identificar consigo mesmo;
a máquina que nos fabrica, formata o sujeito para que ele se identifique consigo;
ao se exercitar a desidentificação consigo, a concepção usual de amor acaba por se inverter;
ao invés de consistir num exercício de identificar-se com o outro da maneira com que se identifica consigo, o outro passa a fazer parte desse processo de desidentificação;
muitos procedem tal processo, numa postura de assimilar a impessoalidade imanente da natureza, mas ficam presos a dinâmica a auto-identidade;
a auto-identidade remete à concepção da subjetividade grega, com seu modelo de consciência e sua idéia de amizade, que tem por princípio a auto-identidade;


é toda a linguagem que é discurso indireto; ao invés de o discurso indireto supor um discurso direto, é este que é extraído daquele, a medida que as operações de significância e os processos de subjetivação em um agenciamento se encontram distribuídos, atribuídos, consignados, ou à medida que as variáveis do agenciamento estabelecem relações constantes, por mais provisórias que sejam...

o ovo 1
dizia uma profecia das galáxias: escrever sobre escrever é o futuro do escrever...
a busca do fio, das linhas que subvertam a linguagem, conduzem a uma zona de vizinhança, um campo de fronteira, de indiscernibilidade em que não se distingue mais os recortes claros da ficção e da descrição, da arte e da crítica;
como se junto com essa primeira distinção, se tivesse abolido a segunda, aquela que difere a natureza dos textos que se referem à realidade, aos fatos, da natureza dos textos que se referem a textos, dos textos refratários;
será, de fato, possível uma escritura de fatos, será possível livrar-se da cadeia de textos a que estamos atados;
a biblioteca de babel se assemelha, a um só tempo, a uma imensa sala de espelhos, a um labirinto, a uma prisão;

do virtual 2
a lição da etnologia, lição dada por outros universos criativos, é a de que a linguagem constrói referentes;
por se manterem na superfície, as linguagens tem a propriedade de fazer a interpenetração de corpo e linguagem;
é essa contribuição trazida na reflexão sobre a eficácia simbólica de lévi-strauss, apagam-se, aqui, as fronteiras entre cultura e natureza, tão bem delimitadas em nossa cultura pela ciência racional que teria exorcizado o misticismo do pensamento, ao tomar a metafísica como recurso estritamente estrutural;

a lição, que escapou ao leva-la ao pé da letra – ou justamente por não leva-la de fato ao pé da letra, ou ainda por considera-la em um código ainda não disponível – é a de que não são tão claros os divisores, os marcos que definem processos naturais e culturais;
a linguagem cria mundos, concebe referentes: uma inversão do universo logocêntrico em que o ocidente está, há tanto, imerso;
esse pensamento que visa apreender o universo com a linguagem, apostando na fidelidade desta pena, utilizando-se politicamente dessa fé, nas disputas de força, nos jogos pelo poder;
essa fé em que há um mundo comum às culturas, um mundo por trás do mundo de aparências, a ser resgatado pelos homens com o auxílio da linguagem, o qual serve de arma na submissão da percepções dissonantes;
mundo que pode ser descrito, decodificado, interpretado, descoberto;
a inversão que se desenha consiste na manifestação de um pensamento em que universos são criados a partir de palavras, uma liberdade em relação às restrições da verossimilhança, algo inconcebível para o ocidente, que persegue a verdade que lhe trouxe o poder sobre os outros povos;
algo inconcebível para um povo cujas instituições ensinam e exercitam, nos formam e conformam na direção da unificação do mundo e do universo a sua imagem e semelhança;

essa inversão proposta pelo pensamento indígena opera uma inversão na tradição ocidental a partir do momento que passa a constituir um procedimento, ou melhor, uma via a ser tomada, marco, princípio para o pensamento da antropologia;
a possibilidade dessa inversão da base metafísica se dá a partir da abertura para o pensamento e as categorias nativas, quando se começa a abrir espaço em nosso pensamento e em nossos pensadores para a crítica proporcionada por outros pensamentos;
do virtual1
desprender-se, despregar-se do hábito de pensar por referente;
pensamento leve que constrói realidades, necessita da leveza para ser rápido;
pensar com o corpo, devir muscular;

o pensamento do virtual se desvencilha do referente, o universo dos referentes, oblitera o anteparo;
o virtual constrói seus referentes, remete a si próprio, às suas propriedades, linguagem que remete à linguagem, sucessivamente, experiência de linguagem que devora a vida;
linguagem que se conscientiza da linguagem, dobra da linguagem sobre si própria, imagem de imagem, circulo narcísico;
tomar o referente por original é um círculo vicioso, o referente é também cópia, sempre cópia da cópia, cópia de cópias;

a música proporciona esse desprendimento, organiza-se em espiral, cujo centro é livre;